Lucas Mendes: Elis, Nelson e Francis, os musicais

Paulo Francis e Elis Regina estão juntos em Elis, a Musical, de Nelson Motta e Patricia Andrade, direção de Dennis Carvalho. Um arrastão na bilheteria no teatro Oi Casa Grande. Na próxima semana, março, o musical vai se banhar nas águas paulistas. Também esgotado nas primeiras semanas.

Na peça do Nelson, Francis conversa na redação de O Pasquim com Henfil. O cartunista desenha o enterro da cantora no cemitério do Cabôco Mamadô, uma sacada dele, reservada para quem colaborou com a ditadura na década de 70.

Henfil mostra o desenho ao Francis que comenta: "Esta cabeçuda até que tem uma boa voz, mas não passa de uma idiota completa. Aliás eu já te falei que a inteligência de músico é comparável a de um cartunista?". Francis sai de cena com Henfil e comenta que prefere Elza Soares.

Há 21 anos, Paulo Francis, Nelson Motta, Caio Blinder e eu estávamos num estúdio gravando o primeiro programa do Manhattan Connection. Neste fim de semana, teremos os ausentes Francis e Nelson presentes no programa, aniversário da nossa maioridade.

Quase milagre. Francis nos deixou há 17 anos. Nelson está em Lisboa, mas teremos o Caike Luna, o ator que faz o papel do Francis na peça Elis, a Musical. Conexões acidentais e preciosas. Há uma semana, Caike e esta tríplice conexão não estavam no nosso radar.

Caike Luna é Carlos Henrique Luna, da Globo, um dos escritores do programa Zorra Total, onde também faz o personagem Clayton. Caike, filho de um médico boliviano e mãe brasileira, saiu do interior do Paraná para estudar Artes Cênicas em Curitiba. Estreou em 1997, na peça Quatro num Quarto. O humorista depois estudou publicidade e propaganda, escreveu doze espetáculos, dirigiu dez e já saiu do humor para fazer incursões em Macbeth, de Shakespeare, e em Fando e Lis, de Fernando Arrabal.

Eu sei que, em casa, Francis cantava árias wagnerianas, um vasto repertório da MPB e jingles, e que nos anos 50, ele, Antonio Maria e Ivan Lessa formavam o maravilhoso Trio Regina.

Elis Regina bombou com Arrastão em 1965 e os anos seguintes foram gloriosos, mas, naquela época, "o Francis estava em depressão, cabeça cheia de cocaína e com marafonas perigosas". Quem conta é a amiga Sonia Nolasco, viúva de Francis . "Depois do sequestro do embaixador americano, ele era preso por qualquer motivo. Dizia que se não saísse do Brasil antes de completar 40 anos, se suicidaria. O único lugar que podia trabalhar era no Pasquim."

Saiu aos 41, depois de quatro prisões. Em 71, pelo rádio de um táxi, a caminho do aeroporto, teve uma epifania elisiana com "nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia". "Quem é esta mulher?", ele perguntou ao motorista. Quando chegou a Nova York, não parava de cantar a "a nega do cabelo duro" no apartamento. Um minuto desta versão esta no YouTube. Preciosa.

Mas só em 1990 ele escreveu sobre a epifania. Foi na coluna da Folha de São Paulo, de 14 de janeiro: "Elis era a única cantora de primeira classe dessa geração que já esta beirando os 50. Uma das maiores ereções e prazeres conexos que tive foi ouvindo Elis num táxi. Elis cantando 'Nega do cabelo duro' em bossa nova". E outra vez, no mesmo ano, também na Folha, "Elis herdou o manto de Carmen Miranda, a única herdeira à altura, com uma animação e um élan vital que não temos mais sombra".

Sonia conta: "No apartamento, deprimido de manhã, às vezes lutava para levantar o moral, cantando. Uma das favoritas era 'Edgar chorou quando viu a Rosa, toda prosa'. E quando eu estava deprimida, ele cantava 'Oi, sacode Carola, que eu quero ver sacudir, mexe e remexe com jeito, carola, e deixe o papai te aplaudir'". Papai sacana.

Francis vinha todos os dias gravar seu comentário no estúdio da Globo. Chegava uma hora antes, saia uma hora depois. Falava, dava palpites, debochava, infernizava a redação e, de vez em quando, cantava. Na nossa Conexão e nas entrevistas dele há músicas de sobra.

Mais Sonia: "Francis sabia canções do Miltinho e Nelson Gonçalves, mas estas frases vinham de repente, a propósito de alguma situação. Eram para rir. Adorava a voz de Cauby Peixoto. Ficou impressionado com o timbre de barítono dele e como cantava bem em inglês. Cantava uma das canções do musical Gipsy, "Curtains up/light the lights". Soltava a voz."

Nelson Motta, porque não Francis, o musical?