Lucas Mendes: Palácio da utopia

Inside the Dream Palace, de Sherill Tippins, é o 11º livro sobre o hotel Chelsea. Está na companhia de 17 filmes e documentários, 24 músicas, temas de incontáveis pinturas e ilustrações. Há uma vasta produção de artes plásticas, músicas, roteiros, filmes e livros escritos nos quartos do hotel, mas não sobre o hotel.

Entre eles, 2001 de Arthur C. Clarke, On the Road, de Jack Kerouac, You Can‘t Go Home Again, de Thomas Wolfe e Chelsea Girls, de Andy Warhol. Há o brilhante livro do fotógrafo brasileiro Claudio Edinger sobre o centenário do hotel, em 1983.

O próprio hotel foi personagem central de Abel Ferrara, Ethan Hawke e Dee Dee Ramone. Lá, entrevistei Arthur C. Clarke para a Manchete, num apartamento enorme com paredes cobertas de estantes onde ele passava seis meses por ano. Nos outros seis vivia em Sri Lanka. Não parecia quarto de hotel e tinha baratas, mas quem passava seis meses por ano em Sri Lanka não tinha medo de baratas.

Um dos vizinhos dele era o diretor Milos Forman, que fazia sucesso com seu premiado Amadeus. Foi fino. Em vez de dar a entrevista no quarto com baratas foi ao estúdio da Globo, sentou na frente de uma moviola, contou a história dele e do filme.

Patti Smith também era residente, mas nossa entrevista foi num estúdio e falamos sobre música e atitude. Nos shows, ela cuspia sem parar. Depois da entrevista, uma amiga dela me deu um amasso no elevador e bateu minha carteira. Parabéns! Bestalhão merece.

As histórias de Patti Smith sobre o hotel estão no seu premiado Just Kids, mas quem quer a chegar à origem, sucessos, dramas e conexões do Chelsea deve entrar Dentro do Palácio de Sonhos, da Sherill Tippins. É o segundo livro dela que explora os encontros da arquitetura com artistas num mesmo prédio.

Seu primeiro livro, February House, conta a convivência de W.H. Auden, Carson McCullers, Gypsy Rose Lee e os Bowleses, Jane e Paul, numa casa do Brooklyn.

O Chelsea foi inaugurado em 1893, sonho e criação de Philip Hubert, um visionário arquiteto francês inspirado em Charles Fourier, filósofo utopista que via comunidades urbanas como centros onde haveria perfeita harmonia. Seriam o próximo estágio da evolução humana.

Hubert construiu um monumento gótico de 12 andares na rua 23, então centro teatral de Manhattan e um dos maiores prédios da cidade. Foi onde nasceu o conceito do condomínio. Os ricos compraram os apartamentos grandes de doze cômodos nas extremidades. Os menos endinheirados ficaram com os menores, perto da enorme escada. Os apartamentos dos andares mais baixos foram alugados para pagar as despesas do prédio. Os corredores eram largos, com pequenas salas externas para incentivar conexões entre os moradores.

Entre os primeiros residentes estavam os construtores do prédio, do arquiteto ao pedreiro, todos moravam lá, uma fusão de capitalistas e proletários, educados e analfabetos, ricos e pobres de espírito.

A utopia se desfez em menos de trinta anos. Faliu. Grande parte do condomínio foi transformada em apartamentos para aluguel a curto prazo, mas muitos residentes originais e seus descendentes moraram lá várias décadas e o hotel passou a atrair artistas. Um puxava outros.

Quem salvou os artistas de uma expulsão foi a família Bard, que administrou o hotel por 50 anos, liderada por Stanley Bard, que entrevistei no centenário, em 1983. Não entedia nada de arte nem hotelaria, passou a entender, gostou dos seus hóspedes boêmios, poetas e sonhadores. Quem podia, pagava em dinheiro. Pintores pagavam com quadros, escultores com esculturas. A coleção de arte do hotel é vasta, mas não necessariamente preciosa. Quem não podia, não pagava, mas os canos eram raros. Stanley mandava as contas.

Uma descendente do encanador original mobilizou o board, derrubou Stanley em 2007 e vendeu o hotel em 2011 por US$ 81 milhões para um empresário marroquino, que começou a desmontar o prédio. Houve protestos, muitos moradores preferiram conviver com a poeira da renovação, falta d'água e aquecimento. Finalmente chegaram a um acordo, o marroquino prometeu renovar preservando, acomodar os moradores e recebê-los de volta quando o hotel ficar pronto.

Sherill Tippins, durante os seis anos que pesquisou e escreveu sobre o hotel, várias vezes sentiu uma "energia deixada pelas gerações anteriores ou gerada pelo próprio prédio". Não foi a primeira que sentiu esta misteriosa força criadora. Muitos residentes sentiram boas e más vibrações no Chelsea, mas seus antigos inquilinos duvidam que os fantasmas resistam à nova encarnação marroquina.