Curso profissionalizante vai dar aulas de culinária à base de insetos

Image caption Em maio a FAO defendeu o uso de insetos como opção para o combate à fome

Um centro público de formação profissional na Bélgica ensinará seus alunos a cozinhar grilos, minhocas, borboletas, lesmas e escorpiões em uma proposta destinada a popularizar o que seu vice-diretor considera como "a alimentação do futuro".

Foi uma reportagem sobre a diminuição da oferta de carne no mundo que inspirou Philippe Berger, vice-diretor do Cefor da cidade de Namur, a criar um novo curso de culinária à base de insetos, cuja primeira turma iniciará as aulas no próximo dia 27.

"Em muitos países do mundo os insetos fazem parte da alimentação cotidiana. Na Europa pode ser vanguardista, mas por que não experimentar? Devemos ser abertos, seguir as tendências", disse em entrevista à BBC Brasil.

Grilo ao pesto e bombom de larva

Apesar de se tratar de aulas de formação profissional oferecidas por um órgão do governo regional, Berger diz que seu objetivo não é formar chefs especializados, mas romper um "tabu cultural".

Para isso, o curso de um mês iniciará com dois módulos teóricos nos quais os alunos aprenderão, primeiro de tudo, que "comer insetos não significa necessariamente ingerir grilos inteiros", segundo o professor, o consultor meio-ambiental Lionel Raway.

"A principal aplicação são as farinhas de inseto, usadas para fazer hambúrgueres, salsichas, molhos, etc. Quando se elimina o impacto visual do inseto inteiro no prato, as pessoas passam a aceitar mais facilmente (esse tipo de culinária)", explicou.

A parte teórica também inclui visitas a produtores locais de insetos e farinhas de insetos e instruções para iniciar uma criação própria.

Durante os outros três módulos, de aula prática, Raway ensinará a preparar receitas como hambúrguer de farinha de gafanhoto, grilo grelhado ao pesto e bombons recheados com bicho-da-farinha (larva de uma espécie de besouro).

Entre os 20 alunos, de idades entre 25 e 50 anos, figuram tanto curiosos como profissionais do setor de alimentação que pretendem introduzir o novo estilo culinário em alguns dos pratos que comercializam.

É o caso do confeiteiro Benjamin Nicolas, que se inscreveu no curso por curiosidade, "em busca de ser surpreendido".

A culinária com insetos está cada vez mais na moda na Europa. Trabalho em uma confeitaria moderna, com um patrão que aprecia inovações. Esse tipo de cozinha (com insetos) poderá interessá-lo, poderá abrir portas", afirmou à BBC Brasil.

Ainda assim, Nicolas diz que deve limitar o uso desse tipo de animais a umas poucas criações "vanguardistas" por medo da aceitação do mercado.

Confiando no sucesso do curso, o Cefor já abriu inscrições para uma segunda turma, que iniciará as aulas em janeiro, à condição de que todas as vagas sejam preenchidas até lá.

'Alimentação do futuro'

Para o professor Raway, o interesse da culinária com insetos está em "reduzir a dependência que temos atualmente das redes de distribuição e passar a uma alimentação mais autônoma e ecológica", já que "todo mundo pode ter uma criação de grilos ou de minhocas, mesmo vivendo em apartamento".

"Com os insetos, podemos produzir a mesma quantidade de proteína encontrada na carne com um consumo muito menor de energia e espaço. Também podemos favorecer a reciclagem alimentando os insetos com nosso lixo orgânico", argumentou.

Apoiado em dois anos de leituras e viagens de estudo a países que praticam a entomofagia (alimentação à base de insetos), Raway assegura que um alimento à base de inseto contém, em média, vinte vezes mais proteínas que a mesma quantidade de alimento à base de carne.

"Acredito que daqui a uns 50 anos a carne de animais mamíferos é que será exótica, ocasional", afirmou.

Em maio passado a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) defendeu como opção para o combate à fome o uso de insetos, atualmente consumidos por dois bilhões de pessoas no mundo.

Notícias relacionadas