ONU revela descoberta de valas comuns no Sudão do Sul

Refugiados no Sudão do Sul. Foto: Reuters
Image caption Crescem os temores de que o país esteja rumando para um conflito étnico

O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos anunciou nesta terça-feira a descoberta de pelo menos duas valas comuns no Sudão do Sul contendo pelo menos 34 corpos, em mais um desdobramento da violência no mais novo país do mundo.

Uma assessora da ONU, Ravina Shamdasani, disse à BBC que 14 cadáveres foram encontrados na cidade de Betiu, uma cidade que foi tomada dias atrás por rebeldes leais ao ex-vice presidente Rieck Machar, que lutam para tomar o poder no Sudão do Sul. Outros 20 corpos foram encontrados em um rio próximo.

Investigadores estão averiguando ainda relatos acerca de outras duas valas comuns na capital do país, Juba.

Anteriormente, Shamdasani havia dito que 75 cadáveres haviam sido encontrados na vala em Betiu.

Uma jornalista da capital disse à BBC ter ouvido testeminhas que aformaram que cerca de 200 pessoas, a maioria da etnia nuer (a mesma de Machar), já morreram baleadas por tropas do governo na cidade.

O Ministro do Exterior, Barnaba Benjamin, admitiu que algumas das mortes podem ter ocorrido, mas não tantas quanto têm sido noticiadas.

Conflito étnico

A escalada de violência no Sudão do Sul nos últimos dias despertou preocupações na comunidade internacional de que o país possa estar rumando para um conflito étnico.

Outra testemunha na capital disse que atiradores do grupo étnico dinka dispararam contra a população em áreas habitadas pelos nuer, o grupo majoritário no país e o mesmo do presidente Salva Kiir.

Os testemunhos – relatados para a BBC pela repórter Hannah McNeish – foram corroborados por outras pessoas que sobreviveram aos incidentes e estão refugiados.

A violência se intensificou desde que começou uma disputa política entre Kiir e Machar – que foi demitido e está foragido.

As lideranças políticas negam estar por trás da violência. Mas apesar disso, grupos rebeldes ligados a Machar assumiram o controle de diversas cidades ao longo da última semana. Dezenas de milhares de pessoas deixaram suas casas.

Entenda a crise no Sudão do Sul, o país mais novo do mundo

Tropas da ONU

A escalada no número de mortos levou a ONU a estudar medidas. O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, pediu que o Conselho de Segurança envie mais 5 mil soldados ao Sudão do Sul – que se somariam ao contingente de 7 mil já presentes no país desde segunda-feira.

O secretário-geral prometeu investigar todas as denúncias de crimes contra humanidade. Na semana passada, dois soldados indianos da ONU foram mortos em um ataque a uma base da entidade.

Até agora, 500 pessoas morreram oficialmente, mas agências humanitárias acreditam que o número pode ser muito maior. Outras 81 mil pessoas estão refugiadas – metade delas em acampamentos da ONU.

O presidente Kiir disse que a porta está aberta para uma negociação com Machar, desde que nenhuma condição seja imposta pelo político para iniciar o diálogo. No entanto, o ex-vice-presidente exige a libertação de aliados políticos para começar a negociação.

O Sudão do Sul se tornou independente do Sudão em 2011, após 22 anos de guerra civil.

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