A brutal e arriscada 'faxina' política na Coreia do Norte

  • 13 dezembro 2013
Image caption Chang Song-thaek era parte da família, partido e governo, e acabou executado por traição

A execução de Chang Song-thaek, o segundo nome mais importante da Coreia do Norte, e tio do líder Kim Jong-un, é um movimento brutal e potencialmente arriscado do jovem governante para assegurar seu predomínio político. Também mostra uma maior centralização e personalização do regime.

A execução rápida e sangrenta de Chang (relatos não confirmados mencionam que ele foi morto por uma metralhadora), quatro dias após a televisão mostrar ele sendo retirado de uma reunião do Partido Comunista por guardas armados, é relativamente rara em um país onde os líderes, não obstante a repressão autoritária do passado, tendem a remover os adversários sem alarde.

O anúncio norte-coreano parece uma volta aos anos 1950, quando faxinas políticas desse tipo eram comuns.

Também inusitada é a lista de crimes pelos quais Chang foi acusado, incluindo corrupção econômica e inadimplência financeira. Segundo as autoridades norte-coreanas, ele aspirava a um “estilo de vida capitalista e decadente”, era adepto da jogatina, desobedecia a hierarquia militar e, a acusação mais séria, estaria planejando um golpe para derrubar “o supremo poder do partido e do Estado”.

'Escória'

Em linguagem instransigente e injuriosa, a imprensa norte-coreana descreveu Chang como “escória desprezível”, “traidor de todas as eras”. Também o acusou de estar “contra o partido” e de mobilizar “elementos de facções contrarrevolucionárias”, em uma tentativa de derrubar a liderança do país.

A referência a um grupo de oponentes, incluindo “reacionários” e “elementos indesejáveis e alienígenas”, sem falar apenas na deslealdade de um único indivídulo, expõe as ambiguidades da verdadeira autoridade de Kim Jong-un.

A caçada pode atingir um círculo mais amplo de indivíduos hostis ao regime. Nos próximos dias e semanas teremos uma importante indicação de quão disseminado essa oposição poderia ser, especialmente se a faxina foi ampliada e incluir indivíduos que foram próximos de Chang no passado.

Remover um único indivídulo pode não ser suficiente para enquadrar os dissidentes se a oposição for maior do que se imagina. Por outro lado, uma execução brutal pode ser poderosa o necessário para deter outros potenciais rivais.

Credenciais familiares

Image caption Chang foi destituido e julgado sumariamente; ligação com Pequim poderia ter motivado decisão

Ao enfatizar e dar publicidade à execução, o regime da Coreia do Norte frisou a “desleadade” de Chang não apenas com Kim Jong-un, mas com seu pai, Kim Jong-il, e seu avô, Kilm Il-sung. Com isso, a nova liderança assumiu um risco.

Expor as divisões internas de forma tão dramática é uma ameaça à narrativa de coesão e à força do regime. Também levanta dúvidas sobre a estabilidade do novo líder norte-coreano, apenas há dois anos no poder.

Executar um membro tão próximo da dinastia Kim, ainda que ligado pelo casamento com Kim Kyong-hui e não por sangue, é algo pouco habitual, já que isso dilui as credenciais familiares que dão legitimidade à estrutura de poder do país.

Kim Kyong-hui não é vista em público há tempos, talvez por causa de sua saúde frágil. Mas há especulações de que ela pode ter ajudado na derrocada do marido, fruto dos rumores de que ele seria mulherengo e que ambos estariam separados há tempos.

Desentendimentos políticos também podem ter tido um papel na remoção de Chang. Ele era visto como um reformador e uma autoridade com laços estreitos com o governo chinês.

Entre as denúncias contra Chang, estão as de improbidade na administração de várias zonas econômicas críticas no norte do país. O governo poderia estar tentando usar Chang como bode expiatório para os próprios fracassos econômicos.

Dissidências

Reformas econômicas, no entanto, não devem tardar na Coreia do Norte, apesar da remoção de Chang. O governo mantem o compromisso de abrir 14 zonas econômicas especiais. A China também confirmou intenção em desenvolver uma ferrovia binacional conectando Pequim a Pyongyang, talvez se estendendo até a fronteira sul-coreana.

Além disso, prevêm-se conversações entre as duas Coreias na zona industrial de Kaesong, junto de representantes e homens de negócio dos países do G20, do Fundo Monetário Internacional e do Banco de Desenvolvimento da Ásia.

Nos próximos dias, os vizinhos do Norte acompanharão de perto os sinais de instabilidade. Há relatos não confirmados de deserções no exterior por parte de alguns dos partidários de Chang, assim como a convocação em Pyongyang de membros da família de Chang, talvez um sinal de outras medidas disciplinares.

A divisão interna também pode ter consequencias internacionais, já que o regime deve reforçar sua defensa a fim de se defender de qualquer tentativa externa de explorar a instabilidade doméstica.

A Coreia do Sul está monitorando de perto as forças do Norte e há noticias, ainda não confirmadas, de controle mais rígido na fronteira da Coreia do Norte e a mobilização de tropas ao longo da Linha de Limite Norte.

A opção por uma aventura militar, como com o lançamento de mísseis, choques na fronteira com forças da Coreia do Sul ou um quarto teste nuclear pode ocorrer. Mas é uma opção de alto risco, já que a distração do público interno pode criar mais unidade internacional contra o regime.

Enquanto as evidências sugerem que Kim Jong-un tenha se fortalecido com o episódio, a novidade e o caráter dramático das mudanças sugerem que a situação política, pelo menos por agora, continuará imprevisível.

*John Swenson-Wright é professor da Faculdade de Estudos Asiáticos e do Oriente Médio da Universidade de Cambridge, e consultor sênior da Chatham House.

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