Em carta, Pizzolato reafirma inocência e ataca imprensa

Protesto a favor da condenação dos envolvidos no mensalão | Crédito: Reuters
Image caption STF expediu 12 mandados de prisão; apenas Henrique Pizzolato não se apresentou à PF

Único dos 12 condenados pelo esquema do mensalão a não ter se apresentado à PF após decisão do STF, o ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato, teria fugido para a Itália.

Ele deveria se entregar neste sábado. Sua saída do país foi comunicada à imprensa no final da manhã por seu advogado.

Em uma carta, Pizzolato explica os motivos que o levaram a deixar o Brasil.

No documento, ele reafirma sua inocência e afirma ter sido "desrespeitado por setores da imprensa" brasileira.

O ex-diretor do BB também demonstra decepção com o Judiciário brasileiro e diz que tomou a decisão de deixar o país para "ter um novo julgamento na Itália, em um tribunal que não se submete às imposições da mídia empresarial".

Pizzolato foi o primeiro a ter a prisão decretada pelo STF. Ele foi condenado a 12 anos e sete meses de reclusão em regime fechado, além de multa de R$ 1,3 milhão, pelos crimes de corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro.

Leia a íntegra da nota abaixo.

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"Minha vida foi moldada pelo princípio da solidariedade que aprendi muito jovem quando convivi com os franciscanos e essa base sólida sempre norteou meus caminhos.

Nos últimos anos minha vida foi devassada e não existe nenhuma contradição em tudo que declarei quer seja em juízo ou nos eventos públicos que estão disponíveis na internet.

Em meados de 2012, exercendo meu livre direito de ir e vir, eu me encontrava no exterior acompanhando parente enfermo quando fui mais uma vez desrespeitado por setores da imprensa.

Após a condenação decidida em agosto retornei ao Brasil para votar nas eleições municipais e tinha a convicção de que no recurso eu teria êxito, pois existe farta documentação a comprovar minha inocência.

Qualquer pessoa que leia os documentos existentes no processo constata o que afirmo.

Mesmo com intensa divulgação pela imprensa alternativa - aqui destaco as diversas edições da revista Retrato do Brasil - e por toda a internet, foi como se não existissem tais documentos, pois ficou evidente que a base de toda a ação penal tem como pilar, ou viga mestra, exatamente o dinheiro da empresa privada Visanet. Fui necessário para que o enredo fizesse sentido. A mentira do "dinheiro público" para condenar. Todos. Réus, partido, ideias, ideologia.

Minha decepção com a conduta agressiva daquele que deveria pugnar pela mais exemplar isenção é hoje motivo de repulsa por todos que passaram a conhecer o impedimento que preconiza a Corte Interamericana de Direitos Humanos ao estabelecer a vedação de que um mesmo juiz atue em todas as fases de um processo, a investigação, a aceitação, e o julgamento, posto a influência negativa que contamina a postura daquele que julgará.

Sem esquecer o legítimo direito moderno de qualquer cidadão em ter garantido o recurso a uma corte diferente, o que me foi inapelavelmente negado.

Até desmembrarem em inquéritos paralelos sigilosos para encobrir documentos, laudos e perícias que comprovam minha inocência, o que impediu minha defesa de atuar na plenitude das garantias constitucionais. E o cúmulo foi utilizarem contra mim um testemunho inidôneo.

Por não vislumbrar a mínima chance de ter julgamento afastado de motivações político-eleitorais, com nítido caráter de exceção, decidi consciente e voluntariamente fazer valer meu legítimo direito de liberdade para ter um novo julgamento, na Itália, em um tribunal que não se submete às imposições da mídia empresarial, como está consagrado no tratado de extradição Brasil e Itália.

Agradeço com muita emoção a todos e todas que se empenharam com enorme sentimento de solidariedade cívica na defesa de minha inocência, motivadas em garantir o estado democrático de direito que a mim foi sumariamente negado."