Jornal chinês pede na primeira página libertação de jornalista

Manchete do 'New Express' retirada da página do jornal (Crédito: reprodução/'New Express')
Image caption A manchete do New Express, em grandes letras, pede a libertação de jornalista

Um jornal da China publicou um raro editorial em sua primeira página pedindo a libertação de um de seus jornalistas, Chen Youngzhou, preso pela polícia na semana passada.

O jornal <i>New Express</i>, basedo na cidade de Cantão, sul do país, abriu o editorial com uma manchete com letras grandes que diz "Por favor, libertem-no".

A publicação afirma que Chen Youngzhou foi preso devido a artigos que escreveu sobre uma companhia de equipamentos de construção da província de Hunan (sul do país), a Zoomlion. O governo de Hunan é proprietário de parte desta empresa.

Em seus artigos sobre a Zoomlion, Chen investigou as finanças da empresa, alegando que a companhia não deu informações corretas sobre suas vendas e exagerou seus lucros, o que causou uma queda no preço de suas ações.

Em uma declaração dada à bolsa de valores de Hong Kong no final de maio, a Zommlion afirmou que as alegações eram "falsas, infundadas e enganosas".

A polícia em Hunan confirmou que o jornalista foi detido sob acusação de "prejudicar a reputação da empresa".

'Ingênuos'

O New Express afirmou que não tinha se pronunciado desde 19 de outubro, quando Chen foi preso, pois temia que o jornalista fosse maltratado na prisão.

"Sempre pensamos que, enquanto informássemos com responsabilidade, não haveria problema; e que, mesmo se houvesse um problema, poderíamos publicar correções e pedir desculpas; se fosse realmente grave, e perdêssemos um processo, iríamos pagar ou fechar, se fosse necessário", afirmou o jornal em seu editorial.

"Mas o fato é que somos muito ingênuos. Chen Yongzhou passou três dias e três noites (sob custódia) antes de ver um advogado", acrescentou o jornal.

Image caption Reação de jornal é inesperada em meio à censura na China, dizem correspondentes

Como todos os jornais chineses, o <i>New Express</i> está sob controle do governo, mas, mesmo assim, construiu sua reputação fazendo um jornalismo investigativo, segundo o correspondente da BBC em Xangai John Sudworth.

Nos últimos anos ocorreram outros choques entre órgãos de imprensa e o governo chinês.

Em janeiro, jornalistas do <i>Southern Weekly</i>, um jornal semanal de Cantão, pediram a demissão do chefe de propaganda do governo depois que ele mudou um editorial do jornal, transformando-o em uma homenagem ao Partido Comunista.

Acontecimento raro

Segundo o jornalista Dong Le, do Serviço Chinês da BBC, o artigo de primeira página do New Express é algo raro e corajoso em um momento em que o governo chinês está apertando o cerco à imprensa e à internet no país.

Os 250 mil jornalistas registrados na China estão passando por um treinamento obrigatório para garantir que eles sigam a linha do Partido Comunista.

Alguns blogueiros famosos foram presos por supostamente "espalhar boatos". Outros foram simplesmente impedidos de divulgar suas opiniões.

"O aumento do controle ocorre em um cenário de crescimento rápido dos mercados de mídia e internet na China. O <i>New Express</i>, estabelecido em Cantão em 1998, se transformou em um dos jornais mais influentes na cidade. Venceu os adversários ao divulgar notícias mais rapidamente e investigar mais profundamente as histórias", disse o jornalista da BBC.

Apoio

Os usuários do weibo, a versão chinesa do Twitter, reagiram à prisão de Chen Yongzhou.

Cerca de 30 advogados deram seus nomes para apoiar o jornalista e organizaram um grupo online, o "Grupo de Observação da Detenção do Repórter do <i>New Express</i>, Chen Yongzhou". O grupo ainda não divulgou o que planeja fazer.

Jornalistas também estão usando o weibo para pedir a libertação de Chen.

"Apoiem o <i>New Express</i> para garantir os direitos de seus jornalistas. (...) Porque a polícia prendeu o senhor Chen? Em que base legal? É detenção ou prisão?", escreveu um editor do <i>Dongfang Jinbao</i>, um jornal de Henan (província no leste do país).

Outros jornalistas e usuários do weibo também comentaram a censura às notícias sobre a prisão de Chen.

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