Líder opositor defende saída 'constitucional' de Maduro na Venezuela

Henrique Capriles (BBC)
Image caption Para Capriles, a Constituição e os direitos humanos têm sido constantemente violados na Venezuela

Líder opositor venezuelano e governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles usa o mesmo boné que muitos manifestantes tem usado nos recentes protestos realizados contra o governo de Nicolás Maduro.

É um símbolo que os une num momento em que parece haver rupturas entre os manifestantes, que exige entre outras coisas o combate à criminalidade, à escassez de produtos básicos e à inflação, além da saída do presidente.

Depois de várias derrotas eleitorais, ele passou a dividir essa liderança com outras vozes mais combativas e radicais, como o político e economista Leopoldo López, atualmente preso sob a acusação de "promover" a violência nos protestos contra o governo.

Mesmo assim, Capriles continua a ser a bússola de uma parte da oposição que se considera de "centro" e demonstrou isso no último sábado em uma grande passeata em Caracas.

Ele não exclui a possibilidade de dialogar com o governo, que considera corrupto e ditatorial, e sua posição tem peso entre muitos venezuelanos. Mas diz que não quer assistir a uma "explosão social" no país.

Capriles deu entrevista à BBC Mundo na antiga sede de sua campanha eleitoral, um dia depois de ter recusado um convite de Maduro para ir ao palácio presidencial Miraflores. Ele alegou que não compareceu ao encontro por acreditar que, na reunião, "não se buscava o diálogo".

Confira os principais momentos da entrevista:

BBC Mundo: O senhor se refere ao governo como moribundo. O que quer dizer com isso?

Henrique Capriles: Este governo está em processo de extinção, está se consumindo. A crise econômica pode levar a uma explosão social na Venezuela. E não queremos isso. Eu não quero isso para o país, porque os ganhos que teríamos seriam muito mais prejudiciais do que a situação estamos vivendo agora.

BBC Mundo: O senhor quer que Maduro perca seu mandato?

Capriles: Ganhei de Maduro nas eleições de 14 de abril (nota da redação: Capriles foi derrotado por uma margem apertada, de 1,5%, mas alega que houve fraude na contagem), mas as instituições vigentes permitiram que Maduro esteja na sua posição atual. Não empunharei armas para derrubá-lo. Não sou assim. Quero uma mudança constitucional no país.

BBC Mundo: Isso implica que Maduro deixe o poder?

Capriles: Sim, claro, mas constitucionalmente. Qual é o objetivo? Mudar a Venezuela. Para mim, Maduro é um erro na história do país.

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Image caption Capriles em grande protesto da oposição em Caracas

BBC Mundo: Há alguns dias, em entrevista coletiva, se falava na possibilidade de um autogolpe, de Maduro ser substituído por Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional. Há mesmo uma divisão dentro do chavismo?

Capriles: Bem, não estou lá dentro. Mas, daqui de fora e pelo que sabemos de pessoas que estão dentro do chavismo, há claramente três divisões de poder dentro do partido governista. Um representa Maduro, outro representa Cabello e outro que é, como dizem, a ala econômica, que representa o presidente da empresa estatal de petróleo PDVSA, Rafael Ramírez. Nicolás fala em golpe, mas em que país do mundo os civis dão um golpe de estado? Quem faz isso são os militares. Então, quem são os militares por trás do golpe?

BBC Mundo: Chamou minha atenção uma mensagem enviada outro dia pelo senhor aos soldados. O senhor quer quer os militares deem um golpe?

Capriles: Não quero que os militares apoiem um certo partido ou outro. Minha mensagem não dizia para eles fazerem isso, mas para defender a Constituição. Nestes dias de protestos no país, não somente nossas leis têm sido violadas, como também os direitos humanos universais.

BBC Mundo: Neste sentido, espera que eles apoiem uma mudança?

Capriles: Espero que não violem os direitos humanos nem a Constituição. Se critico que eles têm uma participação no governo, também criticarei se tiverem uma participação política a favor da oposição. Caminhamos rumo a um desastre econômico. Se o governo não age, o que isso provoca? Uma profunda crise política. É preciso ter uma saída para essa crise para resolver o problema econômico, o que fará com que as Forças Armadas respeitem a Constituição. Aí você me pergunta: qual é a mudança? Essa pode ser a mudança.

BBC Mundo: A ideia de que o governo está instável é correta?

Capriles: Quem é o responsável pela crise econômica? Maduro. Vamos isentá-lo da culpa por atos tolos cometidos na busca de uma saída para essa crise? Vamos isentá-lo da responsabilidade pela crise econômica? Seria um equívoco histórico. Nicolás tem que responder pela crise econômica. Se não há uma resposta a essa crise, gera-se uma crise política e, se não há uma resposta à crise política, o regime cai.

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Image caption Os protestos na Venezuela já duram duas semanas

BBC Mundo: O que vem acontecendo nos últimos dias é que a grave crise econômica vem abrindo espaço para os radicais. Parece que não há espaço para este seu discurso...

Capriles: A maioria é de centro. É preciso passar uma mensagem a todos, mas a maioria do país tem problemas maiores que o problema que Maduro representa.

BBC Mundo: Se o centro é maioria, então, Leopoldo López não representa a maioria, mas sim a parte mais radical da direita...

Capriles: Bem, López e María Corina Machado fizeram algumas propostas e estão em seu direito. Mesmo que discordemos sobre como realizar uma mudança, isso não significa que o que estão propondo é crime. Eles têm o direito de se converterem nos porta-vozes daqueles que propõem uma renúncia presidencial. Isso é legítimo e legal. Alguns pensam que não deveriam falar nisso, mas sim falar com os pobres da Venezuela, que querem escutar sobre como resolver sua falta de comida, a questão da moradia...

BBC Mundo: E López não fala com os pobres?

Capriles: Esse não é o debate da maioria. É errado acreditar que o problema são as diferenças entre os lados que querem uma mudança no país. Temos algo maior diante de nós. O que me liga aos meus companheiros da Unidade é algo muito maior. López está preso. Temos que lutar para que ele saia da prisão. Temos que fazer tudo que é humanamente possível, tudo que esteja em nosso alcance para que ele seja libertado, para que Iván Simonovis (comissário condenado pelas mortes ocorridas no golpe de 2002 contra Hugo Chávez) seja libertado, para que os demais jovens presos sejam libertados, para que os exilados possam voltar à Venezuela, para que acabem com a perseguição e a repressão. Essa é a nossa agenda.

BBC Mundo: Mas essa é uma das preocupações dos opositores. Eles veem no senhor um líder e, de um ano para cá, tem enxergado no senhor uma posição ambivalente, que numa hora os convoca para sair às ruas e na outra, para o diálogo.

Capriles: Acredito que preciso mandar um recado a esses setores que exigem que eu vá às ruas, para que nas ruas explique melhor tudo a eles. Não tenho meios de fazer isso porque sobre mim pesa uma das maiores censuras que provavelmente existe neste país. Há canais de televisão que não veiculam nada do que eu disser.

BBC Mundo: Então porque o senhor não foi ao Palácio Miraflores?

Capriles: Porque ontem (segunda-feira) não se buscava o diálogo. A intenção era fazer uma foto comigo para mostrar ao mundo. Não iam me deixar falar.

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Image caption Capriles recusou um encontro com o presidente Maduro

BBC Mundo: Mas era uma oportunidade de dizer as coisas diretamente.

Capriles: Dizer a quem? Ao presidente? Você acredita que me deixariam fazer isso? Eu já estava avisado que não.

BBC Mundo: O senhor vê esta luta como algo de longo prazo?

Capriles: É uma luta do dia a dia, não tem um prazo...E muitos venezuelanos não têm deixado de lutar. Trabalha-se para obter um resultado nas eleições, mas não significa que se renuncie a essa luta caso esse resultado seja obtido ou não. Existe um objetivo maior: a mudança do país.

BBC Mundo: Isso quer dizer a saída de Maduro do poder?

Capriles: Isso quer dizer mudar esse desastre, sem dúvida alguma. Desastre que tem nome e sobrenome, mas não é apenas Nicolás Maduro. É um pequeno grupo que sequestrou o poder.

BBC Mundo: O senhor condenou as barricadas que alguns setores da oposição colocam nas ruas.

Capriles: Não as condenei. Disse que as pessoas que fazem isso acabam isolando a si mesmas. Quem ganha com isso? Ninguém.

BBC Mundo: Então a mensagem é "parem de fechar as ruas"...

Capriles: A mensagem é que aquilo que gera anarquia só fortalece o governo e enfraquece a alternativa democrática ao colocá-la como anárquica.

BBC Mundo: Isso quer dizer então que sim, que o senhor quer que parem com isso?

Capriles: Eu acho que eles deveriam parar, sim. A menos que toda a comunidade esteja de acordo! Mas, se dois ou três impedirem que milhares passem (na rua) – isso acrescenta alguma coisa? Eu acho que não.

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