Imigrante morre defendendo seu restaurante em Cabul

Restaurante destruído em atentado em Cabul na sexta-feira (AFP) Direito de imagem AFP
Image caption Restaurante (acima, após o atentado) era uma 'casa longe de casa' para libanês

Kamal Hamade, dono de um restaurante em Cabul, oferecia o melhor bolo de chocolate da cidade, o melhor da culinária libanesa e, ele acreditava, o melhor plano de proteção para seus clientes.

Mas o plano não foi bom o bastante para permitir que ele e outras 20 pessoas - entre clientes e funcionários - escapassem de um atentado realizado nesta sexta-feira, em seu restaurante Taverna du Liban, localizado em uma rua tranquila da capital do Afeganistão.

Segundo relatos, Kamal tentou impedir o ataque à taverna, mas foi morto a tiros pelos agressores, que agiram com armas e explosivos.

O atentado, que resultou na morte de 13 estrangeiros e oito afegãos, foi reivindicado pelo Talebã, indicando que o restaurante foi escolhido como alvo por ser frequentado por visitantes de alto escalão e por servir álcool.

O episódio é mais uma evidência dos desafios de segurança que assombram o Afeganistão, num ano em que a maioria das tropas estrangeiras deve deixar o país.

Casa longe de casa

Kamal, um carismático e sorridente imigrante libanês, fazia todo o possível para tornar seu restaurante uma "casa longe de casa".

Qualquer prato que você pedisse, ele trazia a comida em dobro. E, quando sentava na sua mesa, ele compartilhava ótimas histórias. Treinava, com orgulho, chefs afegãos para que produzissem iguarias libanesas, enquanto seguranças afegãos protegiam seu restaurante.

Sua taverna já havia sido atacada antes. Ele contou uma vez à reportagem da BBC que guardava uma arma, pronto para defender seu negócio e seus clientes, que faziam do local um ambiente especial.

De tempos em tempos, ele aumentava a segurança: mais portas, mais armas, mais regras.

Nas redes sociais, dezenas de afegãos e estrangeiros, que em algum momento foram agraciados com sua hospitalidade, lamentaram a morte de Kamal com tristeza e assombro - tanto por ele quanto pelo Afeganistão.

Agora, as portas de seu restaurante estão fechadas e, com elas, parte da esperança de que Cabul volte a ser a cidade segura e convidativa com que Kamal sonhava.

'Cabul está sangrando'

A tragédia também tirou a vida de outro libanês, amigo de Kamal: Wabel Abdallah, de 60 anos, representante do Fundo Monetário Internacional. Muitas vezes eles sentavam juntos no restaurante e conversavam sobre o país que haviam deixado para trás e o país que passaram a chamar de casa.

Horas após a explosão no restaurante, ainda emergiam detalhes sobre o ocorrido e sobre as vítimas.

Bilal Sarwary, da equipe da BBC em Cabul, conta que os extremistas responsáveis pelo ataque pesquisaram o local antes do atentado. A polícia disse a ele que os agressores chegaram ao restaurante com "mapas, datas e energéticos" para uma operação "organizada e planejada".

"Cabul está sangrando", escreveu Bilal no Twitter. "E meu coração também."

Em um ano crucial, que colocará à prova a força da segurança e da estabilidade afegãs, o atentado desta sexta é um mau presságio: uma luz preciosa de Cabul se apagou.

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