Polêmica marca participação brasileira na maior feira literária do mundo

  • 10 outubro 2013
Feira Literária de Frankfurt (Reuters)
Image caption Debates sobre biografias e greve de professores esquentam a presença brasileira na Feira Literária de Frankfurt (acima)

A participação do Brasil na Feira Literária de Frankfurt, que segue até o domingo, está sendo marcada por polêmicas e pela mobilização dos escritores da comitiva brasileira, que aproveitaram o evento para fazer uma análise crítica da história brasileira, manifestar apoio aos professores em greve no Rio de Janeiro ou discutir a autorização prévia para biografias.

A feira é o maior evento editorial do mundo, e neste ano o Brasil é homenageado como convidado de honra.

Uma das polêmicas ganhou força no primeiro dia do evento, quarta-feira, quando o escritor Luiz Ruffato, em seu discurso, fez uma análise crítica da história do Brasil, dizendo, entre outras coisas, que o país nasceu "sob a égide do genocídio" dos índios.

Embora tenha sido muito aplaudido, o escritor - conhecido pelo romance Eles eram muitos cavalos - disse que chegou a ser hostilizado por alguns brasileiros. "Eu estava dando uma entrevista para um jornalista alemão ontem (quarta-feira), quando dois brasileiros passaram aqui e tentaram me agredir fisicamente", narrou Ruffato à BBC Brasil nesta quinta.

Os agressores chamaram o escritor de "mal agradecido", disseram que ele "expôs o Brasil" e deveria "deixar o Brasil".

O escritor Laurentino Gomes (de 1808 e 1889), por sua vez, levantou a polêmica das biografias não autorizadas, dizendo que o Brasil, apesar de democrático, "impõe dificuldades ou mesmo censura" ao trabalho dos biógrafos e pode se tornar "o paraíso da biografia chapa-branca".

Temer

E se Ruffato foi muito aplaudido, o contrário ocorreu após o discurso do vice-presidente Michel Temer, que declarou que o Brasil está em uma "situação confortável", destacando a evolução político-econômica do país.

O vice-presidente se disse um poeta nas horas vagas e revelou que sua poesia recorda dos seus momentos da infância em São Paulo.

A fala repercutiu mal entre os escritores selecionados para representar o Brasil em Frankfurt. "Nós escritores vamos sempre preferir um poeta que faça política, a um político que faça má poesia", disse Marcal Aquino, que escreveu os roteiros de filmes como <i>O invasor</i> (2001)e <i>O Cheiro do Ralo</i> (2007).

"Quem sabe isto aqui seja um tijolo fundamental para que alguma mudança aconteça, chame atenção do mundo para outras coisas e não necessariamente aquilo que é folclórico e aquilo que já é conhecido", disse Aquino.

Apoio a greve dos professores

A maioria dos 70 escritores brasileiros presentes à feira assinou um abaixo-assinado manifestando apoio aos professores cariocas em greve por melhores salários, reiterando a necessidade de mais investimento do governo na educação.

Paulo Lins, autor do livro <i>Cidade de Deus</i>, abriu um painel dando apoio à greve. "Teve dinheiro para a Copa, teve dinheiro para fazer estádio e não tem dinheiro para pagar melhor os professores, para aparelhar tecnicamente as escolas", disse.

O autor fez um elo entre os investimentos na educação e o futuro dos escritores. "Se não melhorar a escola pública, não vai ter leitor. É um trabalho que teria que vir da família, mas como não há muitas famílias de leitores, a escola tem que passar esta prática. Para você ter uma ideia, tem escola no Rio de Janeiro que não tem biblioteca, isto é um disparate", disse Lins.

Entre os 70 escritores brasileiros selecionados pelo Ministério da Cultura, ele é o único escritor brasileiro negro. O fato gerou uma matéria feita pelo jornal alemão Süddeutsche Zeitung, que falou em racismo na escolha dos representantes.

"Existe racismo, sim, não na escolha, mas sim no que o Brasil fez, no desenrolar do país, por sua história. Para você ser escritor, você precisa de conhecimento, você precisa de base, e o negro está na escola pública e a escola pública não dá isso", declarou o escritor.

Paulo Coelho na Feira

Para participar da feira, o Ministério da Cultura selecionou 70 escritores, que seguiram para a cidade alemã juntamente com políticos como a ministra Marta Suplicy e o vice-presidente Michel Temer.

A escolha de representantes da comitiva gerou controvérsia e provocou uma baixa de peso no grupo antes mesmo da Feira começar.

Paulo Coelho, considerado o autor brasileiro em atividade mais conhecido no exterior atualmente, cancelou a sua participação de última hora, criticando a escolha dos representantes.

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