Lucas Mendes: A banda mole americana

Se você acha que a velocidade da internet no Brasil é lenta e tem inveja da banda larga americana, não cometa este pecado. Perto da sueca, da sul-coreana, da japonesa, da norueguesa, da de países de Europa e Ásia e de dezenas de cidades, as bandas americanas são 100 vezes mais lentas e 17 vezes mais caras.

Quem nos conta é Susan P. Crawford, afinadíssima violinista e afiadíssima professora de direito das Universidades de Harvard e Yeshiva Benjamin Cardozo, aqui na frente da minha casa. Só conheço a professora de textos, rádio e de YouTube, onde confirmei uma das informações dela.

Às vezes, clico no YouTube e a bolinha roda, roda, roda..., um tempão antes de pintar o vídeo. Susan disse numa entrevista que a culpa não é do meu computador, nem do YouTube, mas de minha operadora de banda larga, que, de propósito, tira a velocidade do YouTube, Netflix e outros fornecedores de conteúdos volumosos. Uma aviso de como são capazes de controlar e obstruir o tráfego nas linhas deles.

Resumo do drama. Por um regulamento do começo da década, a FCC, Federal Communications Comission, agência que controla as telecomunicações nos Estados Unidos, todos os provedores de conteúdo online seriam tratados da mesma forma pelas operadoras de banda larga - são quatro gigantes que dominam o mercado americano: AT&T, Verizon, Time Warner e Comcast.

Verizon foi para a justiça com o argumento de que o regulamento tinha contradições e que ela não deveria ser tratada como uma companhia telefônica, obrigada a tratar todos clientes da mesma forma. Para Verizon, provedores que usam muito mais tempo e espaço, como Netflix e YouTube, deveriam pagar mais.

Os juízes concordaram com a Verizon e escancararam a caixa de Pandora. A FCC disse que, em princípio, não vai recorrer da decisão. Por enquanto, não aconteceu nada, mas vai acontecer.

Voltemos à professora violinista, que além de brilhante currículo acadêmico, trabalhou na Casa Branca de Barack Obama como assistente especial para Ciências, Tecnologia e Inovação Política. Em 2009, lançou o livro Captive Audience, relançado e atualizado em 2013 uma das críticas mais claras e contundentes aos monopólios da indústria americana de telecomunicações.

Susan Crawford compara as estradas virtuais às estradas nacionais, às redes ferroviária, rodoviária e telefônica, todas de utilidade nacional e criadas com incentivos do governo porque exigiam fortunas para serem implantadas, como a rede da internet.

Ela reconhece que as pioneiras da internet investiram bilhões, mas já ganharam trilhões. Como ninguém tem dinheiro para desafiá-las, não há nenhum incentivo para oferecer, por exemplo, o que oferecem as bandas europeias e asiáticas. Crawford: "Para que oferecer mais se os clientes não têm alternativas?".

Para ela, o problema maior não é o nosso, dos consumidores que pagam mais por menos qualidade. O problema é do país. O monopólio sufoca a inovação. Há dez anos, os Estados Unidos lideravam a revolução da internet em velocidade e preços baixos. Hoje, graças aos monopólios, os americanos correm atrás e não estão com pressa.

Os políticos de Washington estão comprometidos com as gigantes, que só no ano passado derramaram US$ 18 milhões no Congresso. Se um congressista decidir incentivar a FCC a conter os monopólios, na próxima eleição, o dinheiro deles irá sustentar a campanha do adversário. Esta visão cínica não se aplica a todos os políticos, mas a uma maioria suficiente para manter e reforçar a situação atual.

Quando o livro de Crawford foi publicado, uma das gigantes, Comcast, ainda não tinha anunciado o plano de comprar outra gigante, a Time Warner, por US$ 45 bilhões. Isto aconteceu nesta semana.

Crawford usa uma metáfora simples para explicar o perigo: "Imagine uma ponte, como a George Washington. São quatro pistas em direção a Nova Jersey, mas alguém decide fechar o acesso a três delas".

Ela não sabe se a compra da Time Warner pela Comcast vai passar pelo crivo da FCC. Neste momento, parece provável, mas Crawford alerta: "Conexões em alta velocidade pela internet são como a infraestrutura de um país, como pontes, estradas, água e eletricidade". Por que os interesses americanos devem se submeter aos interesses da Comcast?

Se os monopólios ganharem a parada, a Comcast poderá impor seus preços em 19 dos 20 maiores centros metropolitanos dos Estados Unidos. Alta velocidade vai custar mais caro, quanto, ninguém sabe, mas há uma opção. Cidades como Chattanooga, no Tennessee, Austin, no Texas, e outras, já instalaram redes de fibra ótica a custo baixo. Atraíram novas empresas. San Francisco, Nova York e Los Angeles discutem as opções.

Há pouco mais de um século, o presidente Ted Roosevelt desmontou monopólios tão ou mais poderosos, entre eles, o do petróleo.

Neste momento, o cenário favorece os defensores das bandas moles, mas eu não apostaria minhas fichas nos gigantes. O mundo digital foi inventado e esta povoado por anões.