Entenda os confrontos entre sunitas e xiitas no Iraque

Falloujah (Reuters)
Image caption Militantes sunitas ligados à Al-Qaeda operam abertamente em Fallujah

As forças de segurança do Iraque estão enfrentando militantes sunitas ligados à Al-Qaeda pelo controle de duas cidades no oeste do país, Ramadi e Fallujah.

Entenda o que está envolvido e quais são os temores com o acirramento dos confrontos.

Por que os confrontos começaram?

A tensão na região aumentou no dia 28 de dezembro, quando as forças de segurança prenderam o parlamentar sunita Ahmed al-Alwani em Ramadi, desencadeando um tiroteio que deixou seis mortos.

Dois dias depois, o primeiro-ministro Nouri Al-Maliki, que é xiita, ordenou que os soldados iraquianos acabassem com um acampamento de protesto que era organizado pelos sunitas em Ramadi alegando que o local tinha se transformado em um "quartel-general para a liderança da Al-Qaeda".

A resposta dos militantes sunitas foi violenta e cerca de 40 parlamentares, a maioria sunita, renunciaram em protesto, pedindo a retirada do Exército de áreas urbanas e a libertação de Ahmed al-Alwani.

No dia 31 de dezembro, Maliki concordou em retirar o Exército para que a polícia assumisse o controle da segurançpa. Mas, assim que os soldados saíram, militantes apareceram nas ruas de Ramadi, Fallujah e Tarmyia, invadindo delegacias de polícia, libertando prisioneiros e tomando armamentos.

O primeiro-ministro reverteu a decisão no dia seguinte. No entanto, os militares até agora não conseguiram retomar o controle total de Ramadi e Fallujah.

Qual a razão do acampamento dos sunitas?

Os membros da comunidade árabe sunita do Iraque, que é uma das minorias do país, protestam há um ano contra o que eles afirmam ser discriminação do governo liderado pelos xiitas. Muitos sunitas também reclamam que o governo não consegue fornecer serviços básicos como eletricidade e esgotos, principalmente devido à corrupção.

Grandes protestos começaram na província de Anbar em dezembro de 2012 depois que as forças de segurança realizaram uma operação na casa e escritórios de um dos mais importantes políticos sunitas do país, o então ministro da Economia Rafi al-Issawi, e prendeu 150 pessoas. O próprio Issawi não foi preso.

O incidente ocorreu um ano depois de o vice-presidente, Tariq al-Hashemi, que é sunita, ser obrigado a fugir do país depois de ser condenado à morte por terrorismo, acusação que ele nega.

Depois de quatro meses de manifestações, tiroteios começaram a ocorrer em cidades onde predomina a população sunita.

Image caption Ramadi é uma das cidades de Anbar que é palco de confrontos violentos

Militantes extremistas sunitas envolvidos com a Al-Qaeda, dos grupos Estado Islâmico do Iraque e do Levante, aumentaram os ataques pelo país, tendo como alvo funcionários das forças de segurança, do governo e civis xiitas. Foram centenas de atentados com carros-bombas e ataques suicidas.

Grupos militantes xiitas, por outro lado, iniciaram represálias violentas contra clérigos sunitas, civis e milicianos.

A ONU diz que o ano passado foi o mais violento no Iraque desde 2008. Em 2013, pelo menos 7.818 civis e 1.015 membros das forças de segurança foram mortos em ataques violentos no país.

Para tentar diminuir a violência sectária, as forças de segurança lançaram campanhas contra a Al-Qaeda e seus aliados. Mas, as operações que, em sua maioria, ocorreram em áreas sunitas, enfureceram ainda mais os sunitas.

Qual é a força da Al-Qaeda em Anbar?

Sunitas, particularmente os que vivem na província de Anbar, tiveram um papel importante ao ajudar os militares americanos enfrentar a Al-Qaeda no Iraque em 2007.

No entanto, o governo do Iraque parou de apoiar os conselhos formados pelos sunitas depois da retirada dos Estados Unidos e a Al-Qaeda retomou aos poucos os territórios perdidos.

O conflito na Síria , onde grupos rebeldes jihadistas se tornaram cada vez mais importantes, foram explorados pela Al-Qaeda. O grupo do Levante também conseguiu mais apoio e atraiu novos membros em áreas sunitas do Iraque, além de se estabelecer além da fronteira do país, no norte e leste da Síria.

Image caption Atiradores disparam contra forças de segurança iraquianas em Anbar

O grupo também aumentou a presença em Anbar, estabelecendo campos de treinamentos, bases e estoques de armas. Antes dos confrontos recentes, havia sinais de crescente apoio do público.

Um vídeo de novembro mostrava uma pequena multidão em Ramadi recebendo membros do Levante que participavam de um desfile pela cidade.

Quando os militantes tentaram assumir o controle da cidade, o governo conseguiu fechar um acordo rápido com as tribos da região para expulsá-los.

O governo vai conseguir retomar o controle?

Não há dúvida de que a Al-Qaeda é uma grande ameaça à segurança do Iraque.

O ministro do Exterior, Hoshyar Zebari, estimou que o Levante tem 12 mil combatentes na Síria e Iraque. No entanto, o governo iraquiano teria cerca de 930 mil funcionários do setor de segurança espalhados no Exército, polícia e serviço secreto.

Além disso, Nouri Al-Maliki já enfrentou outros desafios. Em 2008 ele lançou uma operação que resultou em quatro divisões do Exército enviadas a Basra para retomar o controle da cidade do sul, que havia sido tomada por milícias xiitas.

Ele então impôs o controle do governo no bairro de Cidade Sadr, da capital, Bagdá, que tinha sido governado pelo Exército Mehdi do clérigo radical xiita Moqtada Sadr.

Mas, em 2004, antes de Maliki ocupar o cargo de primeiro-ministro, soldados americanos enfrentaram duas grandes batalhas com militantes sunitas pelo controle de Fallujah, os combates mais violentos enfrentados por americanos desde a Guerra do Vietnã.

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