Ajudante negro do Papai Noel gera debate sobre racismo na Holanda

  • 20 novembro 2013
Pessoas vestidas de Zwarte Piet em celebração na Holanda
Image caption Zwarte Piet é um tradicional personagem do folclore holandês nas festividades de fim de ano

Uma antiga tradição popular está gerando debates sobre racismo na Holanda.

A icônica figura do Zwarte Piet (ou Negro Pedro, em tradução livre) é parte das festividades natalinas holandesas e acompanha o Papai Noel na distribuição de presentes e nos desfiles de rua. O personagem costuma ser representado por uma pessoa branca com o rosto pintado de preto e uma peruca afro.

No último final de semana, milhares de pessoas foram às ruas de Amsterdã para assistir ao tradicional desfile que abre a temporada de festas de fim de ano no país, mas parte do público aproveitou a ocasião para protestar, alegando que Zwarte Piet é um símbolo racista, que remete à escravidão em antigas colônias holandesas no Caribe.

A polêmica ganhou força em outubro, quando uma acadêmica do Alto Comissariado da ONU para direitos humanos enviou uma carta ao governo holandês queixando-se que Zwarte Piet "reforça estereótipos negativos".

A Unesco, órgão de cultura da ONU, disse que a consultora que assinou a carta não estava autorizada em falar em nome das Nações Unidas. Mas o episódio fomentou o debate em um país famoso por promover a igualdade.

Estereótipos

O poeta caribenho Quinsy Gario foi preso em 2011 por ter participado de um protesto durante um desfile natalino. E hoje lidera a campanha pela abolição do personagem, argumentando que ele perpetua estereótipos racistas.

Enquanto ele conversa com a BBC em Roterdã, dois homens passam pela esquina gritando o nome de Zwarte Piet - que, nesta época do ano, é onipresente nas ruas holandesas.

A reportagem pede que os homens se expliquem. "Ele (Gario) nos faz lembrar do Zwarte Piet", dizem eles, sem parar de caminhar.

É uma contundente ilustração do tipo de discriminação que Gario diz sofrer.

Há algumas décadas, a Holanda deixou de ser um país homogêneo. Após a 2ª Guerra Mundial, chegaram muitos imigrantes da Turquia e do Marrocos, bem como de antigas colônias caribenhas.

Dos cerca de 17 milhões de habitantes, 3,5 milhões são cidadãos holandeses nascidos no exterior ou filhos de imigrantes.

Image caption Grupo protestam contra o personagem durante desfile em Amsterdã

Tradição

Mas as manifestações contra Zwarte Piet - bem como a carta enviada pela ONU - provocaram revolta em muitos que defendem a tradição holandesa.

Jornais fizeram reportagens com leitores de diversas origens étnicas apoiando a prática de pintar o rosto de preto.

Uma página do Facebook chegou a ser criada em defesa do personagem - e mais de 2 milhões curtiram.

Dentro de um estúdio de tatuagem em Roterdã, um artista explica que essa defesa é uma reação à sensação, entre muitos holandeses, de que a cultura tradicional estaria se perdendo com o avanço da imigração.

Uma das clientes do estúdio está justamente fazendo uma tatuagem de Zwarte Piet.

"As pessoas têm o direito de expressar e preservar sua cultura", diz. "Enquanto essa cultura não violar direitos humanos, ela é um direito humano."

Já Rita Izsak, uma das autoras da carta da ONU enviada ao governo holandês, diz que o racismo "pode ser invisível, mas isso não significa que ele não está lá".

"Veja as imagens, leia sobre a história, e você entenderá por que os negros se sentem ofendidos. Eles foram inferiorizados durante séculos e a última coisa que querem é serem lembrados do passado."

Notícias relacionadas