Em longo dia de homenagens, Santa Maria 'encerra primeiro ciclo' de luto

  • 28 janeiro 2014
Vigília em Santa Maria. Foto: Júlia Carneiro/BBC Brasil Image copyright BBC BRASIL
Image caption Familiares passaram a noite em frente à antiga boate Kiss

O primeiro aniversário do trágico incêndio da boate Kiss foi passado quase sem dormir por muitas famílias e amigos de vítimas em Santa Maria, que homenagearam os mortos desde o início da madrugada até o anoitecer da segunda-feira, com vigílias, caminhadas e orações.

A programação foi encerrada por uma comovente cerimônia na praça central de Santa Maria, onde cerca de duas mil pessoas se reuniram e escutaram em silêncio – ora irrompendo em palmas, ora em lágrimas – a leitura dos 242 nomes das pessoas que morreram um ano atrás, intercalados por batidas de tambor.

"Hoje foi o fechamento de um ciclo para essas pessoas", diz a psicóloga socorrista Melissa Couto, coordenadora de voluntariado da Cruz Vermelha.

"Elas passaram 365 dias vivendo pela primeira vez todas as datas comemorativas com essa ausência. Os primeiros aniversários, os primeiros dias das mães e dos pais, a primeira Páscoa, o primeiro Natal... Agora esse ciclo se fecha e elas sabem que esta é a realidade."

Dor, comoção e revolta marcaram os eventos ao longo do dia. De manhã, familiares clamaram por justiça em uma marcha até o Ministério Público.

De tarde, na "mateada" (uma roda de chimarrão) com música ao vivo organizada na Praça Saldanha Marinho, no centro, o clima era fraterno.

Erva-mate e água quente estavam disponíveis em uma banca para quem participava da vigília. O evento "Abrace Santa Maria", convocado pelas redes sociais, havia contado com cinco mil adesões – e logo grupos de jovens começaram a aparecer, com cartazes oferecendo abraços gratuitos, distribuídos fartamente.

Ao longo do dia, muitas famílias visitaram os túmulos de seus entes queridos. Rosas brancas foram distribuídas nas ruas de Santa Maria. Laços brancos, flores e balões estavam na entrada de muitas lojas.

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Image caption Evento 'Abrace Santa Maria' mobilizou a cidade em torno dos familiares das vítimas

A família de Marta Beuren resolveu inovar. Pregou 242 borboletinhas de papel na vitrine de sua joalheria, dispostas como em revoada em torno da palavra "justiça".

Marta perdeu um dos filhos na tragédia. O mesmo ocorreu com uma funcionária da loja, que tinha apenas o filho único. Duas rosas brancas homenageavam os dois.

"As borboletas são o símbolo de que todos eles se transformaram", diz ela, usando uma camiseta com o rosto do filho e dois colares com pingentes de coração que não tira jamais do peito, um com a foto do filho e outro com a inscrição "Silvinho, amor imortal".

Na Praça Saldanha Marinho, no centro, era difícil encontrar alguém vestindo uma camiseta neutra. A maioria trazia fotos das vítimas – ao lado frases como "um ano de saudades", "a cada desafio, uma vitória", "inconformados" ou "queremos justiça".

Incomodados

A cobrança para que todos os responsáveis por falhas que levaram ao incêndio sejam punidos deu o tom de muitos eventos ao longo do fim de semana.

"A elaboração do luto das pessoas é muito difícil quando ninguém está pagando pelo que aconteceu", diz Audelima Paim Lavarda, psicóloga socorrista da Cruz Vermelha.

Ela diz que há pessoas na cidade cobrando que as famílias sigam em frente – e que se incomodam, por exemplo, com a permanência da tenda de vigília na praça, com fotos de todas as vítimas em seu interior.

"Não é que elas queiram que a coisa seja esquecida, mas querem se distanciar do sofrimento. Elas se deparam com a tenda da vigília e ficam tristes, e não querem ter esse sentimento na cidade para sempre", diz.

"O que essas pessoas não entendem, porém, é que esse foi um fato histórico que marcou para sempre Santa Maria", diz Audelima.

A psicóloga era uma de cerca de 25 integrantes da equipe de socorro e apoio psicossocial da Cruz Vermelha, que acompanhou os eventos desde a madrugada de segunda e teve que atender cerca de 50 pessoas ao longo da noite.

Na madrugada, a vigília em frente à boate Kiss foi marcada por momentos de forte emoção, sobretudo quando os presentes começaram a acender as velas que formavam um enorme coração, contando em voz alta até 242. Gritos de "justiça!" encerraram a contagem.

No asfalto em frente à boate, as silhuetas de 242 corpos estirados no chão haviam sido pintados, dando a dimensão física do número de vítimas da tragédia.

Coordenadora do grupo da Cruz Vermelha, Melissa Couto conta que cerca de 25 pessoas precisaram de atendimento até por volta das 4h, e depois disso a expectativa era que o movimento seria menor.

Ao término do evento, porém, o número de atendimentos duplicou. Ela acredita que, no amanhecer do dia, muitos pais reviveram os momentos em que souberam da tragédia.

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Image caption Melissa Couto (centro) e equipe da Cruz Vermelha ajudaram pessoas que passaram mal

"No ano passado, muitos não viveram a madrugada. Eles foram acordados no raiar do dia com um telefonema e saíram à procura de seus filhos. Neste ano, o amanhecer foi o momento de ressignificar a dor do ano passado", diz.

'Era uma cidade alegre'

A fachada da boate Kiss também recebeu visitas ao longo do dia. Alguns levavam flores, outros tiravam fotos no celular.

Clélia Grotto Rossato, de 90 anos, mora a duas quadras da boate e passou um tempo olhando os cartazes com fotos sorridentes dos jovens que morreram. Saiu aos prantos.

Ela não conhecia nenhuma das vítimas, mas lembra com nitidez o cheiro de fumaça e as sirenes das ambulâncias que passavam em frente à sua casa com as vítimas. Clélia diz nunca ter visto algo tão triste em toda a sua vida.

"Temos que rezar todos os dias para algo assim nunca aconteça de novo", diz ela, cujos netos costumavam frequentar a Kiss.

Sua filha, Miriam Viana, diz que Santa Maria mudou.

"Era uma cidade alegre. A mesma não é. Pode ser que um dia volte a ser. Mas essa rua aqui lembra muita coisa."

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