Duro inverno para a Primavera Árabe

Tunisia
Image caption Na Tunísia e em outros países árabes, o povo já sabe que pode derrubar um governo (Getty)

O poeta tunisiano Aboul Qacem Echebbi foi o responsável pelo trecho do hino nacional do país que acabou ganhando as ruas de Túnis e do Cairo durante os desdobramentos da Primavera Árabe.

“Quando o povo desejar viver, o destino deve assim responder”.

Quase três anos após a onda de revoltas que derrubou regimes no Oriente Médio e no norte da África, a região passa a outro estágio.

O mesmo espírito ainda ressoa entre os árabes, mas já não é a força propulsora da política local.

A Líbia agora vê o enfrentamento de milícias riviais. O Egito luta para encontrar um caminho em direção à democracia. O Iêmen é sacudido pela violência derivada da presença da Al-Qaeda no país. Na Síria, uma guerra que só fica pior aprofunda o desastre humanitário.

À medida que um duro inverno se anuncia, é dificil encontrar qualquer doçura na chamada Revolução do Jasmim na Tunísia, que levou à derrocada do regime de 23 anos do presidente Zine al-Abidine Ben Ali.

O boulevard Habib Bourguiba, reduto dos protestos pacíficos em Túnis em 2011, agora é um cenário tomado por rolos de arame farpado, para impedir o acesso de eventuais manifestantes aos prédios do governo.

Multidão raivosa

Os charmosos café ao estilo francês no boulevard estão cheios, mas a maioria dos clientes não tem muito o que gastar - são na maioria desempregados.

Em um dia gelado, uma aglomeração em torno de um líder sindical rapidamente se transforma em um ato político.

A multidão começa a cantar em árabe “erhal”, que significa “fora!”. Às vezes, cantam em francês, "degage."

O refrão é o mesmo cantado contra o ex-presidente Ben Ali. Agora é usado contra o governado do partido islâmico moderado Ennahda.

O partido conseguiu 40% dos votos e formou uma coalizão de governo integrada por dois partidos seculares.

A aliança agora está em crise. E já se fala em um governo transitório e a convocação de novas eleições.

A situação não é de calmaria, mas muito distante da do Egito, onde a Irmandade Muçulmana foi afastada do governo após a pressão de parte da população e do Exército.

Na Tunísia, os partidos ainda se sentam à mesa e dialogam. E tentam encontrar uma saida à tuinisiana.

Velhos tempos

Na Tunísia, o antigo estado policialesco de Ben Ali continua intacto. No Egito, o Exército continua a dar as cartas como nos velhos tempos. No Iêmen, Abdullah Saleh já não é mais o presidente, mas ele continua a ser uma figura influente.

Muitas batalhas para conseguir consenso e acordo entre os diversos grupos islâmicos e seculares ainda estão sendo travadas. Em alguns lugares, no entanto, prevalecem a violência e a destruição.

O que mudou foi o silêncio das décadas passadas. Por toda a região, pessoas das mais diversas origens agora dizem o que pensam, ainda que isso possa colocá-las na prisão.

“Uma coisa é certa: os jovens já não têm medo da polícia, do presidente, de ninguém”, disse um jornalista tunisiano com quem me encontrei em Túnis.

No início de 2011, o boulevar Habib Bouguiba era um grande parlatório, onde todos podiam expressar suas opiniões políticas.

No mesmo ano, na Líbia, podia-se ver a alegria das pessoas que finalmente podiam falar o que pensavam, até mesmo para os vizinhos, sem temer os espiões do coronel Khadafi.

No Egito, a sociedade se deu conta em 2011 de que “o poder do povo é maior do que o poder de quem está no comando”.

Ninguém fala mais de Primavera Árabe por lá. O temo já caiu no desuso há bastante tempo. Em alguns lugares ridicularizado. Mas muitos insistem que agora não há caminho de volta.

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