Lucas Mendes: JFK aos 50, irresistível

  • 21 novembro 2013
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Se você dedicar seus próximos 50 anos aos 40 mil livros, artigos, filmes, documentários, palestras e a ouvir tudo o que foi ao ar sobre o 35º presidente americano, você não completará a missão e terminará com quatro palavras e um ponto de interrogação: afinal, quem matou Kennedy?

Só na década de 90, quando o Congresso criou o Assassination Records Review Board com o objetivo de iluminar o caso, foram publicadas 4 milhões de páginas. Geraram milhões de páginas e dúvidas.

Não me refiro só ao material antigo. A fonte Kennedy não seca. Há duas semanas, todos os dias eu li, vi, ouvi novas matérias, documentários e debates no rádio sobre o presidente e outros Kennedys. Poderia ter passado o dia inteiro só com Kennedys.

Não me lembro de um embaixador que tenha recebido tanto destaque no noticiário ao apresentar suas credenciais como no o caso de Caroline Kennedy, que se encontrou com o imperador do Japão, na terça-feira passada. Se é Kennedy, é notícia.

Porque este fascínio pelo presidente e pelos Kennedys? Pelo poder? Pelo dinheiro? Pelo nome? Pelas tragédias? Pela brutalidade do assassinato? Pelas teorias conspiratórias?

No mesmo dia em que a comissão Warren, nomeada para investigar o assassinato, publicou os 26 volumes com a conclusão do assassino solitário, quase 70 por cento dos americanos reagiram juntos: "Mentira!". Pesquisas recentes mostram que apenas 25% acham que Lee Harvey Oswald matou sozinho.

Os suspeitos ainda se revezam. Os primeiros foram os exilados cubanos, em cumplidade com a CIA, pelo fracasso da Baia dos Porcos e porque Kennedy gostaria de pulverizar a agência em um milhão de pedacinhos e jogá-los ao vento em Washigton. Ele disse isto a um amigo. As completas conexões de Lee com a CIA só serão publicadas em 2017. O que a CIA esconde?

Fidel Castro e seus agentes também entraram na lista.

Depois surgiu a hipótese dos militares ligados ao complexo industrial militar, porque Kennedy estaria negociando o fim da Guerra Fria às escondidas com os soviéticos e queria sair do Vietnã.

A Máfia durante muito tempo ocupou o primeiro lugar na lista de suspeitos, porque o irmão Bob decidiu jogar toda a força do Departamento de Justiça contra o crime organizado. Há outros detalhes, que envolvem o poderoso pai, Joe Kennedy, a eleição presidencial e os votos de Illinois, mas consumiriam esta coluna. A Máfia encabeça minha teoria conspiratória porque tinha o know how e a motivação, mas podia estar terceirizada.

Naquela época, Dallas era um vespeiro de conservadores radicais insuflados e financiados pelos milionários do petróleo, entre eles, H.L. Hunt, que entrevistei cinco anos depois do assassinato. Ele ainda achava que os democratas queriam entregar os Estados Unidos às Nações Unidas.

Os hábitos do dia a dia de Hunt eram tão bizarros quanto suas ideias políticas, mas não era um criminoso. Na época do assassinato, eles temiam não só o liberalismo de Kennedy, que nem era tão liberal, mas a possibilidade dele acabar com a mamata das deduções de impostos dos petroleiros.

O então vice-presidente Lyndon B. Johnson, que assumiria a Presidência no lugar de Kennedy, entrou e saiu da lista. Voltou recentemente, com a publicação da monumental biografia de Robert Caro. A pressa com que ele assumiu o poder, ocupando o espaço de Kennedy e aprovando as conclusões da comissão Warren, é a principal fonte da suspeita.

Fui quatro vezes a Dallas fazer reportagens sobre o assassinato, entre elas nos aniversários de 10 anos para a Manchete e de 20 e 25 para a Globo.

Numa delas, para o Globo Repórter, os produtores encontraram um homem que estava bem perto do carro do presidente e ficou traumatizado. Era a primeira vez que voltava à praça do assassinato. Ele me disse que os tiros que ouviu não vieram do depósito de livros.

Se você for à janela no sexto andar, de onde Lee teria disparado, provavelmente vai concordar comigo. Lee não era famoso pela pontaria. É impossível acreditar que, daquela distância, tenha acertado três tiros com um rifle barato, não-automático, num alvo dentro de um carro em movimento.

O professor John Adams, de 68 anos, não passou cinquenta anos debruçado sobre as teorias do assassinato. Passou vinte. Dá aulas, participa de conferências, debates e tem um dos sites mais lidos sobre o assassinato. A especialidade dele é derrubar teorias conspiratórias, como a minha. Detona todos os argumentos.

Lee Oswald, o comunistinha de araque que, segundo Marina, a bonita mulher russa (de Oswald), gostava de Kennedy, matou sozinho o presidente, garante o professor.

Um dia talvez surja a verdade, mas, por enquanto, o mistério nutre e gratifica.