Protestos na Ucrânia voltam a colocar Russia e Ocidente em lados opostos

Manifestante golpeia estátua de Lenin na Ucrânia (foto: AP)
Image caption Manifestantes favoráveis ao Ocidente e governo da Ucrânia protagonizam impasse

O impasse entre o governo ucraniano, supostamente apoiado por Moscou, e centenas de milhares de manifestantes partidários de uma aproximação da Ucrânia com a União Europeia volta a colocar a Rússia e o Ocidente em lados opostos.

Segundo o correspondente da BBC David Stern, os ânimos na capital Kiev se acirraram ainda mais com dois fatos importantes ocorridos no domingo: o anúncio de que forças de segurança estão investigando uma suposta tentativa de golpe de Estado e a destruição por manifestantes da principal estátua de Lenin na capital.

Os protestos contra o governo do presidente Viktor Yanukovych sofrem uma escalada nos últimos 15 dias após a decisão do mandatário (no dia 21 de novembro) de engavetar um acordo que estreitaria as relações do país com a União Europeia.

Em reação a isso, mais de 100 mil manifestantes tomaram o centro de Kiev, invadiram prédios públicos e entraram em confronto com a polícia no dia 1º. Desde então, multidões permanecem acampadas no centro da capital.

O presidente não recuou perante as exigências dos manifestantes – exceto por um pedido de desculpas no Parlamento pela violência policial. Pelo contrário, segundo especialistas, Yanukovych trabalha para estabelecer uma "parceria estratégica com a Rússia".

Uma reunião surpresa do mandatário com o presidente russo Vladimir Putin na última sexta-feira na Rússia – sobre a qual poucas informações foram divulgadas – só reforçou o clima de insegurança e especulações.

Os manifestantes, por sua vez, continuam defendendo a substituição completa da estrutura governamental, desde o presidente e seu gabinete ao Parlamento.

Segundo Stern, embora Yanukovych tenha a seu lado as forças de segurança e toda a máquina do governo, os manifestantes possuem uma grande arma: o poder das massas. Por isso, o impasse continua.

Na esfera internacional, segundo analistas, a Rússia permanece exercendo pressão, especialmente na área de energia – bastante sensível à Ucrânia.

Já líderes e ativistas de diversos países europeus têm viajado à Ucrânia para prestar apoio aos manifestantes.

A visita mais importante da próxima semana ao país deve ser da chefe da política externa da União Europeia, Catherine Ashton, que tentará uma encotrar uma solução para a crise.

Protestos

Neste domingo multidões continuaram o bloqueio a prédios públicos com carros, barricadas e tendas. Eles parmanecem concentrados na Praça da Independência.

Testemunhas disseram que um grupo de manifestantes derrubou a estátua do líder soviético Lenin, que ficava no boulevar Shevchenko, com cordas e barras de metal.

Manifestantes mascarados depois usaram marretas para acabar de destruir o que havia sobrado da figura de Lenin. Enquanto isso outros gritavam "glória para a Ucrânia".

Embora o país possua diversas estátuas do líder soviético em suas regiões mais orientais, a derrubada do monumento em Kiev é carregada de simbolismo pois representa o tempo de união entre a Rússia e a Ucrânia.

Segundo analistas, há uma clara divisão na população entre partidários da aproximação com a Rússia e entusiastas da aliança com o Ocidente.

Em um evento independente, o Serviço de Segurança da Ucrânia afirmou estar investigando políticos acusados de "agir com o objetivo de tomar o poder". O órgão não revelou quem são esses políticos.

O partido da líder opositora Yulia Tymoshenko instigou os manifestantes a se oporem ao presidente Yanukovych "até que ele caia".

"Nós caminhamos no fio da navalha entre o mergulho final em uma ditadura cruel e um retorno para o nosso lar, a União Europeia", disse Tymoshenko em uma mensagem lida por sua filha para a multidão. A líder opositora cumpre uma sentença de prisão de sete anos, que é considerada de caráter político por lideranças e ativistas europeus.

A atual onda de protestos é a maior desde a Revolução Laranja de 2004, um movimento pró-democracia que lutava contra um processo eleitoral fraudulento.

Manifestantes favoráveis ao governo realizaram um protesto de apoio a Yanukovych também no domingo, mas o grupo não entrou em contato com os manifestantes da Praça da Independência graças à ação da polícia.

Disputa energética

Tanto Kiev como Moscou negaram que o objetivo da reunião entre seus presidentes na sexta-feira foi tratar de uma possível entrada da Ucrânia em um acordo de união aduaneira que já vigora entre a Rússia, Belarus e o Casaquistão.

Correspondentes especularam mais cedo que o acordo poderia ser firmado em troca de uma redução dos preços para importação de energia da Rússia.

Os dois países também tentam resolver uma disputa antiga sobre suprimentos de energia.

A Ucrânia depende de importações de gás da Rússia, mas a empresa fornecedora Gazprom reclamou recentemente de a atrasos de pagamento de Kiev.

Em 2009, disputas semelhantes resultaram no corte temporário deo fornecimento de gás.

Muitos gasodutos que passam pela Ucrânia levam o produto da Rússia para países da União Europeia.

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