Kirchnerismo sofre revés em eleições legislativas na Argentina

Sergio Massa | Reuters
Image caption Sergio Massa, da oposição, venceu na província de Buenos Aires

Os candidatos do governo peronista da presidente argentina Cristina Kirchner foram derrotados nas principais províncias do país nas eleições legislativas do domingo, segundo dados oficiais.

A votação foi realizada para renovar metade das cadeiras da Câmara dos Deputados, um terço do Senado e para eleger vereadores nas dez das 24 províncias do país. Apesar da derrota nos maiores colégios eleitorais, o governo manterá a maioria dos assentos nas duas Casas, com 32,23% dos votos.

Os opositores peronistas aliados chegaram em segundo com 23,85% dos votos, os parlamentares da União Cívica Radical (UCR), Socialistas e aliados garantiram 23,73% das cédulas e PRO e aliados receberam 7,66% dos votos. Na soma, as três maiores forças opositoras juntas receberam mais votos do que o governo.

"Nós ganhamos e vamos manter a maioria no Congresso", disse o ministro da Defesa e ex-líder do governo na Câmara, Agustín Rossi, da Frente Para a Vitória (FPV).

Já para a deputada reeleita Elisa Carrió, da oposição, "o governo perdeu, mas não quer reconhecer".

Buenos Aires

A maior derrota para o governo aconteceu na província de Buenos Aires, que é a maior do País e representa 38% do eleitorado nacional.

O atual prefeito da cidade de Tigre, Sergio Massa, da opositora Frente Renovadora, obteve 43,81% dos votos, contra 31,81% do candidato do governo, Martín Insaurralde.

Com o resultado, Massa ampliou a diferença sobre Insaurralde em relação às primárias, chamadas de PASO (Primárias, Abertas, Simultâneas e Obrigatórias) realizadas em agosto, em que teve 5,4% votos a mais do que o candidato do governo. Além disso, Massa agora se reafirma como principal líder da oposição ao kirchnerismo.

"Esse resultado em si já demonstra a derrota do governo porque a província de Buenos Aires é decisiva", disse Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nova Maioria.

Image caption A presidente, reeleita em 2011, se recupera de uma cirurgia no cérebro

Para os analistas Sergio Berensztein, da consultoria Poliarquia, e Muriel Fornoni, da consultoria Managment & FIT, as autoridades da gestão de Cristina "não reconheceram a derrota", o que, na avaliação deles, distancia o governo do eleitorado.

O analista político do jornal Clarín, Eduardo van der Kooy, afirmou que o governo "repetia o mesmo discurso das primárias, quando perdeu, mas disse que ganhou".

Já o filósofo e kirchnerista Ricardo Forster ponderou, observando que o pleito não se trata de uma eleição presidencial.

"A presidente Cristina Kirchner mantém forte apoio popular e a governabilidade está garantida", disse ele a emissoras de TV.

Imagem x votos

Cristina Kirchner foi reeleita em 2011 com 54% dos votos e, segundo os analistas, seu patrimônio eleitoral teria diminuído "entre 20% e 28%" nesta eleição legislativa, como observou o colunista do jornal La Nación, Joaquín Morales Solá.

A presidente não votou porque está de repouso desde que foi submetida a uma cirurgia para a retirada de um hematoma no cérebro, no dia 8 de outubro. Ela não fala em público desde então e o cargo vem sendo exercido pelo vice-presidente, Amado Boudou.

"Ela está bem, de muito bom humor. Não sei quando ela retorna (ao trabalho)", disse o filho Máximo Kirchner, de 36 anos, ao votar em Rio Gallegos, na província de Santa Cruz, na Patagônia.

Segundo Muriel Fornoni, a imagem positiva da presidente subiu após seu problema de saúde, mas o fato "não foi canalizado para os votos nos candidatos do governo".

2015

A eleição legislativa foi realizada no dia que marcou os três anos da morte do ex-presidente Nestor Kirchner, em 2010. Ele governou a Argentina entre 2003 e 2007, foi sucedido pela esposa e este ano o kirchnerismo completou dez anos.

Nas redes sociais, alguns eleitores comemoraram a derrota do governo nas urnas.

"Não existe mal que dure dez anos. Kirchnerismo tampouco", escreveu o usuário do Twitter, Facundo Landivar.

Analistas observaram que a expectativa agora é em relação ao dia do retorno da presidente e se ela manterá o atual rumo político e econômico.

"Temos dez anos de estabilidade política, econômica e cambial na Argentina. Essa eleição é a consolidação da democracia reinstaurada há exatos 30 anos. E falta muito para 2015", disse a presidente do Banco Central, Mercedes Marcó del Pont, quando questionada se a disputa presidencial de 2015 já começa agora.

A inflação, apontada como maquiada, a disparada do dólar paralelo (era cotado a 4,49 pesos em outubro de 2011 e agora já bate 10,10 pesos) e problemas de segurança pública estão entre as principais críticas da oposição.

"Falta muito para 2015, mas a votação deste domingo mostrou que os eleitores querem mudanças. Querem políticos que dialoguem, não querem mentiras como a da inflação e querem segurança", disse Sergio Massa.

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