Santa Maria: dor e tristeza às vésperas de aniversário de tragédia

Tragédia em Santa Maria | Crédito: Júlia Dias Carneiro - BBC Brasil Direito de imagem BBC Brasil
Image caption Mãe de Flávia Torres, morta no incêndio, Fani diz ter perdido a vontade de viver

Os sorrisos de Flávia, Andrielle, Mirela, Gilmara e Vitória estão estampados em inúmeras fotos reunidas em um painel cuidadosamente montado por suas mães, fundadoras da ONG 'Para sempre Cinderelas', em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

As cinco amigas eram inseparáveis e estavam comemorando dois de seus aniversários na boate Kiss. Um ano depois, suas mães se amparam no primeiro aniversário das filhas ausentes.

No dia 27 de janeiro de 2013, um incêndio de grandes proporções na boate Kiss, no centro da cidade, tirou a vida das cinco meninas e de outras 237 pessoas, a maioria universitárias como elas.

A ONG foi fundada pelas mães das jovens logo após a tragédia para dar prosseguimento ao trabalho social das filhas.

O acidente completa um ano na próxima segunda-feira, quando uma série de ações está programada na cidade para lembrar a data, como missas, caminhadas, protestos, um congresso e uma vigília.

Mas neste sábado, lojas já amanheceram com flores e laços brancos em suas vitrines.

Flávia Vilanova Torres faria 23 anos no sábado. Sua mãe, Fani, começou o dia com uma visita ao seu túmulo no cemitério, para depois se juntar às outras mães na tenda da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, no centro de Santa Maria.

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A menina era filha única e foi criada sozinha pela mãe, que dividia com ela o quarto, a cama e o armário e diz acordar todos os dias chorando a morte de sua filha.

"Mas hoje está sendo muito difícil", diz Fani à reportagem da BBC Brasil, segurando as lágrimas que surgem em seus olhos toda vez que alguém chega para abraçá-la.

Como em um relicário, Fani arrumou uma mesa com pertences da filha: sapatos de salto alto dourados, "sua cor preferida"; o vestido verde-água que comprou para um aniversário; um chaveiro da faculdade de pedagogia; e a agenda de 2012 da filha, aberta em uma página com um compromisso marcado com uma letra bonita e caneta roxa: "Ver as gurias!"

Dor e tristeza

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Image caption Fani montou relicário com objetos de sua filha, Flávia, uma das 242 vítimas do incêndio em Santa Maria

O incêndio na Kiss atingiu 900 jovens que, como as cinco "gurias", lotavam a casa noturna naquela noite de sábado. O fogo teria começado quando um integrante da banda Gurizada Fandangueira, que se apresentava no local, acendeu um sinalizador no meio do palco.

Rapidamente, as labaredas se alastraram pela espuma que fazia o isolamento acústico do teto, gerando uma fumaça tóxica que matou grande parte das vítimas asfixiadas, sem uma queimadura.

Fani largou o trabalho de manicure desde que a filha, conhecida por todos como "Flavinha", morreu. Não gosta mais de ficar em casa e diz ter perdido a vontade de viver. "Saio de casa e caminho sem rumo. Não me reconheço mais", diz, vestindo uma camiseta branca com o rosto sorridente de Flávia e um colar com um pingente de coração com o nome da filha, igual ao das outras mães.

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Image caption Ligiane fez tatuagem em homenagem à filha, Andrielle, morta no incêndio da Kiss

Ligiane Righi da Silva também está vestindo a camiseta, mas na sexta-feira era a foto de sua filha tocando violão que estava estampada no peito das cinco mães da ONG.

Andrielle teria feito 23 anos na sexta, e Ligiane levou para o estande seu violão – desafinado, já que ninguém se atreve a tocá-lo – e coisas que sua filha gostava, como o tênis All Star, duas garrafas de Heineken com gérberas coloridas, bombons e um ursinho de pelúcia que tinha desde os 4 anos.

Depois do incêndio, a história de Andrielle se tornou famosa mundialmente pelo último comentário que fez na rede social Twitter. Antes de sair com as amigas para o boate, ela escreveu no microblog: "diz que hoje vamos destruir a kiss então". E logo depois: "acho que a kiss nunca mais será a mesma despois dessa noite".

Ligiane ainda mantém o quarto da filha do jeito que era. Ela se irrita toda vez que alguém sugere que toque a vida e siga em frente.

"Ninguém sabe o que é acordar às 5h da manhã com um telefonema, passar o dia procurando por sua filha e encontrá-la morta às 17h30", afirma. "Pelo menos eu pude dar um último abraço. Parecia que ela estava dormindo."

Justiça

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Image caption Ligiane, Fani e outras três mães fundaram ONG após tragédia

Quinze amigos de Andrielle morreram no incêndio. "Se ela tivesse sobrevivido, não teria aguentado", acredita a mãe.

Ela tatuou no punho o nome de Andrielle e da outra filha, Gabrielle, que não foi à boate naquela noite fatídica. Ela conta que, por muito tempo, continuou à pôr a mesa de jantar como se sua filha ainda estivesse viva.

"Parece que foi ontem. Eu continuo esperando a minha filha chegar", afirmou ela.

Durante o fim de semana, as mães do Para Sempre Cinderelas estão arrecadando doações de material escolar e alimentos para ajudar escolas da cidade, dando continuidade ao trabalho social que havia sido iniciado pelas filhas.

Ligiane diz que o laço formado entre as cinco mães tem sido uma grande ajuda enfrentar a dor, mas que o mais difícil é ver que, um ano depois, ninguém foi punido pela tragédia.

Após uma investigação da Polícia Civil que apresentou 16 indiciamentos, oito pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público e estão sendo julgadas.

Os sócios da boate Kiss, Elissandro Spohr (Kiko) e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira foram presos logo após o incêndio, mas tiveram liberdade provisória concedida pela Justiça em maio do ano passado.

"Até agora ninguém tem culpa, ninguém tem respostas, ninguém sabe, ninguém viu", afirma Ligiane.

"A única certeza que eu tenho é que a minha filha não volta. E se continuarmos com impunidade, protecionismo, jeitinho brasileiro, outras "Kisses" vão acontecer. E eu não desejo para nenhuma outra mãe o que eu estou passando."

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