Lucas Mendes: Cães e depressão

  • 14 novembro 2013

Allie Brosh tinha três anos quando aprendeu a usar um isqueiro. A mãe apareceu quando ela ia incendiar a roupa da irmã. Com ajuda de um psiquiatra e a paciência da família, Allie cresceu sem grandes tragédias.

Aos 10 anos, como dever de casa, tinha de escrever uma carta dirigida a ela mesma, com 25 anos. Quando achou a carta numa garrafa, constatou que a prioridade dela, aos 10 anos, era, primeiro, o cachorro da família, Murphy, depois, ela própria e, por último, os pais.

Estas histórias estão no livro Hyperbole and a Half (Hipérbole e Meia, em tradução livre), que Allie lançou esta semana, a maioria delas já contadas num blog que está na lista americana dos mais engraçados e inteligentes da blogosfera.

Allie tem 28 anos, é loira, casada e bonita. Ela se formou em biologia, planejava uma carreira na biomedicina, mas teve uma crise de identidade. Se refugiou num quarto e começou a blogar um diário, que combinava reflexões existenciais, banalidades, história da infância e dos cães. São ilustrados por ela mesma, com caricaturas extravagantes e coloridas.

O primeiro blog teve dois comentários, mas logo chegou a oito. Achou inacreditável que pessoas de verdade e interessantes se interessassem pelo que ela tinha a dizer. E se multiplicavam a cada a mês.

A intenção dela era que, ao escrever um blog, desse a impressão de que fosse um comediante num palco diante de uma plateia.

Dois temas recorrentes foram suas maiores atrações: os cães e as depressões.

Os cães eram o Simples e o Ajudante, ambos salvos de canis da cidade. Simples é uma fêmea apatetada. Levou meses para aprender a subir e descer escadas. Congelava no meio. Allie e o marido acharam que Simples precisava de assistência, voltaram ao canil e pegaram outra fêmea, que chamaram de "Helper Dog", ou Cão Ajudante, para dar uma apoio a Simples. Descobriram que Ajudante detesta outros cães. Tive uma assim, Xuxu. Nenhum bicho chegava perto.

O outro tópico foram as depressões de Allie. Começaram em 2011, logo depois de assinar o contrato do livro que saiu esta semana por uma grande editora. Allie começou a perder as emoções. A reação inicial foi positiva, porque achava que emoções eram sinais de fraqueza, mas quando desapareceram por completo, sentiu que a tinha perdido a graça.

Com remédio, apoio do marido e da mãe, saiu da crise, mas teve uma recaída mais profunda. Planejou o suicídio. O problema era como sair da vida para a morte sem ter o trabalho sujo de se matar. O plano: durante a corrida matinal, entraria no rio congelado, desmaiaria com a hipotermia e morreria afogada. Daria a impressão de um acidente.

Ela conta que não levou adiante porque imaginou a dor do marido. A mãe, que durante um tempo tinha trabalhado numa linha telefônica de ajuda a pessoas que planejavam se matar, também ajudou a tirar Allie do abismo.

Numa sala em Nova York, diante de centenas de fãs, Allie parece constrangida. Conta que tem vontade e medo de ficar e em pé sozinha num palco. As respostas dela são curtas e nervosas. O que fala parece verdade, mas falta alguma coisa.

Eu me interessei por ela quando ouvi parte de uma entrevista numa rádio e pela minha falta de interesse na mídia social. Entrei no Facebook há uns anos, 5 ou 6, e sai três horas depois. Há duas semanas, tuitei pela primeira vez. Fiquei petrificado quando vi que tinha 2.500 seguidores antes de colocar um dígito e sem ter o que dizer. 140 caracteres? Um pavor, mas antes de pensar em suicídio, vou ter uma ideia ou seis letras: "Bye bye".

Nos últimos anos, Allie passou a maior parte do tempo reclusa no seu quarto, no minimundo de Bend, no Oregon, onde criou histórias universais, enfrentou e venceu os demônios da depressão.

Agora, Allie vai enfrentar o mundo das conferências, noites de autógrafos, do teatro, cinema e televisão. Vamos ver se os novos demônios vão dar oxigênio ou afogar o talento de Allie.

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