Crise na Ucrânia faz disparar preço de gás na Europa

Válvula de gasoduto na Ucrânia (foto: Getty) Direito de imagem Getty
Image caption Medo de cortes no fornecimento de gás russo à Europa influencia preço do petróleo

Os preços do petróleo e do gás subiram na Europa, em meio ao medo de que a crise na Ucrânia prejudique as principais rotas de suprimento de energia do continente.

Mas segundo analistas, os grandes estoques de gás do continente limitarão o período de turbulência.

Os contratos futuros de gás subiram mais de 10% no início de pregões recentes, enquanto o preço de referência para o petróleo subiu mais de 2%.

Os negociantes estão preocupados com a estabilidade dos suprimentos vindos da Rússia, que abastecem um quarto da demanda da Europa por gás – e metade desse gás passa pela Ucrânia.

Entretanto, o inverno relativamente ameno reduziu a demanda por combustível para aquecimento. Os níveis de gás estocado nos principais centros de distribuição estão 20% acima da marca atingida no ano passado.

Na Alemanha, o maior consumidor da Europa e principal clientes da Rússia, os estoques estão com mais de 60% da capacidade e podem suprir 60 dias de demanda.

Confiança russa?

A Rússia é o maior fornecedor de gás natural da Europa, mas o continente tem tentado diminuir essa relação de dependência com o país vizinho ao longo da última década.

Atualmente a Europa importa menos de 30% de seu gás natural da Rússia. Segundo estatísticas da União Europeia, esse percentual chegava a 45% em 2003.

A Europa também está menos dependente da conexão de gás que passa pela Ucrânia, devido a uma melhora nas infraestrutura que permite que o gás chegue por outras rotas em caso de interrupção.

O gasoduto Nord Stream, que passa pelo mar Báltico e chega à Alemanha, ou outra rota que passa pela Polônia e por Belarus são duas opções.

A produtora estatal de gás russa, Gazprom, também planeja construir um gasoduto submarino até 2016 para evitar a rota da Ucrânia – o South Stream.

"A menor utilização significa que a rede de gasodutos da Ucrânia é menos importante hoje que no passado", afirmou a consultoria americana Bernstein Research a seus clientes.

Também há dúvidas de se a Rússia poderia arcar com a interrupção ou corte parcial do suprimento de gás para a Europa. O fornecimento rende à Rússia cerca de US$ 100 milhões diariamente. Analistas avaliam que isso representa cerca de 3% da produção econômica do país.

O crescimento da economia russa de 1,3% no ano passado desapontou e o Banco Central russo reduziu suas próprias previsões – antecipando que o crescimento será menor que 2% até ao menos 2016.

Desligamento histórico

A Gazprom disse na segunda-feira que os suprimentos de gás para a Europa via Ucrânia não foram afetados, mas um corte anterior do fornecimento causou uma ruptura de grandes proporções no sistema de abastecimento do continente, elevando os preços de forma significativa.

Em janeiro de 2009, a Rússia fechou as torneiras para seu vizinho em uma disputa sobre preços de contratos e acusações de que a Ucrânia teria desviado gás destinado a clientes europeus.

O fechamento de duas semanas, durante uma época de muito frio, resultou em diversos problemas para o continente e deixou dezenas de países sem seu suprimento de gás russo.

Bulgária, Sérvia e Bósnia, as maiores dependentes dos suprimentos, registraram grande escassez do produto.

Partes da Europa tiveram que desligar complexos industriais e sistemas de aquecimento doméstico, encontrar fontes alternativas de gás ou reconfigurar as plantas industriais para operar com petróleo. A Eslováquia e a Bulgária consideraram voltar a usar reatores nucleares desativados.

Enquanto negociadores dizem que estoques suficientes de gás poderiam minimizar o impacto de outro eventual desligamento, qualquer interrupção de fornecimento na atual crise certamente levaria a uma alta aguda dos preços.

"Mudanças no mercado global de energia deixaram a Rússia com menos controle, mas isso segue sendo importante", disse em nota Michala Marcussen, economista do banco Société Génerale.

A Gazprom já alertou a Ucrânia de que pode aumentar o preço do gás para Kiev.

"A situação dos pagamentos é preocupante", disse Andrei Kruglov, o chefe financeiro da Gazprom. "A Ucrânia está pagando, mas não tão bem como nós gostaríamos. Ainda estamos pensando em como aumentar o preço do contrato baseado em preços de mercado."

Impacto do petróleo

As preocupações sobre os gasodutos da Europa surtiam efeito em outras commodities, especialmente o petróleo, devido ao aumento da demanda por combustíveis alternativos.

O preço de referência do petróleo Brent subiu ao patamar de US$ 112,1 o barril – o mais alto desde 30 de dezembro.

O aumento é também influenciado por preocupações com o suprimento de petróleo controlado pela Rússia, um dos maiores produtores mundiais.

Enquanto isso, nos mercados de gás, os preços britânicos para entregas do mês que vem subiram 10%, com preços alemães e holandeses subindo de forma similar, segundo a consultoria ICE Futures Europe.

A crise na Ucrânia também provocou uma queda recorde em relação ao dólar, fazendo o Banco Central da Rússia elevar suas taxas de juros.

Notícias relacionadas