Temor de abstenção une candidatas no 2º turno no Chile

Evelyn Matthei e Michelle Bachelet. Foto: Reuters
Image caption Evelyn Matthei e Michelle Bachelet tiveram última semana de campanha no Chile

Os eleitores chilenos que irão às urnas neste domingo votarão por propostas completamente diferentes apresentadas pelas candidatas Evelyn Matthei, da governista Alianza, e Michelle Bachelet, da frente opositora Nueva Mayoria.

Mas no último discurso de campanha, na quinta-feira à noite, as duas candidatas mostraram estar unidas em pelo menos um elemento – a preocupação com o índice de abstenção neste segundo turno do pleito presidencial ao Palácio de la Moneda.

No primeiro turno, no mês passado, cerca de 50% dos eleitores preferiram não comparecer às urnas. Na ocasião, Bachelet obteve 46,6% dos votos, e Matthei, 25,01%.

"Saia para votar e leve uma pessoa junto para que ela também vote e assim vamos vencer as eleições de domingo", disse Matthei durante o discurso.

Bachelet, que lidera as pesquisas de opinião, percorreu o Chile no chamado "bachemóvel" – um caminhão aberto e fez um apelo semelhante: "Votem, exerçam seu direito democrático".

Essa é a primeira eleição presidencial com o voto não obrigatório no país. Para os professores de ciências políticas Guillermo Holzmann, da universidade de Valparaiso, e Claudio Fuentes, da Universidade Diego Portales, de Santiago, a previsão de poucos eleitores comparecendo às urnas demonstra o desinteresse de muitos chilenos por política.

A socióloga Marta Lagos, do instituo Mori, disse à imprensa local que "muitos acham que Bachelet vai ganhar, que a eleição está resolvida e entendem que não é preciso votar".

"As novas gerações, principalmente, não estão interessadas na votação porque acham que nada na vida delas mudará com o voto", disse Holzmann. "Antes, quando a inscrição no registro eleitoral não era obrigatória, mas o voto sim, muitos preferiam não se inscrever para não ser obrigados a votar", afirmou.

Antes da mudança na lei, na última campanha eleitoral e na eleição presidencial de 2010, era difícil encontrar jovens que tivessem votado alguma vez na vida. Muitos deles que cresceram com o retorno da democracia, em 1989, diziam: "não votei e não penso jamais votar". Quando perguntados por que, respondiam: "não me interessa".

Cara a cara

Filhas de generais que estiveram em lados opostos na ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), Matthei e Bachelet se conhecem desde a infância mas tiveram trajetórias diferentes. As duas estudaram no exterior e militaram em política, mas em calçadas diferentes.

Na quarta-feira desta semana, no último debate da campanha presidencial, transmitido por um pool de televisões do país, elas confirmaram as diferenças nas propostas e nas atitudes.

Matthei quis sugerir que Bachelet não é uma líder forte que impõe sua autoridade.

Ela acusou Bachelet de não ter agido rápido quando ainda era presidente em fevereiro de 2010, mês em que um terremoto seguido de tsunami atingiu o país, provocando alto número de vítimas saques.

A ex-presidente defendeu as medidas que tomou na época, entre elas a de enviar o exército imediatamente aos locais afetados.

"Não é preciso gritar para impor autoridade. No machismo sim é preciso gritar para ser ouvido, e eu agi sim imediatamente".

Brasil

As disputas e as diferenças entre elas continuaram até o último dia de campanha.

Na quinta-feira, no seu último comício, ao lado de autoridades do atual governo, Matthei disse que Bachelet, ao defender uma nova constituição, parece querer copiar a Venezuela.

"E nós já sabemos o que aconteceu na Venezuela. Lá faltam até alimentos" disse Matthei, sob aplausos de seus seguidores.

Já Bachelet afirmou em seu comício final, no mesmo dia, que é preciso uma "mudança" e "não a continuidade" – uma de suas poucas referências ao setor governista.

"O Chile precisa mudar para ser mais moderno e justo", disse. Ela reiterou que se for eleita pretende implementar três reformas: a tributária, a constitucional e a educacional.

Fontes do governo contaram à BBC Brasil que a expectativa é que ela vença as eleições e tenha "relação mais intensa com o Brasil".

No discurso, Bachelet agradeceu o apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que esteve em Santiago antes do segundo turno do pleito.

Segundo as mesmas fontes do governo, Bachelet teria apoio parlamentar e inclusive de setores das Forças Armadas para questões como a redução do orçamento dos militares – uma das heranças da era Pinochet.

"Se for eleita, ela terá que negociar apoio para algumas questões, mas não deverá ser difícil que consiga respaldo para a reforma tributária e a educacional, já uma nova constituição será muito mais difícil", disse uma fonte do governo.

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