Assange se recusou a conhecer ator que o interpreta em filme

  • 10 outubro 2013
Assange e Cumberbatch | Foto: PA
Image caption Cumberbatch disse que cogitou abandonar filme após argumentação de Assange

Julian Assange se recusou a conhecer o ator britânico Benedict Cumberbatch, que se preparava para interpretá-lo no cinema. A informação foi revelada quando um e-mail entre ambos foi divulgado na imprensa.

No e-mail, enviado em janeiro. Assange disse que o filme O quinto poder era "tóxico" e "distorcido".

Ele também pediu ao ator: "Reconsidere seu envolvimento nesta empreitada".

O hacker australiano está vivendo na embaixada equatoriana em Londres após pedir asilo em 2012, para evitar uma extradição para a Suécia.

Divulgado pelo seu site, Wikileaks, o e-mail foi escrito em resposta ao pedido de Cumberbatch por um encontro, que Assange disse ser "uma má ideia".

"Se eu me encontrar com você, estarei validando esse filme infeliz", escreveu.

"Não posso permitir que esse filme alegue qualquer autenticidade ou veracidade. Em sua forma atual ele não tem nenhuma, e fazer isso só ajudaria a campanha contra mim."

O quinto poder foi aplaudido de pé em sua estreia mundial durante o Festival de Cinema de Toronto no mês passado.

O filme estreia esta sexta-feira nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, e no dia 25 de outubro no Brasil.

Os críticos se dividiram a respeito do filme, apesar de terem elogiado a performance do ator, famoso pela série Sherlock, da BBC, e pelo filme Jornada nas Estrelas - Além da Escuridão.

'Verdade distorcida'

Em seu e-mail, Assange elogiou os trabalhos anteriores de Cumberbatch e disse que os dois seriam "associados para sempre no imaginário público".

"Eu acho que você é uma boa pessoa, mas não acredito que esse seja um bom filme", disse Assange.

"Ele é baseado em um livro mentiroso escrito por uma pessoa que quer se vingar de mim e de minha organização."

O filme se baseia no livro de memórias Os bastidores do Wikileaks, do ex-porta-voz do Wikileaks Daniel Domscheit-Berg.

O roteiro também usa material do livro Wikileaks: A guerra de Julian Assange contra os segredos de Estado, dos jornalistas britânicos David Leigh e Luke Harding.

Image caption Filme se baseia nas memórias de ex-porta-voz do Wikileaks, interpretado por Daniel Bruhl (dir.)

Assange prossegue: "Filmes são as formas mais poderosas e traiçoeiras de moldar a percepção pública, porque elas não estão no radar da exclusão consciente. Este filme vai enterrar boas pessoas fazendo um bom trabalho, no exato momento em que o Estado está indo atrás delas."

"Ele vai asfixiar a versão verdadeira dos eventos, em um momento no qual a verdade é mais necessária."

"(O filme) vai se justificar dizendo que é ficção, mas não é ficção. É uma verdade distorcida sobre pessoas vivas lutando contra oponentes titânicos. É um trabalho de oportunismo político, vingança e, acima de tudo, covardia."

O e-mail foi publicado na íntegra em diversos sites.

Em comentários acompanhando a divulgação da carta, Assange disse que o filme da DreamWorks, dirigido por Bill Condon, é "um festival sonolento e geriátrico que só o governo americano poderia amar".

O Wikileaks irritou os Estados Unidos em 2010 ao publicar milhares de documentos confidenciais sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão, além de correspondências diplomáticas americanas.

Em junho de 2012, Assange entrou na embaixada equatoriana em Londres, quando seu apelo contra a extradição para a Suécia, questionando acusações de crimes sexuais, foi negado.

Ele nega as acusações e afirma que têm motivação política, mas a Grã-Bretanha se recusa a permitir seu trânsito para fora do país, o que o mantém preso na embaixada.

No e-mail em janeiro Assange alertou Cumberbatch: "Você será usado, como um pistoleiro contratado, para assumir a aparência da verdade com o objetivo de assassiná-la. Para me apresentar como alguém de moral duvidosa e para me colocar em uma história falsificada. Para criar um trabalho não de ficção, mas de verdade corrompida".

"Não por que você queira, claro que você não quer, mas porque, no fim, você é um ator que é pago para seguir o script, não importa quão corrupto seja."

No mês passado, Cumberbatch disse que chegou a considerar se desligar da produção do filme depois de receber o e-mail, que afirmou ser "uma justificativa inteligente, cativante, ponderada e meticulosa" de por que ele não deveria participar.

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