Presidente interino da Ucrânia alerta para 'séria ameaça de separatismo'

  • 25 fevereiro 2014
Protesto pró-Rússia na Crimeia, na Ucrânia Direito de imagem AFP
Image caption Em áreas ao leste do país, que apoiam a Rússia, cidadãos resistem em aceitar o novo governo em Kiev

Em discurso diante do Parlamento, o presidente interino da Ucrânia, Olexander Turchynov, avisou que existe uma "séria ameaça" de separatismo no país.

Seu comentário foi feito em meio à contínua resistência de regiões ucranianas onde vivem grupos étnicos russos em aceitar o novo governo em Kiev. Na península da Crimeia e em outras áreas pró-Rússia, protestos vem sendo realizados contra a deposição do ex-presidente Viktor Yanukovych.

A resistência nestas regiões do país se sustenta na forte oposição do governo russo às mudanças ocorridas na Ucrânia. O primeiro-ministro da Rússia, Dmitry Medvedev, disse na última segunda-feira que os membros da nova administração federal conduziram uma "revolta armada" na Ucrânia.

Já o ministro de Relações Exteriores russo, Serguei Lavrov, desaconselhou que outros países busquem "vantagens unilaterais" na Ucrânia e afirmou que a "política de não-intervenção" da Rússia seria mantida.

Turchynov afirmou que se encontrará com oficiais da polícia para discutir os protestos e o risco da divisão do país em dois. Ao mesmo tempo, adiou a formação de um governo de união nacional para a próxima quinta-feira para que seja possível fazer novas consultas sobre o assunto.

Braço-direito

A declaração de Turchynov ocorre dois dias após ele ser nomeado presidente interino pelo Parlamento. Turchynov teve um papel importante, apesar de discreto, nos protestos contra Yanukovych. Em fevereiro, promotores anunciaram que ele estava sendo investigado por ajudar na organização de "forças de defesa" dos manifestantes.

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Image caption Turchynov teve papel proeminente nos protestos

Assim como todos os políticos das principais forças de oposição, Turchynov não inspira total confiança e respeito dos manifestantes que se reúnem na Praça da Independência, ponto nevrálgico dos protestos em Kiev.

Turchynov é considerado o braço-direito da ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko. Ele é vice-líder do partido de Tymoshenko, o Pátria, e construiu uma carreira política intimamente ligada à de sua aliada. A cooperação entre os dois data de meados dos anos 1990.

Esses laços despertam receios em ativistas pró-democracia ucranianos de que a ascensão ao poder de Turchynov abra caminho para o retorno de Tymoshenko.

Elite

A ex-primeira-ministra foi condenada por abuso de poder em 2011 e presa por ordens do ex-presidente Yanukovych, seu rival. A prisão foi vista por muitos como uma vingança do presidente agora deposto. Os críticos de Tymoshenko a acusam de fazer parte da mesma elite política e econômica de Yanukovych. Ambos são da cidade industrial de Dnipropetrovsk, no leste do país, onde fala-se predominantemente o russo.

Nascido em 1964, Turchynov estudou metalurgia e se envolveu pela primeira vez com a política como membro do Komsomol, divisão do Partido Comunista Sovitético formada por jovens. Nesta época, ele se uniu à Plataforma Democrática, uma ala do partido que buscava uma reforma democrática da URSS e que liderou as primeiras movimentações soviéticas rumo ao pluralismo político.

Em 1993, Turchynov passou a ser o conselheiro econômico do então primeiro-ministro Leonid Kuchma, que depois viria a assumir a presidência. No mesmo ano, foi um dos fundadores do partido de centro-esquerda Hromada. Logo Tymoshenko se juntou a Tymoshenko, uma magnata que buscava ampliar sua influência na política. Turchynov foi eleito pela primeira vez para o Parlamento em 1998.

Mas o partido Hromada acabou quando um de seus líderes, o ex-primeiro-ministro Pavlo Lazarenko, fugiu para os Estados Unidos em 1999, depois de ser acusado de roubar grandes somas de dinheiro durante sua gestão, entre 1996 e 1997.

Revolução Laranja

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Image caption Turchynov fundou o partido Pátria com Tymoshenko

Turchynov e Tymoshenko fundaram, então, o partido Pátria, que tornou-se um dos principais pilares da oposição ao então presidente Leonid Kuchma e de seu sucessor, Yanukovych.

Em 2004, Turchynov ajudou a administrar a campanha do lider da oposição, Viktor Yushchenko, que acabou derrotado por Yanukovych segundo a contagem de votos oficial. No entanto, houve denúncias de fraude a favor de Yanukovych, o que deu início à Revolução Laranja.

Após os protestos de 2004, Yushchenko e Yulia Tymoshenko assumiram o poder como presidente e primeira-ministra, respectivamente, e Turchynov foi nomeado líder da agência de segurança doméstica da Ucrânia, a SBU, que assumiu o lugar da agência russa, a KGB.

Turchynov assumiu a missão de reformar o órgão. Prometeu que não o usaria como uma arma contra oponentes políticos, dando fim às escutas ilegais, o que resgatou a confiança da população do país na agência.

Mas ele perdeu o cargo após sete meses, quando Yushchenko entrou em atrito com Tymochenko, que foi deposta do cargo de primeira-ministra. Turchynov voltou ao governo como vice-primeiro-ministro quando Tymoshenko voltou ao poder, entre 2007 e 2010.

Durante a atual crise política ucraniana, Turchynov já havia sido nomeado presidente do Parlamento e primeiro-ministro interino. Depois que o ex-presidente foi deposto pela maioria dos votos parlamentares, Turchynov foi alçado à posição de presidente interino da Ucrânia.

Julgamento

Sob a liderança de Turchynov, a grande maioria do parlamento votou a favor do julgamento do ex-presidente Viktor Yanukovych pela Tribunal Penal Internacional (TPI), sob a acusação de que ele se envolveu em "crimes graves".

O ex-presidente é acusado de ser responsável pela morte de mais de cem pessoas durante os confrontos violentos entre a polícia e manifestantes ocorridos no país ao longo de sua crise política. Os parlamentares também querem que o ex-ministro do Interior, Vitali Zakharchenko, e o ex-promotor-geral, Viktor Pshonka, sejam julgados.

Mas o país não é signatário da convenção do tribunal. Segundo a correspondente da BBC em Haia, Anna Holligan, o TPI não aceitaria automaticamente um caso trazido pela Ucrânia. O tribunal só é usado em último caso, quando um país não pode ou não está disposto a realizar o julgamento.

De acordo com um porta-voz do TPI, os Estados só podem pedir à corte para investigar uma série de eventos, não um indivíduo em particular. A decisão de processar esta pessoa tem de partir de um promotor do TPI.

Um mandado de prisão foi expedido em nome de Yanukovych, que está desaparecido desde a semana passada. Relatos dão conta que ele foi visto em Balaklava, na península da Crimeia, no domingo passado.

Eleições

As novas eleições presidenciais foram marcadas para 25 de maio. Vitali Klitschko, um dos líderes da oposição, confirmou que será candidato. Ele enfrentará Mykhaylo Dobkin, chefe da administração regional da cidade de Kharviv, que apoiava o ex-presidente Yanukovych.

"Está em curso um ataque aos direitos da população que fala russo e estão sendo adotadas leis que ameaçam todos aqueles que não aceitam o fascismo e o nazismo", disse Dobkin ao explicar porque decidiu ser candidato.

Um porta-voz de Yulia Tymoshenko disse que ela ainda não decidiu se concorrerá.

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