Recife desiste de pagar festa da Copa; cidades não querem ter custos

  • 14 fevereiro 2014
Fan fest em Fortaleza, na Copa das Confederações, em 2013 (Getty) Image copyright Getty
Image caption Cidades hesitam em arcar com custos do Fan Fest

A quatro meses da Copa do Mundo, uma nova polêmica promete balançar as relações entre a Fifa e as cidades-sede. A Prefeitura de Recife foi a primeira das 12 cidades a confirmar oficialmente que não vai pagar pelos custos da Fan Fest, evento aberto ao público durante a Copa previsto para locais centrais e cujas despesas de organização correm por conta dos municípios, com ajuda parcial da Fifa.

Em entrevista coletiva nesta sexta-feira, o prefeito de Recife, Geraldo Julio (PSB), e o secretário de Esportes e Copa do Mundo, George Braga, disseram que não há recursos para a organização do evento, que conta com shows e transmissão de jogos. Orçada inicialmente em R$ 20 milhões, a festa já tinha tido custo reduzido para R$ 11 milhões.

A decisão ocorre após a administração da capital pernambucana saber que em São Paulo e no Rio havia negociações para que empresas privadas arcassem com os custos.

"É uma decisão serena, tomada após um longo processo de reflexão e negociações. A imprensa nacional divulgou que a iniciativa privada bancaria o evento em outras cidades, como o Rio de Janeiro e São Paulo, e queremos tratamento igual. Não é uma questão de usar a verba em outras prioridades. É que não temos a verba", disse Braga.

O secretário explica que foi apresentado um projeto para os patrocinadores oficiais da Fan Fest (Coca-Cola, Sony, Budweiser, Johnson & Johnson, Itaú, Oi, Hiundai e Kia Motors) oferecendo mais espaço publicitário em troca de aportes que cobrissem todos os custos.

"Apresentamos um plano de direitos adicionais para os patrocinadores do evento, para captar mais recursos privados, mas nenhum deu retorno", afirmou.

Em entrevista à BBC Brasil, a Secretaria de Esportes e Copa de Recife deixou claro que neste momento não pretende lançar editais públicos abrindo concorrência para patrocinadores interessados e que, se não houver financiamento privado, tem um plano B.

"Vamos negociar com a Fifa o direito de transmissão dos jogos para exibir as partidas em telões distribuídos pela festa de São João da cidade, que reúne milhares de pessoas. Já há uma estrutura, é uma festividade tradicional, que acontecerá ao mesmo tempo que a Copa. Dessa forma a população poderia assistir aos jogos", diz o governo.

Em 2013, o público total da festa, que aconteceu de 6 a 29 de junho, foi de 1,5 milhão de pessoas. Houve 11 arraiais oficiais e outros 47 apoiados pela Prefeitura.

A prefeitura diz que não é contrária à realização do evento e que se responsabiliza por segurança, apoio logístico e controle de tráfego, mas não pode arcar com as outras despesas.

Surpresa

Procurada pela reportagem, a Fifa se pronunciou, mas não comentou a questão dos direitos de transmissão.

Em nota, a entidade se disse "surpresa" com a notícia da decisão do Recife. "Acreditamos ser uma pena que a população local perca a oportunidade de participar da experiência da Copa do Mundo como um todo, especialmente aqueles que não possuem ingressos para um jogo. O Fifa Fan Fest proporcionou uma atmosfera vibrante para os milhões de torcedores locais se juntarem aos visitantes internacionais durante a Copa do Mundo de 2006 na Alemanha e na África do Sul em 2010."

Ainda no comunicado, a entidade diz que vem trabalhando para reduzir os custos da organização dos eventos "ao mínimo" e que oferece "apoio financeiro significativo" - sem precisar valores - "incluindo telão de alta definição, palco, sonorização e iluminação, bem como a promoção das sedes para o público internacional da Copa. A Fifa oferece o mesmo apoio a todas as sedes, sendo as únicas diferenças o investimento por parte das sedes com base no tamanho de seus eventos".

Também não está claro que tipo de contrato a entidade assinou com as prefeituras das 12 cidades-sede, já que aparentemente a realização das Fan Fests não era obrigatória.

São Paulo e Rio

Em entrevista à BBC Brasil, a RioEventos, órgão da prefeitura criado para organizar a Copa das Confederações, Jornada Mundial da Juventude e a Copa do Mundo, disse que a cidade segue negociando com a Fifa e que até o momento não há confirmação sobre os planos da Fan Fest na cidade, que deve ocorrer na praia de Copacabana.

"São rumores. Não há nada decidido, e não há estimativas. Esperamos que seja o quanto antes", disse o órgão, sem precisar um orçamento estimado. "Primeiro precisamos decidir com a Fifa se vai haver a Fan Fest. Havendo o evento, precisamos definir o tamanho, a escala. E só aí é possível ter uma ideia de custos".

Já a Prefeitura de São Paulo definiu que não vai gastar dinheiro público com o evento. O governo paulistano espera não apenas levantar recursos privados para a Fan Fest, mas também para outros cinco palcos espalhados pela cidade.

A festa principal será no Vale do Anhangabaú, no Centro. As demais serão realizadas na Praça do Samba (Perus), Parque da Juventude (Santana), Parque do Povo (Itaim), Praça Benedicto Rodrigues (Ermelino Matarazzo) e Praça João Tadeu Priollli (Campo Limpo). Em todos os locais haverá telão para transmissão dos jogos e palco para shows.

As atrações no Vale do Anhangabaú serão definidas pela Rede Globo, a emissora oficial do evento. As apresentações dos outros palcos vão ser escolhidas pela Secretaria de Cultura, que quer privilegiar artistas das cinco regiões.

Duas empresas apresentaram propostas, atendendo convocação pública no Diário Oficial da cidade, em janeiro. A vencedora será anunciada na semana que vem.

Segundo a prefeitura, a empresa organizadora poderá vender espaço publicitário nos locais dos eventos, recursos que servirão para financiar a estrutura do local, desde que se enquadrem nas regras da Fifa.

Apesar de os eventos serem gratuitos, haverá grades delimitando o espaço, permitindo um controle da entrada e saída e evitando assim que ambulantes vendam outras marcas. A lotação dos espaços vai variar de cinco mil a 50 mil.

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