Abstenção e força de Bachelet são fatores-chave em eleição no Chile

  • 16 novembro 2013
Bachelet (esq.) e Matthei (Reuters)
Image caption Michelle Bachelet (esq.) enfrenta Evely Matthei e outros candidatos

Os eleitores chilenos vão às urnas neste domingo para votar em um dos nove candidatos à Presidência do país.

Além do próximo ocupante do Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, eles também vão eleger deputados e senadores do Congresso Nacional, "consejeros" (cargo equivalente ao de vereador") e se são a favor de uma nova Constituição.

Duas dúvidas chamam a atenção nesta votação: qual deve ser o índice de abstenção entre os cerca de 13 milhões de eleitores e se haverá um segundo turno no dia 15 de dezembro.

Será a primeira eleição presidencial com o novo sistema eleitoral, no qual a inscrição no processo eleitoral é automática, de acordo com a idade, mas o voto não é obrigatório.

"Quanto maior a abstenção, maior a chance de vitória de Michelle Bachelet no primeiro turno. Mas ainda é uma incógnita que só será revelada após a abertura das urnas", disse à BBC Brasil o analista político Guillermo Holzmann, professor de ciências políticas da Universidade de Valparaíso.

"Existe uma crise de expectativas entre os eleitores do país", disse o cientista político Claudio Fuentes, da Universidade Diego Portales, à imprensa local. Estima-se, entre os especialistas, que a maior abstenção pode ocorrer entre os eleitores definidos como de direita e, seguindo esse raciocínio, a abstenção favoreceria Bachelet.

Apelos

A ex-presidente Michelle Bachelet, da coalizão Nueva Mayoría, que governou o país entre 2006 e 2010, lidera as pesquisas de opinião com cerca de 47% das intenções de votos. São necessários 50% dos votos para um candidato vencer no primeiro turno.

"Por favor, saiam de casa para votar. É um exercício da democracia. E vamos ganhar no primeiro turno", disse Bachelet em um de seus últimos discursos, na reta final da campanha, segundo a imprensa local.

Em seu discurso no encerramento da campanha, o presidenciável Marco Enriquez-Ominami, do PRO, também fez um apelo.

"Não pensem que a política é chata. Não, a política pode mudar muitas coisas nas nossas vidas. Votem e vamos pelo segundo turno", disse.

O chefe da campanha da candidata do governo, Evelyn Matthei (da coalizão de direita Alianza), Joaquín Lavín reconheceu também que a abstenção poderá ser o "grande inimigo" da agremiação nesta eleição.

"O foco de Matthei é que as pessoas votem. Saiam e votem", disse Lavín, de acordo com a imprensa local.

Bachelet e Ominami já foram aliados e defendem, como a maioria dos outros candidatos, a educação gratuita, maior inclusão social e, com algumas diferenças, maior cobrança de impostos para setores empresariais.

"Certamente, a candidata do governo, Evelyn Matthei é a que difere em vários itens como o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, que ela é contra, e a educação gratuita, que também rejeita", observou um comentarista da emissora 24Horas.

Bachelet tem defendido ainda a reforma constitucional para permitir a reeleição presidencial – uma discussão que não é nova no país que reduziu o mandato de cinco para quatro anos com o objetivo da reeleição que, no entanto, acabou não tendo respaldo político.

'Relação mais intensa'

Diplomatas chilenos ouvidos pela BBC Brasil, que não quiseram se identificar, afirmaram que "em termos de política externa a expectativa é que haja uma relação mais intensa com o Brasil caso Bachelet seja eleita".

Nos bastidores do governo do presidente Sebastián Piñera existem queixas das "poucas visitas da presidente" Dilma Rousseff ao Chile.

"Ela já foi várias vezes à Argentina e ao Peru, por exemplo. Nossa esperança é que a relação torne-se mais intensa com Bachelet. Elas parecem ter boa química", afirmaram.

Segundo dados recentes do Banco Central do Brasil, o Chile é o principal investidor direto da América do Sul no território brasileiro e o Brasil também aumentou a presença econômica no país, que tem cerca de dezessete milhões de habitantes, estabilidade econômica, mas forte desigualdade social.

No âmbito interno, a postura da ex-presidente de evitar polêmicas pode ajudar na sua votação, segundo disse o analista político Raul Elqueta, da Universidade de Santiago.

"O silêncio dela ajuda os indecisos", disse.

De acordo com analistas do Observatório Político Eleitoral (OPE), da Universidade Diego Portales, o perfil de Bachelet atrai principalmente o voto feminino.

"Ela foi uma boa mulher porque separada e sozinha cuidou dos filhos. E eu sou como ela", disse uma eleitora diante das câmeras de televisão.

Mãe de três filhos, separada, filha de um general que morreu na prisão durante a ditadura de Pinochet (1973-1980), ela é médica, foi ministra da Saúde e da Defesa, antes de ser presidente e de ser a diretora da ONU para as questões das mulheres.

Analistas de diferentes tendências disseram nos últimos dias que a "maior dúvida da eleição" é saber "a magnitude do triunfo" de Bachelet neste domingo ou no segundo turno.

Ao mesmo tempo, políticos de direita e centro-direita, próximos a Piñera, questionaram, publicamente, na reta final da campanha se o nome de Matthei foi a melhor escolha.

"Não me sinto sozinha, de forma alguma, sinto o apoio de todos os meus colegas", disse ela.

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