Pais mandam crianças de até 3 anos para internatos na China

  • 5 novembro 2013
Crianças ficam no jardim de infância entre a manhã de segunda-feira e a tarde de sexta

Laços familiares são extremamente importantes na China, mas milhares de pais chineses ainda enviam crianças de até 3 anos de idade para estudarem em internatos.

Kelly Jiang, de 4 anos, é uma dessas crianças. "Tchau, mamãe e papai", balbucia a menina, quase sem olhar para trás, enquanto saltita em sua classe, com seus pais a poucos passos de distância.

Enquanto os pais se despedem, ela já está conversando alegremente com sua professora e seus colegas de classe.

Não há choro, abraços nem longos adeuses, o que é bastante impressionante, já que Kelly não verá ou falará com sua mãe ou seu pai por mais quatro dias.

Kelly é uma de dezenas de crianças de 3 e 4 anos enviadas para esta creche em sistema de internato em Xangai.

Da manhã de segunda-feira à tarde de sexta ela e seus colegas de classe brincam, aprendem, comem e dormem em sua classe pintada com cores claras e seu dormitório anexo, e vão para casa somente aos fins de semana.

Segundo diretor de internato, muitos pais não têm tempo ou energia para cuidar dos filhos

E eles não estão sozinhos. Há outros internatos semelhantes em Xangai, Pequim e outras grandes cidades chinesas. Não há dados oficiais, mas estima-se que o número de crianças de até 4 anos em sistema de internato cheguem a milhares em todo o país.

Família acima de tudo

Na cultura tradicional chinesa, a família vem acima de tudo, então como o fenômeno do bebê em internato pode ser explicado?

Segundo Xu Jing, diretor-executivo do jardim de infância Kangqiao, em Xangai, afiliado ao Instituto de Bem-Estar da China, há algumas razões para isso.

"Algumas pessoas acham que é bom para as crianças porque ajuda a promover independência. Outros pais não têm tempo ou energia para cuidar de seus filhos", diz Xu.

"Além disso, na cultura chinesa tradicional muitos avós vivem com a família, e (por conta da política chinesa de filho único), às vezes há quatro avós, dois pais e apenas uma criança numa casa", observa.

"Alguns pais temem que os avós vão mimar as crianças, então eles as mandam para cá", diz.

Pais de Kelly Jiang fazem parte da nova elite econômica do país

O pai de Kelly, Jamie, é um consultor de investimentos, e a mãe não trabalha. Como parte da elite econômica da China, eles são capazes de pagar as mensalidades de cerca de R$ 2.250.

"Fizemos muitas pesquisas e descobrimos que os jardins de infância em internato beneficiam as crianças extrovertidas. Eles as ajudam a se tornar mais independentes e a ter melhores habilidades para a vida", explica Jamie.

"Nossa Kelly era um bebê muito alegre que gostava de ter seu próprio espaço, então a mandamos para um teste. E então perguntamos se ela queria ficar no internato, e ela disse que sim", conta.

Os olhos de Jamie se enchem de lágrimas quando questionado se sente falta de sua filha.

"No começo, sentíamos muito a sua falta. Mas achamos que, como o mundo está se tornando mais global, cedo ou tarde ela vai sair de casa", comenta.

"Nós a deixamos sair antes para ajudá-la a se tornar mais independente e ser capaz de sobreviver em sociedade. Mas adoramos o tempo que passamos com ela", diz.

Os jardins de infância em sistema de internato foram estabelecidos na China em 1949 para cuidar de órfãos da guerra civil, além dos filhos de líderes do Partido Comunista que se viram de repente ocupados demais para cuidar das crianças.

Hoje em dia, conforme as filhas de carros Audi e Mercedes na porta comprovam, é um grupo muito diferente que manda seus filhos para essas instituições.

Muitos internatos estão mudando para sistema diário com período integral

O número de alunos chegou ao seu ponto mais alto nos anos 1990, quando mandar uma criança para uma escola desse tipo se tornou um símbolo de status da moda.

Mas recentemente o sistema se tornou menos popular. Alguns internatos, tanto privados quanto estatais, estão fechando. Outros estão deixando de ser internatos para se tornar escolas em período integral, com as crianças dormindo em casa.

Tempo com os filhos

O jardim de infância Kangqiao, em Xangai, funcionava antes exclusivamente em sistema de internato, mas agora apenas 3 de suas 22 classes são para crianças que dormem no local.

"Os pais chineses estão começando a perceber que é importante passar mais tempo com seus filhos quando eles são muito jovens, porque eles estão aprendendo e é um estágio importante do crescimento", diz Xu Jing.

"Também aconselhamos o sistema diário como uma opção melhor aos pais que têm tempo e habilidade para ficarem com seus filhos", diz.

Para psicóloga crítica dos internatos, experiência pode deixar marcas negativas em jovens

A psicóloga Han Mei Ling é uma crítica ferrenha dos internatos para crianças pequenas, depois de ter atendido vários adultos e adolescentes marcados de maneira negativa pela experiência.

"Eles se sentem abandonados e irrelevantes. Eles lutam para encontrar seu lugar na vida, e não sabem como se comportar em sua própria família", diz.

"Isso só dá independência na cabeça dos pais. É uma experiência bruta", afirma.

Han acredita que uma cultura na qual o orgulho da família depende sobretudo do sucesso ou do fracasso de uma criança é a razão pela qual alguns pais ainda mandam seus filhos para esses jardins de infância.

"A maioria das famílias chinesas entende que é importante para as crianças ficar com seus pais, mas eles também têm grandes expectativas para seus filhos", diz ela.

A experiência de um internato é vista por alguns pais como uma forma de a criança sair na frente. A partir do jardim de infância em sistema de internato, eles devem ir para uma escola em internato e então, a esperança é de que consigam um lugar numa boa universidade", afirma.

Sensação de exclusão

Mas um grande número de ex-alunos de jardins de infância em internato diz que foi uma experiência ruim.

A modelo Wang Danwei foi enviada para um internato aos 3 anos, depois que seus pais se divorciaram.

"No fim eu acabei aceitando de maneira passiva, mas eu nunca gostei", conta. "Quando, mais tarde, fui para uma escola em internato, senti uma sensação extrema de exclusão e passei a maior parte do meu tempo sozinha, quieta e resistindo a conhecer novas pessoas".

Visita a jardim de infância à noite mostrou que muitas crianças sentem falta dos pais

Ajustar-se à vida longe dos pais é difícil para quase todas as crianças pequenas. Durante o dia, elas estão ocupadas com atividades prazerosas, mas numa visita da reportagem da BBC ao Kangqiao durante a hora de dormir, metade da classe estava em prantos.

Crianças choravam pedindo pelos pais em cenas de sofrimento desolador, enquanto professores tentavam acalmá-las.

"Hoje temos muito choro porque é o começo do ano acadêmico, e estas crianças são novas ao sistema de internato", afirmou o administrador do jardim de infância, Huang Ying.

"Em dois meses, nenhuma criança mais chora na hora de dormir. As crianças têm fotos de família, então quando precisam de seus pais elas podem falar às fotos e é como se eles estivessem lá com eles", diz.

Mo Li, uma estudante de 17 anos, também diz ter enfrentado dificuldades ao ser enviada a um internato com 3 anos, mas afirma que depois teve uma experiência boa.

"No começo, eu sentia falta de casa, mas a comida era muito boa e o ambiente maravilhoso, com muitas árvores", ela diz.

"Acho que agora, em comparação com outras pessoas da mesma idade, estou mais independente e mais responsável. E você pode ver isso como algo positivo ou negativo, mas eu também estimo mais minha relação com meus pais do que meus colegas", afirma.

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