Moradores citam melhorias mas cobram avanços em favela pacificada

Salete Martins | Jefferson Puff
Image caption Salete Martins, 43 anos, comanda a Rio Favela Tours. 'Sem a pacificação isso nunca teria acontecido'.

Conversar com moradores de uma favela carioca pacificada é garantia de obter visões complexas do que o processo representa. Não há relato simplista e todos citam avanços e expõem dificuldades. A expulsão dos traficantes e a instalação das UPPs trouxe mais segurança, mas, após décadas de abandono do Estado, o que une todos no morro é a certeza de que eles querem mais.

Cinco anos após receberem a primeira UPP do Rio de Janeiro, os moradores da favela Santa Marta, na Zona Sul da capital fluminense, ainda têm opiniões divididas. Há os que veem nos soldados o símbolo da nova etapa vivida pela comunidade e os que encaram a presença da polícia com desconfiança.

Alguns ressaltam a chegada de agentes de saúde e a crescente sensação de que as coisas começam a ficar mais organizadas, com a formalização do comércio e novos empreendedores surgindo. Outros indicam que o esgoto ainda corre a céu aberto, o lixo se acumula pelas vielas, atraindo baratas e ratos, e muita gente ainda mora sem dignidade alguma.

É difícil encontrar alguém que não tenha uma história triste de algum parente, amigo ou colega morto durante os anos de enfrentamentos entre diferentes facções do crime organizado, traficantes e a polícia. E o fim dos tiroteios, operações policiais e balas perdidas é bem-vindo por todos.

Turismo e transformação

Salete Martins, de 43 anos, 35 deles vividos no morro, viu de perto essas transformações. Casada e mãe de dois filhos, ela veio muito pequena do Nordeste e, após seus pais fixarem residência na comunidade, também fez ali sua própria família.

Dona de um trailer onde vende lanches, ela se interessou por um programa trazido pelo governo pouco depois da ocupação da comunidade.

"Eu já tinha um comércio, mas acabei estudando por dois anos e hoje sou formada como guia e técnica em turismo. Acabei criando um novo negócio com mais três colegas, a Rio Favela Tours", conta.

"Quem diria. Sem a pacificação isso nunca teria acontecido. Eu estaria até agora fritando hambúrguer. Hoje sou quase uma guia internacional. Me comunico em inglês, espanhol e francês e continuo estudando, e já fui guia aqui do vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e de muitos artistas de Hollywood, entre eles o Bradley Cooper, que foi um sucesso com as meninas."

Habituada a falar com a imprensa, Salete já deu entrevistas para jornais como o francês Le Figaro e a revista britânica The Economist, entre outros meios de comunicação internacionais.

Para ela as clínicas da família ajudam, e a chegada do bondinho, conhecido como plano inclinado, poucos meses antes da ocupação, também trouxe benefícios. "A Praça Cantão, na entrada da comunidade, era quase uma cracolândia, e agora é completamente diferente", diz em referência ao local que foi repaginado pelo projeto Tudo de Cor para Você, que também fornece tintas para que moradores pintem suas casas.

Mas, diz ela, "ainda há muito o que melhorar".

"Precisamos de mais cidadania, e não só segurança. A gente não sabe como vai ficar isso aqui depois de 2016", diz em referência a uma percepção de muitos moradores de que o processo pode perder força após a Copa e a Olimpíada.

As eleições para governador, no próximo ano, também são vistas com preocupação.

Baleada na perna

Para a artesã e guia de turismo Andreia Miranda, de 31 anos, não há dúvidas de que as coisas melhoraram. Ela mostra a cicatriz na perna.

Image caption Vítima de bala perdida, Andreia diz que hoje nem saberia reconhecer barulho de um tiro. 'Faz tanto tempo', diz.

"Eu tinha dez anos, e estava dormindo em casa. Escutei um barulho alto e minha perna começou a doer muito. Passei a mão e vi que era uma coisa melada, logo me dei conta que era sangue e chamei meus pais, que me levaram para o hospital, correndo morro abaixo." Era uma bala perdida.

"A gente, que nasceu e cresceu na favela, tem muito amigo, colega, parente, que morreu ao longo do tempo". Mas, ao fazer um balanço dos últimos cinco anos, ela diz que "hoje nem saberia reconhecer o barulho de um tiro. Faz tanto tempo".

Andreia faz suas críticas com a mesma intensidade dos elogios. "Não consigo entender esses policiais da UPP com fuzil, armamento pesado, dentro do bondinho, andando pela favela, na frente das crianças. Não é bom não, traz memórias para quem viveu a outra época", diz.

"Sei muito bem como uma arma dessa pode disparar, e o estrago que pode causar. Não vou deixar meu filho pequeno andar sozinho no bondinho que tem um policial com um fuzil. Eu não posso confiar. Também não acho bom trocarem tanto de capitão (da UPP). Quando a gente está se acostumando, eles mudam. Nem todos interagem com a comunidade, circulam, criam relações. Um é diferente do outro."

Quanto ao tráfico, Andreia celebra a ausência de traficantes ostentando fuzis dentro da favela. "Mas ainda tem usuários, e tem gente vendendo. Ainda tem o tráfico, claro - só não é mais armado", explica.

Andreia menciona outra dificuldade. Com a pacificação, os preços dos imóveis dispararam, tanto para aluguel quanto para venda.

"Tem barraco por R$ 700, tem apartamentinho mais na entrada da favela por até R$ 1.500 por mês. Eu comprei minha casa por R$ 5 mil, cinco anos atrás, e hoje qualquer laje no meio do morro não sai por menos de R$ 20 mil. Também tem muito turista que vem morar na favela, e tem gente daqui que não consegue mais pagar o aluguel."

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