Louisiana debate legado de '12 anos de escravidão'

Cena do filme 12 anos de escravidão | Foto: AP Direito de imagem AP
Image caption Filme concorrente ao Oscar chamou a atenção para legado da escravidão na Louisiana

O filme 12 anos de escravidão foi elogiado pelo retrato vívido que faz da escravidão no sul dos Estados Unidos. Baseado no livro de mesmo nome, ele conta a história real de Solomon Northup, um homem livre que foi sequestrado e forçado a trabalhar como escravo no interior da Louisiana. Mas como o legado daquela história é tratado hoje na região?

O livro havia deixado de ser impresso décadas antes de ser descoberto pela historiadora Sue Eakin, que vivia em Rapides Parish, a mesma área onde Northup foi escravizado.

Ela leu a história pela primeira vez na casa de uma amiga aos 12 anos, encontrou o livro novamente na biblioteca da faculdade e ficou "fascinada" por ele.

Seu sobrinho-neto, Lamar White, diz que o homem que vendeu o livro para Eakin, disse a ela que se tratava de "um monte de mentiras".

Determinada a provar que ele estava errado, ela devotou sua vida a pesquisar a autenticidade do livro e republicou uma versão editada em 1968, com o colega historiador Joseph Logsdon.

Em uma época em que os Estados Unidos ainda eram um país profundamente segregado, Eakin também enfrentou desafios por ser uma mulher branca tentando discutir a história de um escravo negro.

"É difícil construir uma comunidade quando existe esta ferida psicológica tão grande criada pela escravidão. É mais fácil para as pessoas se relacionarem se ignorarem isso", diz Lamar White.

Image caption Local onde Solomon Northup trabalhou é hoje uma fazenda, mas alojamento de escravos foi mantido

Até hoje, muitos em Rapides Parisg se recusam a reconhecer a história de tortura na região.

Sem mistura

Em uma discussão de dois dias sobre o livro, que aconteceu recentemente da Universidade Estadual da Louisiana, o legado da história de Northup foi debatido por um grupo de americanos brancos e negros.

Ginger Jones, que chefia o comitê multicultural da universidade, diz que sua proposta inicial de fazer um simpósio sobre as relações de raça encontrou resistência.

"Havia muitas pessoas que achavam que iriam reviver a Guerra Civil ou o movimento pelos direitos civis e acho que eles estavam com medo disso", diz.

Karen Riley, que falou durante o simpósio, se mudou de New Orleans para Rapides Parish após o furacão Katrina. Ela diz que, como recém-chegada, observou que a integração social entre brancos e negros era muito pequena.

Image caption Historiadora restaurou a casa de Edwin Epps, interpretado por Michael Fassbender.

"Quase parece que são duas cidades diferentes. Elas não se cruzam, acho isso curioso."

Um amigo cujos ancestrais foram escravos na região se recusou a comparecer ao simpósio porque considerou o assunto muito doloroso.

"Vergonha, medo e desconfiança persistem mais de 150 anos depois", diz Riley.

Ela diz que a falta de memoriais aos escravos e a tradição no sul de celebrar e encenar o início da Guerra Civil são razões pelas quais muitos negros continuam a se sentir incomodados.

"É um pouco esquizofrênico viver em uma área que celebra uma guerra que estava tentando manter seus ancestrais escravizados, e eu acho que pode ser por isso que parte da comunidade negra não quer discutir isso. Estes ideais ainda estão vivos aqui."

'Uma bênção e uma maldição'

Ao falar com as pessoas de Rapides Parish, elas dizem que o filme foi uma bênção e uma maldição - chamando a atenção para uma história importante, mas também revivendo coisas que aconteceram há muitos anos.

Image caption Descendente de donos de escravos, Tony Ward diz que é preciso superar o passado

Tony Ward restaurou uma antiga casa de "plantation" construída por escravos, Loyd Hall, e a transformou em uma pousada.

Descendente de donos de escravos, ele diz não entender por que, se a escravidão era tão ruim, tantos escravos libertos permaneceram na região.

"Não sinto culpa nenhuma pelo que meus ancestrais fizeram. Eles estavam agindo de acordo com os padrões da época", diz.

"Eles estavam em uma situação ruim e fizeram com ela o melhor que puderam."

Ward acha que é chegado o momento de as pessoas "superarem" a escravidão.

"Nós nos escravizamos com a obrigação de consertar coisas que nossos ancestrais fizeram, e não precisamos mais fazer isso."

Image caption Edward Lawardian Jr. diz que brancos da região votariam hoje a favor da escravidão

Sua opinião, no entanto, é bastante contestada. Muitos afro-americanos daqui dizem que ainda sofrem com o legado da escravidão.

"Os negros querem a sua fatia do bolo. E até hoje não conseguimos a nossa fatia do bolo", diz Edward Larvadain Jr. um advogado e ativista veterano do movimento pelos direitos civis.

Larvadain diz que os brancos da região votariam a favor de trazer de volta a escravidão se não tivessem que "levantar a mão" em público.

"A história de Solomon Northup aconteceu aqui em Rapides Parish e eu lido com este tipo de brancos há 47 anos. Não tem sido nada bom", afirma.

Hipocrisia

É evidente que as feridas da escravidão ainda são muito profundas e contestar opiniões tão arraigadas não é fácil.

Bob Vincent, pastor branco de uma igreja presbiteriana cujos ancestrais também eram donos de escravos, diz que a discussão só começará a se abrir se os americanos brancos reconhecerem completamente o passado.

Image caption O pastor Bob Vincent diz que faltam ao país monumentos que relembrem o sofrimento dos escravos

"Aqui nos Estados Unidos, nossas mãos estão muito sujas de sangue por causa do legado da escravidão", diz.

Ele diz achar hipócrita que existam tantos monumentos relembrando o Holocausto, e tão poucos sobre a escravidão.

"Onde estão os monumentos ao holocausto americanos?", pergunta.

Ao deixar a Louisiana, percebo uma cena próxima ao local onde Solomon Northup trabalhava: uma forca pendurada em uma árvore.

É uma lembrança incômoda de que não importa o quanto as pessoas queiram seguir em frente, o passado ainda está presente em Rapides Parish.

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