Governo Lula democratizou demanda, mas não oferta, diz Mangabeira Unger

  • 14 novembro 2013
Mangabeira Unger, no programa HardTalk. Foto: BBC
Image caption Mangabeira Unger falou à BBC sobre sua experiência com Lula e Obama

O filósofo brasileiro e ex-ministro Roberto Mangabeira Unger disse em entrevista à BBC que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu uma conquista importante para o país, que foi "democratizar a demanda", com aumento da renda e do consumo da população, mas que não "democratizou a oferta" – com maior acesso aos recursos produtivos e educação.

Mangabeira Unger era crítico de Lula no primeiro mandato do ex-presidente, mas aceitou participar do governo no segundo mandato, quando foi convidado para ser ministro de Assuntos Estratégicos, entre 2007 e 2009.

Em entrevista ao programa HardTalk, do canal de TV BBC World News, o filósofo falou sua experiência no governo. Ele elogiou "duas grandes conquistas" de Lula, mas disse que o presidente – assim como ele próprio, quando ministro – fracassou em uma terceira tarefa.

"Primeiro, o Brasil democratizou o lado da demanda. Aumentou salários, programas sociais que diminuíram a pobreza e a desigualdade para um patamar inferior. A popularização do acesso ao consumo. Essa foi uma conquista real, em um país tão radicalmente desigual como o nosso", disse Mangabeira Unger.

"A segunda conquista foi no imaginário. Quando o povo brasileiro aceitou Lula – vindo do próprio povo – como seu líder, eles aceitaram a si mesmos. E isso foi uma mudança revolucionária na vida espiritual das pessoas."

"O que não conseguimos fazer foi atingir uma conquista muito mais difícil e importante: democratizar o lado da oferta. (Democratizar) o acesso aos recursos e às oportunidades de produção e educação."

"Essa democratização da economia de mercado precisaria, por sua vez, dar espaço para um aprofundamento da democracia. Foi por isso que lutei quando estive no governo e foi nisso que fracassei."

Obama e Venezuela

Mangabeira Unger, que foi professor de direito do presidente americano Barack Obama em Harvard, fez críticas a seu ex-aluno – a quem acusa de não conseguir cumprir a promessa de trazer esperança e mudanças nos Estados Unidos.

"Os atributos mais importantes de um chefe de Estado são tenacidade, coragem, esperança e visão. Ele e seus colaboradores só demonstraram possuir o primeiro, e se provaram deficientes nos outros três. Mas são eloquentes nas palavras que ressaltam virtudes que eles não têm."

Mangabeira Unger é crítico do sistema político atual. Ele acredita que as democracias só são aperfeiçoadas quando atravessam momentos de crises, e que faltam mecanismos que possam melhorar a representação popular constantemente.

Apesar de suas críticas aos políticos e sistemas vigentes em grande parte do mundo ocidental, ele se diz contra alternativas próximas ao socialismo, como a chamada Revolução Bolivariana na Venezuela.

"Ninguém sabe mais o que esse socialismo significa, então para que ficar preso a essas abstrações?"

Para Mangabeira Unger, a Venezuela não "tem uma estratégia factível de crescimento econômico e um modelo institucional duradouro."

Ele diz que na Venezuela as autoridades trabalham contra o sistema financeiro, mas que na sua opinião é preciso fazer com que este setor funcione de forma eficiente em prol do setor produtivo.

"O que precisamos é abrir os portões de acesso aos setores avançados e colocar o setor financeiro a serviço da economia real – porque o setor financeiro pode ser um bom servo, mas é um mau patrão."

"Eu não quero que o setor financeiro sirva a si mesmo. Eu quero que ele sirva à economia real. Com mudanças nos sistemas de impostos e regulações que desincentivem atividades financeiras não-relacionadas à produção real."

'Revolução Russell Brand'

O filósofo brasileiro também falou sobre a "revolução Russell Brand", um termo que ganhou popularidade na Grã-Bretanha desde o mês passado.

Russell Brand é um comediante britânico que – em entrevista ao programa de TV Newsnight, dos canais de TV BBC 2 e BBC World News – fez críticas ferozes ao sistema político do país, se dizendo "desencantado" com o voto.

O comediante diz que a democracia "não está funcionando muito bem, já que estamos destruindo o planeta e há grande desigualdade".

Brand afirmou que não vota nas eleições e defende que as pessoas não devem votar enquanto não houver uma mudança mais profunda no sistema político, que beneficie as pessoas menos favorecidas, em vez de preservar apenas os interesses dos mais poderosos.

As declarações do comediante repercutiram nas redes sociais e na imprensa britânica. O vídeo da entrevista foi visto mais de 9 milhões de vezes na internet, e Russell Brand foi convidado para desenvolver melhor suas ideias em um artigo para o jornal The Guardian.

"Eu acho que precisamos do oposto. Nós precisamos nos desencantar com o desencantamento", afirma Mangabeira Unger, que defende ativismo político dentro e fora do sistema eleitoral.

"Nós precisamos agir em todos os campos: nas instituições que já existem e fora delas."

Ele disse que o Brasil está aberto a mudanças, mas que precisará "percorrer um longo caminho" para conseguir mudar suas instituições.

"O que o mundo está procurando agora – inquieto dentro da 'ditadura da falta de alternativas' – é uma alternativa que vai dar oportunidade e instrumentos para as pessoas comuns."

"O Brasil está aberto a uma mensagem alternativa. Essa foi minha experiência geral. Mas nós não possuímos as instituições. E por isso será um longo caminho até construirmos isso. Mas o caminho precisa começar na consciência, com novas ideias. Não é possível mudar o mundo sem ideias."

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