Greve de policiais e saques deixam 8 mortos na Argentina

  • 10 dezembro 2013
Cristina Kirchner. AFP
Image caption Cristina Kirchner sugeriu que pode haver motivação política atrás dos saques no país

As comemorações pelos trinta anos da redemocratização tiveram um gosto amargo, nesta terça-feira, na Argentina. Enquanto a presidente Cristina Kirchner discursava no Museu do Bicentenário, na Casa Rosada, a sede da Presidência, policiais de 17 províncias mantinham os braços cruzados, em uma greve que se deu em meio uma onda de saques e deixou oito mortos – segundo dados da imprensa local.

A presidente disse que os protestos foram "planejados" e indicou ter sido "muita casualidade" que os últimos fatos tenham ocorrido em dezembro e no aniversário da democracia.

"Os protestos daqueles que portam armas (referência aos policiais) são uma extorsão à sociedade", disse Cristina, vestida de branco e preto, após abandonar o luto que manteve após a morte do marido, o ex-presidente Nestor Kirchner. Para a presidente, os saques foram organizados.

"Os assaltos aos comércios foram realizados com precisão impressionante, com gente em motos ou em caminhonetes novas", afirmou. A presidente disse ainda que pensou em convocar uma rede nacional de rádio e de televisão para a transmissão de seu discurso comemorativo dos trinta anos de democracia no país (1983-2013), mas que mudou de ideia.

"Sei que algumas emissoras estarão transmitindo o discurso na metade da tela e mostrando os atos (de violência) na outra metade", afirmou. A presidente costuma criticar a cobertura de setores da imprensa local.

Cristina disse ainda que, no total, as províncias contam com "200 mil policiais" e que a "Gendarmeria" (polícia nacional de fronteiras) conta com 30 mil soldados.

"A Gendarmeria deve cuidar das fronteiras e não das questões do interior, que cabem à polícia provincial", advertiu, no entanto.

Mortos

Image caption Saques em Córdoba fizeram comerciantes montarem guarda em outras províncias

Pouco depois da fala da presidente e de uma festa com artistas na Praça de Maio, no centro de Buenos Aires, as emissoras de televisão mostraram protesto de moradores na cidade de Tucumán, na província de mesmo nome, no norte do país.

Com panelas e garrafas, eles protestaram contra a falta de policiais nas ruas e por temer uma onda de saques. Diante das câmeras de televisão, moradores contavam que nas últimas 48 horas, durante a paralisação dos policiais, donos de lojas e de supermercados protegiam seus negócios "portando paus e pedras".

Na quarta-feira passada, a província de Córdoba viveu horas de tensão quando a polícia, aquartelada por melhores salários, deixou a segurança das ruas. Grupos de motocicletas e a pé invadiram supermercados e lojas eletrodomésticos, além de casas de família, levando colchões, roupas e até geladeiras – em uma das imagens um freezer foi levado em uma charrete.

No dia seguinte, o governo local e a polícia chegaram a um acordo, com aumento salarial aos policiais. Em Córdoba, uma pessoa morreu e horas depois quando o protesto começou no interior da província de Buenos Aires, a maior do país, outra pessoa foi morta.

No fim de semana, policiais de outras dezoito das 23 províncias do país entraram em greve também por melhorias salariais. As TVs mostraram pequenos comerciantes rodeados com outras pessoas portando paus e rifles para defender seus comércios.

Entre as províncias que registraram paralisação dos policiais e a incerteza nas ruas estão as de Santa Fé, Jujuy, Salta, Chubut, entre outras. A presidente da Câmara dos Supermercados Chineses, Yolanda Duran, disse à emissora de televisão TN (Todo Notícias) que os donos desses negócios decidiram "formar grupos de cinquenta pessoas para proteger" as lojas, "em uma rede de solidariedade", já que a polícia poderia estar ausente e teme-se a onda de saques em alguns pontos do país. Segundo ela, são três mil mercados de imigrantes chineses na Argentina.

Os saques costumam gerar mal-estar econômico e político na Argentina. Outros saques marcaram a história recente do país, principalmente em 2001, quando a instabilidade política e econômica levou à renúncia de cinco presidentes em uma semana.

Analistas diziam à imprensa local nesta terça-feira que a inflação alta seria "um dos principais motivadores" dos protestos - entre eles o cientista político Marcos Novaro. Em alguns casos, como na província de Catamarca, os salários dos policiais foram reajustados em quase 100%. O movimento levanta dúvidas se outros setores pedirão aumento e se o caixa dos governos locais terá capacidade para atender às demandas.