Venezuela: governo não vê legitimidade em protestos e acusa golpe

  • 18 fevereiro 2014
manifestantes em Caracas | AP Image copyright AP
Image caption Manifestantes tomam as ruas de Caracas desde a semana passada; eles pedem a renúncia de Maduro

Diante da onda de protestos que já dura seis dias em Caracas, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, tem apostado em convencer a população de que não há uma demanda legítima do movimento estudantil nas ruas e sim uma manipulação da ala radical da oposição para promover um golpe de Estado.

A mobilização estudantil é vista como um dos principais desafios já enfrentados pelo chavismo ao longo de seus 15 anos no poder. Desde que começaram os protestos em Caracas, Maduro tem focado suas mensagens em mostrar atos de violência e depredação de instituições públicas - ações que têm marcado o final de todos os protestos do movimento estudantil opositor.

Essa postura, no entanto, não tem contribuído para desmobilizar a juventude de classe média e alta que decidiu ir às ruas exigir uma mudança de governo. A morte de três venezuelanos - dois opositores e um chavista - na última quarta-feira e a detenção de mais de 100 estudantes em todo o país é vista como combustível para manter os adversários do governo nas ruas.

No entanto, nada pode ser tão explosivo como a iminente prisão do dirigente opositor Leopoldo López, acusado pelo governo de ser o responsável pela onda de violência no país.

López tem chamado a juventude a paralisar o país e promover "a saída", plano que tem como fim provocar a renúncia de Maduro.

Na manifestação prevista para esta terça-feira, López - que não é visto em público desde a quarta-feira da semana passada - desafiou as autoridades a prendê-lo.

Ele deve liderar a manifestação até o Ministério de Interior e Justiça, onde deverá se entregar às autoridades.

Na segunda-feira, o serviço de inteligência invadiu duas vezes a sede do partido de López, Voluntad Popular. A ação dos agentes foi anunciada no Twitter, o que levou dezenas de pessoas a um novo enfrentamento com as forças de segurança do Estado.

Bombas de gás lacrimogêneo foram lançadas para conter os manifestantes que impediam a saída dos policiais.

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Image caption Estudantes pedem mais segurança nas universidades

O protesto opositor no centro da cidade coincidirá com uma marcha de trabalhadores petroleiros pró-governo e as autoridades estão preocupadas com um eventual cofronto entre os dois grupos.

Disputa interna

Para o analista político Nicmer Evans, o governo caiu numa espécie de "armadilha da oposição", que pretende resolver com mobilizações nas ruas a disputa interna entre suas principais lideranças.

De um lado está López, representante da ala mais radical e, de outro, o governador Henrique Capriles, atual líder da coalizão opositora e representante dos anti-chavistas moderados.

"A detenção de Leopoldo o transformará em um herói e pode convertê-lo no novo líder da oposição", afirmou Evans.

Outro erro que analistas apontam na condução dos protestos foi não desvincular os estudantes das ambições de Leopoldo López, estratégia que tende a criminalizar o protesto e insuflar ainda mais as mobilizações.

"Quanto mais nos atacam e criminalizam o protesto, mais venezuelanos estarão de nosso lado. Queremos que deixem de acusar-nos de conspiradores", afirmou à BBC Brasil Gabriela Arellano, dirigente estudantil, durante um protesto no fim de semana.

Gabriela afirma que não haverá negociação com o governo enquanto os estudantes detidos não forem liberados. Questionada sobre o objetivo final das manifestações, a dirigente estudantil defende que o atual governo deve deixar o Palacio Miraflores.

"Queremos uma mudança de quem está no governo. Este governo é ilegítimo porque não cumpre com a Constituição", afirmou.

Além de serem apontados como "massa de manobra" de um plano golpista, o governo acusa o movimento estudantil de receber recursos de Washington para suas atividades.

Na segunda-feira, Maduro expulsou três funcionários do consulado americano em Caracas, acusados de financiar e orientar os estudantes opositores para promover ações contra o governo. Os Estados Unidos negaram as acusações, qualificando-as de "infundadas".

Diálogo

Na avaliação do analista político John Magdaleno, Maduro deveria estabelecer novas pontes de diálogo com os estudantes para atender de imediato as demandas iniciais que levaram os jovens às ruas: a insegurança nas universidades.

O ministro de Interior e Justiça convocou os estudantes para negociar, mas o convite foi rejeitado. A condição dos jovens para o diálogo é a soltura de todos os estudantes presos em protestos.

"Maduro está se esquivando dos pedidos da oposição e com isso afasta a responsabilidade do Estado sobre as mortes que ocorreram", afirmou Magdaleno à BBC Brasil.

No domingo, Maduro teve que romper o silêncio sobre as circunstâncias que anteciparam as mortes de três venezuelanos durante a manifestação em Caracas ao admitir que o Serviço de Inteligência, Sebin, descumpriu as ordens de manter seus agentes aquartelados durante a manifestação. Somente a Polícia Nacional Bolivariana tinha autorização para controlar os manifestantes.

No entanto, um vídeo exibido pelo site do jornal Ultimas Noticias revela que agentes do Sebin dispararam contra os estudantes. O uso de armas letais para conter manifestações está proibido pela Constituição venezuelana.

"Havia um grupo de funcionários que não cumpriu as ordens (...) eu mandei aquartelar o Sebin na madrugada", afirmou Maduro ao acrescentar que as investigações sobre a morte dos manifestantes "estão avançadas".

Golpe?

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Image caption López deve liderar protesto nesta terça e depois se entregar às autoridades

Apesar das ameaças nas ruas, políticos e analistas concordam que não há possibilidades de que o governo Maduro seja derrocado pela força.

Aparentemente as Forças Armadas estão unidas em torno do projeto chavista e não há mobilização das classes populares contra o governo.

"É preciso entender que se o povo humilde não sai (às ruas), não há maneira de promover mudanças", admitiu Capriles, em entrevista à CNN na segunda-feira.

Sérgio Sánchez, ex-líder estudantil nos anos 90, concorda. Apesar da crise econômica afetar a toda a população o discurso da juventude que está nas ruas e difunde pelo Twitter mensagens como "fecha tua rua e paralisa o país" não seduz os setores populares, que são a base de sustentação do chavismo.

"Nenhum pobre se sentirá representado por um sifrino (Mauricinho), com óculos escuros caros, falando que estão passando fome. Isso não cola", afirmou Sanchez à BBC Brasil.

Para Sánchez, o governo tende a sair fortalecido da crise. "O povo venezuelano rejeita a violência, principalmente porque não considera que essas ações são legítimas e isso tende a fortalecer o governo", afirmou.

Para o ex-dirigente estudantil, as mobilizações tendem a perder força paulatinamente, mas suas causas permanecerão latentes.

Ainda segundo ele, o movimento estudantil está se mobilizando em defesa de uma sociedade anglosaxã e centrada no consumismo.

"Eles sentem que a Revolução Bolivariana destrói esse modelo de sociedade e não se veem realizados nela", afirmou.

Um cartaz levado pelo grupo de ultra-direita Javu ao protesto em Altamira, bastião opositor, manifesta esse abismo entre os dois projetos da polarizada sociedade venezuelana: "A Venezuela precisa de você, mate um chavista".

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