Revisão para cima do PIB mantém incertezas sobre economia dos EUA

Encomendas feitas pela internet são enviadas a consumidores (foto: Getty)
Image caption Compras feitas pela internet estão ajudando no crescimento da economia americana

Os EUA reviram significativamente para cima o seu crescimento econômico no terceiro trimestre deste ano. A mudança alimentou uma nova rodada de especulações sobre os próximos passos na sua política monetária – capaz de influenciar economias no resto do mundo.

Nos cálculos revisados do Departamento de Comércio americano divulgados nesta quinta-feira, o produto interno bruto (PIB) do país registrou no terceiro trimestre de 2013 um crescimento anualizado de 3,6% (a projeção anterior era de 2,8%).

No segundo trimestre, a alta do PIB foi de 2,5%.

Os números oficiais refletem aumentos nos estoques privados, que cresceram ao ritmo mais rápido desde 1998. A princípio, o dado pode ser interpretado como uma confiança das empresas em futuros negócios. Entretanto, o gasto dos consumidores cresceu a um ritmo de 1,4%, o mais lento em quatro anos.

Os gastos de governos locais compensaram a queda nos desembolsos federais.

A menos de duas semanas da reunião mensal de política monetária do Federal Reserve (Fed), o novo dado reforça a percepção de parte dos analistas do mercado de que a autoridade monetária americana possa começar a reduzir imediatamente – nos dias 17 e 18 próximos – os estímulos monetários em vigor.

Entretanto, outros expressaram cautela diante dos números. “Na superfície, é um dado bonito. Embaixo, não é tão bom”, disse à agência Reuters o estrategista de mercado Fred Dickson, da corretora D.A. Davidson & Co, no estado do Oregon.

O economista-chefe da corretora Nomura em Nova York, Lewis Alexander disse à Bloomberg que "o ingrediente ausente é a confiança das empresas suficiente para elevar as contratações e efetuar gastos de capital".

Onde estamos, para onde vamos?

Não obstante essas dúvidas, o indicador levou as bolsas na Europa, Ásia e EUA imediatamente para o vermelho, pela possibilidade de que o Fed veja essa expansão acentuada do PIB americano como razão para começar a retirar já os estímulos monetários da economia.

Uma atuação nesse sentido seria interpretada como uma espécie de início oficial do fim da crise econômica. O problema é que, diante de indicadores ambíguos, já existe até um debate acadêmico sobre como qualificar o estado da economia dos EUA.

Para o colunista do Washington Post Robert J Samuelson, os EUA estão vivendo algo como como uma "carência abastada": continuam sendo uma sociedade rica, porém menos exuberante que antes da crise econômica.

Optando por um termo mais forte, o colunista do New York Times Paul Krugman acha que o país vive "condições parecidas à depressão", que sobreviverão por muitos anos.

Só nesta semana, os EUA já vivenciaram os dois estados: no início da semana, a notícia econômica predominante foi a redução – pela primeira vez em sete anos – nos gastos dos consumidores ao longo do feriado prolongado do dia de Ação de Graças.

A queda foi de 3%, de US$ 59,1 bilhões no ano passado para US$ 57,4 bilhões neste ano, segundo a Federação Nacional do Varejo. A data responde por 10-15% do faturamento do setor no ano.

Mas essas projeções sombrias foram compensadas pelas estimativas do mercado apontando um crescimento recorde nas compras feitas online. Os valores chegaram a US$ 2 bilhões só na chamada Cyber Monday, segunda-feira passada.

O retrato mais gabaritado da economia americana veio na quarta-feira, quando o Fed divulgou o seu chamado "Livro Bege", uma compilação de dados produzidos pelas 12 unidades regionais da autoridade monetária.

Em conjunto, estes indicadores apontam para uma expansão econômica "de modesta a moderada" nos EUA entre outubro e meados de novembro, disse o Fed, apesar da incerteza gerada pelo fechamento parcial do governo em outubro.

A instituição avaliou que o ritmo de atividade foi moderado na indústria e forte no setor imobiliário.

Retrato completo

O retrato da economia americana ficará completo na sexta-feira, quando saírem os números oficiais do desemprego em novembro.

Um levantamento da agência Reuters junto a analistas indicou que o mercado espera a criação de 180 mil vagas de trabalho (ante 240 mil em outubro), com uma ligeira redução da taxa de desemprego de 7,3% para 7,2%.

Oferecendo uma prévia do indicador, a firma privada ADP apontou em seu próprio relatório mensal que os empregadores do setor privado americano abriram 215 mil vagas em novembro – acima das expectativas.

No auge da crise, a taxa de desemprego americana chegou a 10% (em outubro de 2009). De lá para cá, a trajetória tem sido de declínio.

Entretanto, desde abril deste ano, quando bateu 7,5%, o indicador tem se comportado de maneira volátil, relutante em romper a barreira dos 7%.

O Fed já disse que está decidido a manter as taxas de juros próximas de zero até que o desemprego diminua para pelo menos 6,5%, o que deve levar meses.

Já os novos indicadores reforçam as especulações sobre quando a autoridade monetária começará a reduzir o valor das suas compras de títulos do governo – hoje em US$ 85 bilhões – com as quais vem abastecendo o mercado de dólares.

Efeitos sobre o Brasil

A saída de dólares da economia brasileira diante da simples menção desta possibilidade, em meados deste ano, colocou o país dentro do grupo dos considerados mais vulneráveis à decisão, junto com Turquia, Índia, África do Sul e Indonésia.

A iminente mudança na política monetária americana levou à desvalorização das moedas e a questionamentos quanto à capacidade destes países de botar sua situação fiscal em ordem.

"As incertezas quanto ao início da redução das compras de ativos pelo Fed continuará sendo uma fonte de volatilidade para os mercados financeiros”, avaliou a consultoria Capital Economics em uma análise divulgada nesta quinta-feira.

"Quando a remoção dos estímulos finalmente começar, esses países mais uma vez estarão na linha de fogo.”

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