Para jornalistas no Egito, os riscos vêm de todas as partes

Protesto de jornalistas no Cairo | Foto: AP Direito de imagem AP
Image caption Jornalistas e fotógrafos, principalmente estrangeiros, reclamam de repressão do governo

Já se passavam algumas horas da nossa conversa na emblemática praça Tahrir, no centro do Cairo, quando um dos mais importantes líderes do movimento de jovens revolucionários me liga, já à noite. "Onde você está? Está tudo bem?".

A preocupação pareceria mais lógica tivesse sido eu o autor dessas perguntas – afinal, é ele o ativista político. Mas não no Egito atual, onde jornalistas são detidos sem acusações e a hostilidade é endêmica nas ruas.

Sobram casos de repórteres vítimas da forte repressão do governo. O de maior repercussão envolve profissionais da Al-Jazeera, emissora sediada no Catar, que tem sido alvo principal das autoridades. Vinte jornalistas do canal serão julgados em acusações que envolvem participação ou auxílio a organização terrorista e ameaça à segurança nacional, em decisão anunciada na quarta-feira.

Os nomes dos repórteres não foram revelados, mas eles incluem três profissionais do canal em inglês da emissora: o chefe do escritório no Cairo Mohammed Fahmy, de cidadania egípcia-canadense, o premiado correspondente australiano Peter Greste e o produtor egípcio Baher Mohamed.

Os três foram detidos no dia 29 de dezembro em uma operação no hotel em que trabalhavam no Cairo. Outros dois jornalistas dos canais em árabe da Al-Jazeera estão presos desde agosto.

A emissora do Catar é vista por autoridades como favorável à Irmandade Muçulmana, do presidente deposto Mohammed Morsi, e as acusações se baseiam na controversa classificação do grupo como organização terrorista, anunciada pelo governo no ano passado. A Al-Jazeera nega as acusações e exige a libertação de seus profissionais.

Fahmy, conhecido jornalista no Cairo com passagens pelo jornal New York Times e pela CNN, é mantido em uma prisão de segurança máxima e, segundo familiares, tem sido negado tratamento a uma contusão no ombro anterior à detenção. Parentes relataram que o único cobertor usado por ele foi confiscado, mesmo diante das baixas temperaturas do inverno egípcio.

Câmera vista como arma

Os jornalistas da Al-Jazeera são acusados ainda de operar um "centro de mídia" para "coletar imagens e manipulá-las" e criar "cenas irreais para o mundo de que há uma guerra civil que ameaça derrubar o Estado", segundo comunicado da procuradoria.

As acusações são também por "transmitir informações falsas... enfraquecer o Estado, prejudicar o interesse nacional do país e perturbar a segurança nacional", além de possuir equipamentos sem autorização do governo.

Há meses, partidários do governo acusam a imprensa estrangeira de parcialidade na cobertura de violações de direitos humanos pelas forças de segurança, e veem jornalistas de fora como simpatizantes da Irmandade. Mas, agora, a repressão chegou a um nível preocupante.

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Image caption Al-Jazeera funcionários presos desde agosto de 2013

"Esta tentativa de criminalizar o trabalho jornalístico legítimo é o que distorce a imagem do Egito no exterior. A falta de tolerância do governo mostra que ele é incapaz de lidar com críticas", disse Sherif Mansour, do Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ), em comunicado.

Peter Greste, jornalista que tem mais de 20 anos de experiência, inclusive na BBC, escreveu em carta recente de dentro da prisão que sua detenção é um "ataque à liberdade de expressão".

Mas o ataque não vem só das autoridades. O clima tenso contra jornalistas tomou as ruas e é reforçado em debates acalorados na imprensa egípcia, alinhada aos militares.

Portar uma câmera é extremamente perigoso por aqui. Um fotógrafo estrangeiro foi detido duas vezes nos últimos cinco dias "sem causa aparente", disse um colega. Outra foi levada à delegacia para ter suas imagens checadas e um terceiro viu-se cercado por uma multidão enfurecida que tentava destruir seu equipamento.

Jornalistas de uma TV alemã foram hospitalizados na semana passada após um ataque violento de populares – para citar apenas alguns casos, que atingem também profissionais egípcios.

Na simbólica praça Tahrir, um grupo cercou dois jornalistas que registravam o aniversário da revolução de 2011 no sábado, acusando-os de serem da Al-Jazeera. Eles foram resgatados pela polícia e soltos apenas quando a multidão se dispersou.

'Credencial, por favor'

Credenciais e permissões são algo comum nesta parte do mundo para praticamente qualquer coisa. Durante uma viagem de trabalho ao Sudão, no ano passado, me surpreendeu que, teoricamente, até mesmo turistas devem portar autorização para tirar fotografias nas ruas.

No Egito, não é muito diferente. O governo tem agido com lentidão na emissão de novas credenciais, segundo diversos jornalistas, o que serve de pretexto para mais detenções – a falta de permissões é uma das acusações que pesam contra os jornalistas da Al-Jazeera.

A hostilidade já criou uma nova rotina entre jornalistas. Um jornal local que emprega estrangeiros evita enviar repórteres às ruas após diversas detenções e ataques por populares. "Estamos sendo muito mais cautelosos em mandar estrangeiros", disse um fotógrafo.

No sábado, incidentes com jornalistas pareciam concorrer até mesmo com aqueles registrados entre os manifestantes. Muitos repórteres alertavam sobre a animosidade nas ruas, e outros simplesmente deixaram de cobrir os protestos. Ao menos 14 jornalistas foram detidos e diversos outros atacados e feridos nas manifestações, segundo o CPJ.

No fim do dia, as ligações terminam com uma frase que se tornou comum nas despedidas por aqui: "tome cuidado".

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