Os desafios de Curitiba para se manter na Copa

  • 28 janeiro 2014
Obras da Arena da Baixada estão 90% concluídas / Crédito da foto: CAP/SA Direito de imagem CAP
Image caption Atlético-PR precis ter grande progresso nas obras da Arena da Baixada para mantê-la na Copa

Uma conturbada e decepcionante visita da Fifa, um ultimato com a ameaça de não sediar a Copa e menos de um mês para reverter o cenário de atraso das obras da Arena da Baixada.

Há uma semana, Curitiba recebeu uma segunda chance para provar que ainda pode receber os quatro jogos da primeira fase da Copa do Mundo que estavam programados para a cidade. Mas para conseguir isso, a capital paranaense terá alguns desafios pela frente.

Após visitar a Arena da Baixada na terça-feira da semana passada, o secretário geral da Fifa, Jérôme Valcke, reconheceu que a situação do estádio de Curitiba – com cerca de 90% de conclusão das obras – é crítica. Ele estipulou um prazo final para definir se a cidade será ou não mantida na Copa do Mundo de 2014: 18 de fevereiro.

Com isso, em menos de um mês, o estádio do Atlético-PR precisa ter avanços significativos para não ser excluído do Mundial. A Fifa pediu ao menos cinco itens prontos na próxima inspeção da entidade, na segunda quinzena de fevereiro: gramado aplicado, cobertura pronta, todas as instalações de iluminação devidamente funcionando, os acessos ao vestiário concluídos e no mínimo 10 mil assentos instalados.

O prazo é curto, mas as autoridades de Curitiba acreditam que o Atlético-PR, clube gestor da obra, será capaz de cumprir todas as exigências a tempo. Ainda assim, o secretário municipal da Copa na cidade, Reginaldo Cordeiro, já adianta que será preciso mais dinheiro para que as etapas sejam concluídas.

"Acredito que será possível cumprir tudo desde que se aumente efetivo e que o Atlético-PR consiga garantias para o financiamento disso. Acho que precisaremos chegar pelo menos a um total de 1.500 operários trabalhando na obra”, disse o secretário à BBC Brasil.

Cerca de mil operários estão trabalhando atualmente na Arena da Baixada, de acordo com a CAP/SA – empresa criada pelo Atlético-PR para gerir a reforma do estádio. Uma comissão técnica formada na semana passada por representantes da prefeitura e do governo paranaense para supervisionar as obras está fazendo um levantamento sobre o atual estágio da reforma e divulgará nesta quarta-feira um relatório do que precisa ser feito e de quantos trabalhadores precisarão ser contratados.

Desafio financeiro

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Image caption Para cumprir etapas até fevereiro, Atlético-PR terá que aumentar efetivo da obra

O grande desafio a ser vencido por Curitiba para se manter na Copa é o mesmo que levou a cidade a ser "a mais atrasada” em termos de estádio para o Mundial. O financiamento das obras na Arena da Baixada foi problemático e ainda pode atrapalhar os planos da capital paranaense de sediar os quatro jogos do torneio programados para a cidade.

A princípio, a reforma do estádio do Atlético-PR seria bancada por três partes: o próprio clube, a prefeitura de Curitiba e o governo do Paraná. O orçamento inicial previa um gasto de R$ 184 milhões para entregar a Arena da Baixada nos padrões exigidos pela Fifa, e o Atlético-PR até então se comprometeu com o pagamento de eventuais estouros no orçamento.

A obra, porém, já ultrapassou o custo previsto e está estimada agora em R$ 326 milhões, segundo o último levantamento divulgado pelo Ministério do Esporte em novembro.

A expectativa é de que o custo da Arena da Baixada suba mais por conta da aceleração das obras. Com isso, o Atlético-PR deverá ter que fazer novo empréstimo e precisará apresentar garantias para conseguir a liberação do dinheiro.

As garantias, aliás, foram um problema para o clube paranaense no financiamento do estádio. Isso porque o Atlético não quis contratar nenhuma construtora para gerir a reforma e criou sua própria empresa, a CAP/SA, que contratou empreiteiras menores para tocar a obra.

Com isso, o clube só conseguia executar qualquer trabalho no estádio quando tinha o dinheiro necessário para financiá-lo – o dinheiro vinha dos empréstimos, mas só era liberado após a apresentação de garantias por parte do Atlético-PR.

"A CAP/SA não tinha essa experiência nisso, essa empresa foi formada pelo Atlético, que entende de futebol. Esse modelo de gestão foi o grande atraso”, explicou o secretário municipal da Copa, Reginaldo Cordeiro.

"Foi o que mais atrapalhou, porque eles tinham que esperar as parcelas de financiamento para entrar o dinheiro. Se é uma construtora, a empresa vai colocando o dinheiro na frente e depois vai recebendo.”

Disputas internas

Os desentendimentos entre Atlético-PR, governo municipal e estadual também atrapalharam a organização da Copa em Curitiba. Na semana passada, o presidente do clube paranaense, Mário Celso Petraglia, justificou os atrasos na obra do estádio com uma suposta omissão do poder público.

"Só faltou uma coisa para esse estádio estivesse pronto: compromissos do governo do Estado e da prefeitura que não foram cumpridos. Sem caixa, não dá para pagar funcionários, não dá para dar confiança aos empreiteiros”, disparou Petraglia à Rádio do Atlético-PR na semana passada.

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Image caption Problemas com financiamento da Arena da Baixada geraram atraso, diz secretário

"Agora falam que não querem colocar dinheiro”, questionou.

Do outro lado, a secretaria municipal da Copa de Curitiba critica o Atlético-PR pelas constantes alterações no orçamento da obra e pela falta de gestão na reforma da arena.

"É a maneira dele de transferir a responsabilidade pelo atraso. O poder público não tem qualquer responsabilidade sobre a execução da obra. A gestão da obra é dele, mas ele mesmo garantiu lá atrás que qualquer ampliação no orçamento inicial ele bancaria e não esta cumprindo”, disse o secretário Reginaldo Cordeiro à BBC Brasil.

"O orçamento inicial era de 184 milhões. Hoje nem ele sabe quanto vai custar a obra. Não temos como ampliar investimento, não posso assinar um cheque em branco e dar para financiar um estádio privado que nem o próprio Atlético sabe quanto vai ficar.”

Para finalizar a reforma a tempo, o Atlético-PR precisará de mais dinheiro para bancar o aumento do efetivo na obra. O governo estadual e a prefeitura mantêm o discurso de que só liberarão mais verba mediante a apresentação de garantias de pagamento pelo clube. O Atlético, porém, deixa claro que não irá arcar com esse custo sozinho.

"Eu não vou pagar essa conta sozinho. Claro que cometemos erros, falhas, vamos assumir as partes, cada um em sua proporção”, avisou Petraglia. "Demos receitas de TV provisoriamente até que governo e prefeitura apresentem soluções para garantias. Como têm dificuldades burocráticas, demos esse voto de confiança.”

Uma das formas de financiar a reforma seria vender os "naming rights" da Arena. Na última segunda-feira, o Atlético-PR recebeu uma proposta do site de relacionamentos extraconjugais AshleyMadison oferecendo R$ 4 milhões para "batizar" o estádio. O clube, porém, ainda não se manifestou sobre o negócio. O impasse entre governos e Atlético-PR sobre o financiamento da arena precisará ser resolvido até 18 de fevereiro, quando a Fifa definirá se Curitiba se manterá ou não na Copa do Mundo de 2014.

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