Incerteza marca exploração de campo tido como 'última esperança' da OGX

Sede da OGX, no Rio (AFP)
Image caption Analista vê Campo de Martelo como 'última tacada' da empresa de Eike Batista

Com o pedido de recuperação judicial da OGX - empresa de petróleo e gás do conglomerado de Eike Batista -, uma das últimas possíveis fontes de produção de petróleo para a empresa é seu campo de Tubarão Martelo.

O campo, único em fase de desenvolvimento pela empresa, se tornou um dos principais alvos de expectativas do mercado em torno da OGX, após a empresa desistir da exploração de outros na Bacia de Campos (Tubarão Areia, Tubarão Gato e Tubarão Tigre) - que haviam sido exaltados como altamente promissores, mas acabaram não sendo viáveis comercialmente.

A expectativa da OGX é começar a produção de Tubarão Martelo até o final deste ano - plano, em princípio, que será mantido mesmo com o pedido de recuperação judicial desta quarta-feira, segundo a assessoria da empresa.

Em reportagem nesta semana, o jornal <i>Financial Times</i> chamou o campo de a "última esperança" para Eike, que tenta tornar a operação viável comercialmente para facilitar a conversa com seus credores.

No entanto, a incógnita em torno do pagamento das dívidas da OGX - e do próprio potencial desse campo - desperta incerteza no mercado.

"O que tenho ouvido (no mercado) é que a empresa se tornou uma interrogação", diz à BBC Brasil Adriano Pires, da consultoria em energia Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). "(O campo) pode dar algum alento, mas a empresa simplesmente não está gerando caixa."

Produtividade

Em agosto, a OGX obteve a licença de exploração ambiental para os blocos que incluem o campo de Martelo, a 95 km da costa brasileira, e em outubro anunciou a certificação dessas reservas.

Mas essa certificação, feita pela consultoria DeGolyer & MacNaughton, prevê reservas equivalentes a apenas um terço dos 285 milhões de barris que haviam sido estimados em abril de 2012 pela própria OGX. A OGX ressalta, porém, que o levantamento inicial fora feito com base em informações preliminares e que não podem ser comparados com estimativas posteriores.

De qualquer maneira, há dúvidas quanto à produtividade possível do campo.

"A OGX espera obter uma produtividade melhor no Campo de Tubarão Martelo em comparação com o de Tubarão Azul, que trouxe resultados significativamente inferiores", disse à BBC Brasil por e-mail Gretchen French, analista da agência de rating Moody's.

"O campo pode se tornar uma fonte importante de produção e fluxo de caixa para a empresa, mas a OGX precisa de dinheiro para conseguir desenvolver o campo. E ainda há muitos riscos operacionais e geológicos e desafios para levar o campo à (fase de) produção", agrega.

Entre esses riscos estão o tempo necessário para conseguir resultados no local - alguns estimam esse prazo em anos -, num momento em que a empresa não tem de onde tirar dinheiro para investir na produção.

"A dúvida é como financiar a exploração desse campo", explica Walter de Vito, analista de petróleo da Tendências Consultoria. "Até para isso a OGX precisaria de refinanciamento (de suas dívidas) de curto prazo - algo difícil, se nos colocamos nos lugar dos credores, que podem não querer pôr mais dinheiro sob o risco de não obter retorno."

Crise

A atual crise da OGX veio da incapacidade de pagar suas dívidas e manter a confiança dos investidores após não conseguir produzir petróleo nos níveis esperados inicialmente.

No início de outubro, a empresa deixou de pagar US$ 45 milhões em juros de suas dívidas e teve 30 dias para renegociá-las.

Na última terça-feira, a empresa anunciou que as negociações foram infrutíferas. O pedido de recuperação judicial foi apresentado à justiça e, a partir do momento que seja aceito, a OGX terá 180 dias para fazer a reestruturação de suas dívidas e apresentar uma proposta de pagamento aos credores.

Caso seja acatado o pedido, este será o maior processo de recuperação judicial de que se tem notícia por uma empresa na América Latina.

Nesse cenário, a exploração do Campo de Tubarão Martelo é vista por muitos como a "última tacada, ainda que não seja uma tábua de salvação", diz De Vito.

"Se o campo se mostrasse produtivo, talvez gerasse uma disposição diferente dos credores, apesar da situação delicada da empresa e de toda incerteza envolvendo a Bacia de Campos (onde outros campos não deram os resultados esperados)."

Ao mesmo tempo, há dúvidas com relação a um acordo de US$ 850 milhões, que parece longe de ser finalizado, com a petroleira malaia Petronas, que envolve 40% do bloco onde se encontra o Campo de Tubarão Martelo. Em agosto, a Petronas condicionou o acordo à reestruturação da dívida da OGX.

Com tudo isso, algumas corretoras consultadas pela BBC Brasil disseram ter baixas expectativas quanto à capacidade da OGX em obter resultados de curto prazo no campo.

Adriano Pires, do CBIE, diz que há incertezas também quanto ao que aconteceria com o Campo de Martelo se confirmada a recuperação judicial - se, por exemplo, esse ativo ficar indisponível e se as licenças de exploração e produção da OGX seriam perdidas.

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