Por que a Crimeia se transformou no foco da tensão na Ucrânia?

  • 27 fevereiro 2014
Confrontos na Crimeia (AP) Image copyright AP
Image caption Manifestantes pró-Rússia e pró-Kiev entraram em confronto em meio ao dabate sobre o futuro da Crimeia

Como consequência da revolução na Ucrânia - na qual ucranianos nacionalistas e a favor do Ocidente tomaram o poder depois da queda do presidente Viktor Yanukovych -, surgiu o medo de que a região da Crimeia, no sul do país, possa se tornar um campo de batalha entre as forças leais à Ucrânia e aquelas leais à Rússia.

Homens armados içaram bandeiras sobre edifícios do governo declarando que "a Crimeia é a Rússia", enquanto grupos separatistas entraram em confronto nas ruas com grupos pró-Ucrânia.

Por que a Crimeia se tornou o foco da tensão?

A Crimeia é o epicentro do sentimento pró-Rússia no país, o que pode levar ao separatismo. A região - uma península na costa ucraniana no Mar Negro - tem 2,3 milhões de habitantes, e a maioria deles se identifica como parte de grupos étnicos russos e fala russo.

A região votou em peso em Yanukovych na eleição presidencial de 2010, e muitas pessoas acreditam que ele é vítima de um golpe, o que levou separatistas a tentarem pressionar o parlamento da Crimeia a votar se a região deveria se separar da Ucrânia.

A Crimeia é ucraniana de verdade?

A Rússia tem sido o poder dominante na Crimeia na maioria dos últimos 200 anos, desde que anexou a região em 1783. No entanto, a Crimeia passou das mãos de Moscou para as da Ucrânia - então parte da União Soviética - em 1954. Grupos étnicos russos que vivem na região consideram isso um erro histórico.

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Mesmo assim, uma outra minoria importante, os tártaros muçulmanos da Crimeia dizem que eles já foram maioria na Ucrânia, e foram deportados em massa pelo líder da União Soviética Joseph Stalin em 1944 sob a acusação de colaborarem com a invasão nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Os membros de grupos étnicos ucranianos compõem 24% da população da Crimeia, segundo o censo de 2001, em comparação com 58% de russos e 12% de tártaros.

Os tártaros vêm retornando à região desde o colapso da União Soviética em 1991, o que causa uma tensão contínua com os russos sobre o direito destas terras.

Qual é sua situação legal?

Ainda é legalmente parte da Ucrânia - uma situação que a Rússia comprometeu-se a garantir quando assinou, junto com os Estados Unidos, o Reino Unido e a França, um memorando em 1994 dizendo que protegeria a integridade territorial da Ucrânia.

Trata-se de uma república autônoma dentro da Ucrânia, com eleições parlamentares próprias. Mas o posto de presidente da Crimeia foi abolido em 1995, logo depois que um separatista pró-Rússia conquistou o posto com larga maioria. Agora, a Crimeia tem um representante presidencial e um primeiro-ministro, mas ambos são indicados pelo governo na capital Kiev.

O que a Rússia pode fazer?

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Image caption A Rússia mantém uma base naval na Crimeia

A Rússia mantém uma grande base naval da cidade de Sevastopol, na Crimeia, onde está baseada sua frota do Mar Negro. Por isso, alguns ucranianos temem que os militares russos possam entrar em ação.

O acordo de arrendamento da área da base pela Rússia estipula que as tropas russas não podem sair desta área com equipamentos ou veículos militares sem a permissão da Ucrânia. Olexandr Turchynov, presidente ucraniano em exercício, alertou que qualquer movimentação de tropas russas fora da área da base "será considerada uma agressão militar".

Há relatos de que emissários russos estão distribuindo passaportes na península. As leis de defesa da Rússia permitem ações militares no exterior para "proteger os cidadãos russos". Isso gerou o medo de que a Rússia esteja usando esses acontecimentos como um pretexto para uma invasão.

Isso já aconteceu antes?

A Rússia usou uma justificativa parecida em 2008 para enviar tropas à Ossétia do Sul, quando houve uma escalada de tensão nesta região da Geórgia por causa de movimentos separatistas.

Assim como com a Geórgia, Moscou se ressente do que considera interferências da União Europeia e da OTAN na Ucrânia. E, ao fim de tudo, a OTAN não saiu em defesa da Geórgia.

Mas a Crimeia é maior do que a Ossétia do Sul, a Ucrânia é maior do que a Geórgia, e a população da Crimeia está mais dividida do que na Ossétia do Sul, onde a maioria é pró-Rússia - o que torna uma intervenção russa na Ucrânia uma aposta mais arriscada.

Já houve guerra na Crimeia?

Já houve muitas disputas pela Crimeia ao longo da história.

A mais famosa é a Guerra da Crimeia, que ocorreu entre 1853 e 1856. A guerra foi resultado de ambições imperialistas, quando o Reino Unido e a França, em razão de suspeitas sobre as ambições russas na região dos Balcãs depois da queda do Império Otomano, enviaram tropas à Crimeia. A Rússia foi derrotada.

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