Como vive quem não consegue memorizar nenhum rosto

Homem cego | Crédito: BBC
Image caption Portador do transtorno enxerga perfeitamente, mas não consegue reconhecer ou identificar rostos

Imagine do dia para a noite não conseguir mais reconhecer seus pais, filhos ou parentes mais próximos. Você pode vê-los, mas não sabe quem são, nem se estão rindo ou franzindo a testa. Foi o que aconteceu com o britânico David Bromley. Após sofrer uma lesão no cérebro, ele passou a apresentar um transtorno pouco conhecido, a 'cegueira de feições'.

Bromley, de 67 anos, convive com a desordem, cujo nome verdadeiro é prosopagnosia, desde os 11 anos. As pessoas com esse problema enxergam, mas são incapazes de identificar rostos. Ou seja, veem olhos, nariz e boca, mas não reconhecem nem a si mesmos nem a seus interlocutores, bem como gestos ou emoções.

"Eu posso reconhecer minha esposa se eu for para casa, pois parto do pressuposto de que será ela quem estará lá. Mas se a encontrar na rua por acaso, não vou reconhecê-la", disse ele à BBC.

Segundo médicos, a ‘cegueira de feições’ afeta milhares de pessoas no mundo que, no entanto, não sabem que são portadoras do transtorno.

"Descobri que tinha esse problema quando fui a um encontro de amigos que não via há 30 anos. Dois deles tinham sido meus melhores amigos, fomos juntos a todos os festivais de música, viajamos juntos para a Espanha para trabalhar no verão. Éramos muito próximos, mas acabamos nos afastando pelos rumos diferentes que cada um tomou", conta Bromley.

Naquela ocasião, o britânico já estava se recuperando da lesão que havia sofrido no cérebro e pensava que a única sequela do acidente era a perda parcial de sua visão, que o impossibilitava de dirigir. Por essa razão, Bromley foi acompanhado do irmão ao encontro. A surpresa veio durante a conversa dentro do carro de volta para casa.

"Quando estávamos retornando, lembro que disse a meu irmão: 'Frank e Miky não mudaram nada, continuam exatamente os mesmos’, para logo em seguida, lhe perguntar: ‘Os dois estavam vestidos com teentops, não?' (espécie de suéter que esteve na moda nos anos 70)"

O que Bromley estava vendo, na verdade, era a memória que tinha de seus amigos daquela época. "Meu cérebro estava me dizendo que Frank e Miky estavam ali, mas a imagem que eu tinha deles não correspondia à realidade".

"Foi então que descobri que tinha cegueira para feições".

Congênita e adquirida

Segundo a literatura médica, existem dois tipos de prosopagnosia: uma congênita, na qual a pessoa já nasce com o transtorno e outra adquirida, que ocorre normalmente após algum tipo de dano cerebral.

Estima-se que 2% da população mundial apresentam o primeiro tipo do transtorno. No Brasil, estudos mostram que pelo menos 5 milhões de pessoas sofrem da desordem.

Mas Bromley faz parte do segundo grupo, que é raro.

"Esse segundo tipo é extremamente raro, já que a região do cérebro afetada é muito específica", explica à BBC Ashok Jansari, especialista no transtorno e professor de Neuropsicologia Cognitiva da Faculdade de Psicologia da Universidade do Leste de Londres.

"A verdade é que eu não sei o que é pior: nunca ser capaz de reconhecer as pessoas ou parar de reconhecê-las aos 56 anos, como aconteceu comigo", questiona-se Bromley, para quem a doença é um constrangimento social.

"Estávamos de férias em Cuba. Um dia eu comecei a conversar com um homem da Dinamarca , quando uma mulher se aproximou e disse 'Bom dia' , ao que eu respondi 'Olá, prazer em conhecê-la, pensando se tratar da esposa do dinamarquês, quando, na verdade, era a minha", conta Bromley.

Situações como essas já se tornaram frequentes em sua vida. "Em outra ocasião, estava em uma piscina quando vi uma mulher loira em uma jacuzzi. Assobiei pensando que era minha esposa, quando, de repente, ouvi uma voz atrás de mim: 'David, o que você está fazendo?' Eu estava assobiando para a mulher errada."

Bromley não é cego. O problema acontece quando ele volta a cruzar com uma pessoa 10 ou 15 minutos depois de conhecê-la.

"Uma vez participei de uma reunião para um grande projeto. Tudo correu tranquilamente até que depois da reunião, fui ao encontro de outro cliente que trabalhava para a mesma empresa e com quem queria fechar um negócio. Ele me convidou para tomar um café quando um outro homem chegou e nos abordou. Eu lhe disse: 'Prazer em conhecê-lo'. A resposta dele foi: 'Mas nós nos vimos há 10 minutos na reunião!'".

Vergonha social

Desde então, Bromley se vê obrigado a explicar seu problema: "Toda vez que vou ver um cliente, digo que tive uma lesão cerebral que me deixou incapaz de reconhecer rostos e adianto que, se ignorá-los, não estou sendo hostil."

Esse tipo de constrangimento social também afeta a britânica Sandra, que não quis ser identificada na reportagem. Há 14 anos, ela teve uma encefalite (infecção no cérebro) que evoluiu para uma cegueira de feições.

Embora ela tenha desenvolvido uma versão mais branda da prosopagnosia, uma vez que pode reconhecer pessoas que conhecia antes de ter a desordem, prefere evitar o contato com elas.

"A vida com prosopagnosia é muito constrangedora, porque as pessoas me cumprimentam e eu não sei quem elas são. Caso seja alguém que esteja em seu local de trabalho (como o açougueiro ou o padeiro), posso adivinhar quem são. Mas se estão fora de contexto, não consigo reconhecê-las", conta ela à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

Sandra dá aulas em uma escola, mas seus alunos não sabem de sua doença. "Se eu vir alguém todos os dias, posso reconhecê-lo. Mas se eu encontrar um dos alunos na rua e ele me cumprimentar, posso inferir que se trata de uma criança da escola, mas não necessariamente sei quem é."

"Eu não digo nada a meus alunos, tento fazer um esforço para memorizar seus rostos", acrescenta .

Especialistas entendem as frustrações de Bromley e Sandra. "Não reconhecer as pessoas pode causar um constrangimento social", diz Jansari, que acompanhou o caso dos dois britânicos.

"Hipoteticamente, se alguém tem prosopagnosia mas não sabe, e seu trabalho exige o reconhecimento de pessoas (como no caso de um guarda de segurança), então eles podem estar em maus lençóis. Mas duvido que esse tipo de situação ocorra, pois quem tem esse transtorno, mesmo sem saber, provavelmente vai dizer aos outros que "não é muito bom" em reconhecer rostos", explica o especialista.

No entanto, Jansari relata casos em que a pessoa teve de deixar o emprego por causa da doença. "Um exemplo aconteceu com um professor que estava tendo dificuldade em reconhecer seus alunos, o que estava causando problemas quando tinha de adverti-los".

Deficiência?

Colegas de trabalho de Sandra sabiam que algo estava errado com ela. "Mas agora a maioria dessas pessoas já saiu e há pessoas novas que não sabem do meu problema."

"A razão pela qual não falo da minha doença não tem a ver com o fato de as pessoas pensarem que eu não sou capaz de realizar meu trabalho. Eu não quero me sentir envergonhada ou que elas pensem que há algo de errado comigo."

Enquanto a prosopagnosia não é reconhecida como uma doença, Jansari defende que alguns casos deveriam ser tratados como tal.

A enfermidade não tem cura. "No caso da adquirida, uma vez que a parte danificada do cérebro não vai se recuperar, é impossível curar o problema", diz o especialista .

"Mas ainda não sabemos o que causa a prosopagnosia congênita. Mas, hipoteticamente, no futuro, se eles descobrirem que a causa é genética, isso talvez possa ser corrigido.”

Para os que sofrem prosopagnosia, só resta uma coisa a fazer: melhorar suas estratégias para reconhecer as pessoas.

"Se eu for às compras com a minha mulher, tento memorizar a jaqueta que ela está usando. Então, se eu vir alguém com uma jaqueta amarela e cabelos loiros, sei que se trata da minha esposa", diz Bromley.

O esforço que David depreende em estudar o rosto das pessoas que só vê uma vez fez com que ele passasse por um constrangimento certa vez em uma entrevista de emprego.

"O entrevistador me disse que eu o estava olhando como se fosse um serial killer".

"Às vezes estudo o rosto das pessoas com tamanha intensidade que pode parecer intimidador. Tento encontrar uma característica de cada um, como uma cicatriz ou a cor dos cabelos, para poder me lembrar depois com quem conversei", acrescenta.

Mas essa estratégia não é 100% eficaz.

Jansari, da Universidade do Leste de Londres, conta que, mesmo que David tente observar tudo noss mínimos detalhes, incluindo a linguagem corporal, viu certa vez uma foto de quem pensava ser o cantor George Michael "quando, na verdade, era minha, da época em que eu tinha barba comprida e usava brinco de ouro".

"É muito angustiante", confessa David. "Todo o tempo eu tenho que me concentrar em pessoas e lugares, porque (a doença ) também afeta a minha percepção geográfica ".

"Preciso melhorar minhas estratégias de reconhecimento", diz ele.

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