Venezuela: "Fim da crise exige reformas e diálogo"

Manifestante em Caracas Direito de imagem Reuters
Image caption Desabastecimento, inflação alta e insegurança alimentaram os protestos dos últimos dias na Venezuela

Apesar da expansiva onda de protestos e da escalada da violência na Venezuela, há quase unanimidade entre analistas de que não há risco iminente de que o governo de Nicolás Maduro seja derrubado, como pretende o dirigente opositor Leopoldo López, que convocou a juventude às ruas numa tentativa de levar o presidente à renúncia.

Mas como sair da crise que já dura mais de uma semana e que preocupa a sociedade venezuelana e os vizinhos da região?

Analistas consultados pela BBC Brasil apontam possíveis caminhos para solucionar o impasse na polarizada sociedade venezuelana, que passa por uma crise econômica e de segurança pública.

Reformas econômicas urgentes

"Há que tirar a água do peixe". Apesar de não sofrerem diretamente com a crise econômica, os jovens de classe média e classe média-alta que tomaram as ruas há mais de uma semana utilizam como uma de suas principais bandeiras de protesto a escassez de alimentos e a inflação.

De acordo com a empresa de pesquisa de opinião Hinterlaces, 3 de cada 4 venezuelanos se preocupam mais com a situação econômica do que com a disputa política. "Há um respaldo majoritário ao modelo social, isso a maioria não discute, mas o que as pessoas querem é que esse modelo funcione", afirmou o analista político Oscar Schemel, diretor da Hinterlaces.

As manifestações têm intensificado a escassez que fechou janeiro com um índice de 28%, o mais alto registrado nos últimos cinco anos, de acordo com o Banco Central da Venezuela.

Na rebelião popular conhecida como Caracazo, em 1989, quando a população pobre desceu os morros para saquear supermercados, havia fome generalizada, recordam analistas.

Dessa vez os venezuelanos têm dinheiro, mas nem sempre encontram o que querem comprar. "Aqui não falta dinheiro, faltam produtos", afirma Schemel. A inflação de 56% registrada no ano passado afetou o bolso dos venezuelanos e interrompeu o processo de ascensão social registrada nos últimos anos.

Ainda de acordo com a Hinterlaces, mais de 90% dos venezuelanos se preocupam mais com um matrimônio bem sucedido do governo com o setor privado, do que com uma reconciliação com seus opositores políticos.

Alta criminalidade

Outro aspecto de descontentamento que tem insuflado as mobilizações dos universitários é o alto índice de criminalidade.

Um relatório de 2012 do escritório antidrogas da ONU aponta que a Venezuela é o quinto país com a maior taxa de homicídios, com números ainda maiores que os brasileiras - 45 assassinatos para cada 100 mil habitantes. No Brasil, ainda de acordo com as Nações Unidas, o indíce é de 21 assassinatos para cada 100 mil habitantes.

Em meio aos protestos, Maduro lançou um plano de Pacificação Nacional, que prevê inclusive a criação de um Alto Comissionado para a Paz, organismo que existe, por exemplo, na Colômbia, que enfrenta uma Guerra civil há mais de seis décadas.

Essa medida, ainda que opacada pelo incremento da violência nas ruas, é vista por analistas como uma resposta do governo às demandas.

Reforçar a mensagem e ações que amenizem a sensação de insegurança da população são outros elementos que podem interferir na pauta dos protestos nas ruas e evitar novas rebeliões no futuro, de acordo com os especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

Diálogo com estudantes

Direito de imagem Reuters
Image caption Estudantes bloquearam ruas de Caracas na quinta-feira, em noite de novos protestos

Ainda que o objetivo da mobilização estudantil tenha uma finalidade política, o analista político John Magdaleno, da consultoria Polity, considera que o presidente venezuelano deve tratá-los como estudantes e não como políticos.

"Desvinculá-los da direção política da oposição e ouvir suas demandas pode contribuir para desinflar os protestos", afirmou.

Há dois dias, Maduro convocou os dirigentes dos protestos estudantis para um diálogo em Miraflores. Os jovens condicionam o diálogo à libertação de todos os estudantes detidos durante os protestos violentos.

"Numa situação na qual já há incomodo da população devido às dificuldades criadas pelos protestos, se os estudantes se negam ao diálogo, se expõem a sofrer um desgaste com a população que pretendem convencer", afirmou Oscar Schemel, da consultoria Hinterlaces.

Diálogo nacional com a oposição

"O diálogo não pode ser uma saudação à bandeira. Temos que ter claro quais são os problemas que vamos resolver", respondeu o líder da oposição Henrique Capriles ao chamado de diálogo nacional feito por Maduro.

"É fundamental que o governo chegue a um acordo com a ala moderada da oposição para fragilizar a postura radical do dirigente opositor Leopoldo López", segundo o analista político Gregory Wilpert.

Para Oscar Schemel, da Hinterlaces, o governo precisa baixar o esquema da confrontação com seus adversários para dar tranquilidade à população.

"É preciso reestabelecer a esperança", afirma.

Libertação de Leopoldo López

A prisão de Leopoldo López – acusado de formação de quadrilha, incitação à violência, conspiração e danos à propriedade pública - é vista como uma batata quente nas mãos do governo.

Se for condenado, López pode ser condenado a até dez anos de prisão. Se convertê-lo em herói e mártir, Maduro contribuiria para que seu rival vire um ponto de unidade da oposição que não existiria, ao menos nos próximos 18 meses, data da próxima eleição.

Se López for absolvido, Maduro terá de enfrentar o descontentamento da ala dura do chavismo, que ainda não digeriu a morte de nove militantes, em abril do ano passado, quando foi a vez de Capriles convocar uma rebelião nas ruas para contestar o resultado das eleições presidenciais.