Egípcios temem regresso do autoritarismo

  • 19 janeiro 2014
Simpatizantes de Sisi com cartazes de apoio ao general (Reuters) Image copyright Reuters
Image caption Muitos dizem que general Sisi (nos cartazes) evitou uma guerra civil; outros o acusam de repressão

Crescem no Egito os temores de que o país volte ao autoritarismo, num momento em que autoridades - com apoio militar - limitam a liberdade de expressão, reprimem protestos e detêm ativistas.

Quase três anos após a derrubada de Hosni Mubarak, qual o destino da revolução egípcia?

Ahmad Harara raramente sai de casa sem seus óculos escuros. O ex-dentista de 33 anos perdeu a visão, e um de seus olhos foi substituído por uma prótese, na qual foi escrita a palavra "hurriya" - liberdade.

Foi a luta pela liberdade que lhe custou a visão, um olho de cada vez. Harara foi alvejado no rosto duas vezes, em 2011. Segundo ele, pela polícia.

"Eu não paguei um preço tão alto quanto outros, que sofreram lesões mais sérias e continuam (vivendo)", diz à BBC.

Ahmad também continua lutando contra o regime - que, segundo ele, ainda não foi derrubado.

"O sistema continua o mesmo. O Exército mantém sua posição. Ninguém é responsabilizado, ninguém é supervisionado. Pelo contrário, aumentaram os privilégios", opina.

Jovens continuam saindo às ruas do país, enfrentando bombas de gás, canhões de água e o risco de serem reprimidos à força, ainda que os protestos atuais estejam muito menores - já que uma nova lei proibiu as manifestações.

Para ativistas, essa lei faz retroceder uma das principais conquistas da revolução: a liberdade de falar livremente.

Repressão

Muitos acreditam que a lei foi criada para deter principalmente os simpatizantes do presidente deposto Mohammed Morsi e de seu grupo político, a Irmandade Muçulmana.

A revolução que tirou Mubarak do poder resultou na eleição de Morsi, pelo voto democrático, mas seu governo durou pouco.

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Image caption Membros da oposição têm sido detidos, sobretudo da Irmandade Muçulmana

Após protestos com amplo apoio popular, que criticavam a deterioração econômica do Egito e o suposto favorecimento de islâmicos, Morsi foi deposto pelo Exército, que hoje sustenta um governo interino.

Em agosto passado, as autoridades reprimiram violentamente dois protestos pró-Morsi, matando centenas de simpatizantes. Desde então, outros milhares foram detidos, incluindo membros de alto escalão da Irmandade Muçulmana.

Neste final de semana, a imprensa estatal informou que a nova Constituição do país foi aprovada em referendo. E, além disso, que Morsi será levado a um quarto julgamento, por insultar o Poder Judiciário - em mais um sinal de que os militares não pretendem aliviar as tensões com a Irmandade.

Irmandade

Em Nasr City, distrito do Cairo, a BBC encontrou-se com Wafaa Hefny, uma professora universitária, durante uma ronda pelo bairro. "Eu nunca desisto - aprendi isso com meu avô", diz ela.

Seu avô, Hassan al-Banna, fundou a Irmandade Muçulmana, em 1928.

Wafaa afirma que a organização continua funcionando plenamente e se adaptando à crise.

A BBC a acompanhou em uma visita à jovem viúva Alshaimaa Abdallah, cujo marido, Mahmoud, foi morto em agosto durante um dos protestos.

Alshaimaa afirma que seu marido não pertencia à Irmandade - apenas era "um muçulmano devoto, que defendia o Islã". Mas diz que, agora, ela e sua família gostariam de se unir à Irmandade.

Questionada a respeito de suas expectativas quanto ao futuro do Egito, sua resposta surpreende.

"Sou muito otimista", diz. "É muito difícil nos separar. Em cada bairro, as pessoas são próximas umas das outras, mesmo que se dividam politicamente."

Polarização

Mas uma profunda e marcante polarização parece ser um dos desdobramentos mais evidentes da revolução egípcia.

E não chega a surpreender que, na terra dos faraós, haja um grande anseio por estabilidade e por um líder forte.

Entra aí o herói do golpe, o general Abdul Fattah al-Sisi, chefe do Exército que depôs o presidente eleito - e que agora é cotado para substituí-lo.

Se, conforme esperado, Sisi concorrer às próximas eleições, deve ganhar por ampla margem.

Na praça Tahrir, famosa pelos protestos que ajudaram a derrubar Mubarak, agora há vozes clamando por outro líder militar.

"Nós te amamos, Sisi", entoa um grupo, no mesmo lugar onde manifestantes gritavam por liberdade e democracia em 2011.

"Sisi ajudou a evitar um banho de sangue", justifica um homem.

Muitos outros compartilham da opinião de que Sisi evitou uma guerra civil ao tirar Morsi do poder.

Para outros, que ajudaram a pôr fim ao longo regime de Mubarak, "o regime militar é a contrarrevolução".

"Eles continuam tentando controlar o país. Eles nos traíram", argumenta Ahmad Harara.

Revolução em curso

A sensação é de que a revolução ainda não terminou. Ainda que dois presidentes tenham sido removidos num período de três anos, antigas forças permanecem vigorando.

O Exército continua detendo o poder real, eliminando muitas das esperanças por um novo Egito.

Para Tamara Alrifai, da ONG Human Rights Watch, o país não está muito diferente do que era antes de 2011.

"A liberdade de expressão diminuiu", diz ela. "Há pouco espaço para a mídia de oposição, e existem campanhas para deter e fazer desaparecer qualquer pessoa que ouse desafiar (o regime). É decepcionante ver que praticamente voltamos para onde estávamos três anos atrás."

No ano que vem, o país votará para eleger presidente e legisladores. O pleito pode parecer um passo rumo à democracia, mas analistas acham que não.

"Sisi controla a polícia, o Exército, o Judiciário e a imprensa", disse à BBC uma especialista experiente, que pediu anonimato. "Ele é popular e receberá votos. O medo é que, ao assumir a Presidência, ele nunca mais saia. Ele pode ser um novo Mubarak."

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