Como o mundo se posiciona em relação à crise na Ucrânia

Angela Merkel e Vladimir Putin (Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption A chanceler alemã Angela Merkel vem reagindo com cautela à ocupação da Crimeia

Diplomatas ocidentais vão participar, entre hoje e amanhã, de uma série de reuniões de alto escalão para tentar encontrar uma saída pacífica para a crise na Ucrânia.

As primeiras reuniões acontecem nesta quarta-feira em Paris, onde estão o ministro de Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, o secretário de Estado americano, John Kerry, além de ministros europeus.

O encontro havia sido previamente agendado para tratar da situação dos refugiados sírios no Líbano, mas o assunto que provavelmente dominará as conversas deve ser a crise ucraniana.

As reuniões em Paris são, acima de tudo, uma forma de testar a possibilidade de diálogo, diz Bridget Kendall, analista de diplomacia da BBC.

Mas Rússia não parece estar muito disposta ao diálogo. O ministro de Relações Exteriores britânico, William Hague, disse que os russos não compareceram a uma reunião com os ucranianos em Paris e que, por isso, ele não está "otimista".

"Se não houver progresso, haverá custos e consequências", Hague afirmou.

O debate continuará na quinta-feira, em Bruxelas, na Bélgica, onde haverá uma cúpula extraordinária entre líderes da União Europeia convocada em caráter de urgência para discutir na península da Crimeia, no sul da Ucrânia, onde a maioria da população é de origem russa. A Ucrânia diz que tropas russas foram enviadas para a região.

No encontro, serão discutidas sanções comerciais e diplomáticas à Rússia, que já afirmou que responderá à altura a qualquer sanção. Em uma entrevista coletiva na terça-feira, o presidente russo, Vladimir Putin, fez um alerta, dizendo que eventuais medidas podem causar “danos mútuos”.

Segundo agências de notícias estatais russas, os parlamentares do país já estudam leis que permitiriam confiscar bens de empresas europeias e americanas se sanções foram impostas a Moscou.

Confira abaixo um resumo de como alguns países se posicionam em relação à crise na Ucrânia.

Ucrânia

Um governo temporário foi formado no país depois que o presidente Viktor Yanukovych sofreu um impeachment pelo parlamento sob a acusação de ter sido responsável pela morte de mais de cem manifestantes durante os protestos que ocorreram no país desde novembro.

Ao assumir como presidente, Olexandr Turchynov disse estar aberto ao diálogo com a Rússia, que foi acusada pelas autoridades interinas de enviarem tropas à Crimeia, onde teriam assumido o controle dos aeroportos e dos pontos de entrada na península.

O novo governo não aceita uma eventual separação da Crimeia e diz que a preocupação manifestada pela Rússia, de que russos que vivem na Ucrânia estão em risco de sofrerem agressões - é um "pretexto para invadir o país".

No entanto, Kiev alega que não tem planos de entrar em combate aberto com os russos.

A Ucrânia divulgou um comunicado em que pede que observadores internacionais sejam levados ao país para "dissipar qualquer preocupação sobre atividades militares irregulares e o tratamento dado a todos os ucranianos, independentemente do grupo étnico a que pertencem ou o idioma falado por eles".

"Queremos manter um bom diálogo e boas relações com o povo russo", disse o ministro interino de Relações Exteriores da Ucrânia, Andriy Deshchytsya, depois de um encontro com o ministro francês Laurent Fabius na quarta-feira.

"Queremos resolver esse conflito pacificamente. Não queremos lutar com a Rússia."

Rússia

O governo russo acredita que o acordo político firmado no último dia 21, com o objetivo de acabar com a violência no país, não foi cumprido.

O acordo previa a formação de um governo de união nacional, a adoção da constituição de 2004 (com uma redução dos poderes presidenciais) e a realização de eleições para a presidência no final do ano. Mas, desde então, o presidente Viktor Yanukovych foi afastado pelo Parlamento e as eleições foram marcadas para o próximo dia 25.

Segundo o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, “para resolver o problema, o previsto no acordo do dia 21 de fevereiro precisa ser honrado”.

Os russos ainda consideram Yanukovych o presidente legítimo da Ucrânia. Além disso, Moscou diz que não enviou soldados à Ucrânia – alega que as forças pró-Rússia vistas na Crimeia são mobilizadas localmente –, mas diz que se reserva ao direito “em último caso” de lançar uma ofensiva se a população de origem russa estiver ameaçada.

"Se nós tomarmos tal decisão, será apenas para a proteção de cidadãos ucranianos", disse o presidente, Vladimir Putin.

Por fim, o país diz que uma eventual decisão sobre enviar observadores internacionais para a Ucrânia é exclusiva das autoridades ucranianas.

União Europeia

O bloco concedeu uma ajuda de 11 bilhões de euros à Ucrânia, enquanto vem, ao mesmo tempo, considerando abertamente sanções a indivíduos e empresas russas, mas teme que isso possa prejudicar suas relações com o país, que é seu terceiro maior parceiro comercial.

Os europeus são os maiores investidores do mercado russo. Além disso, os países do continente dependem de Moscou para se abastecer de óleo e gás.

Em teoria, eles poderiam recorrer à Noruega para compensar uma retaliação russa. No entanto, passar a comprar gás e óleo dos noruegueses sairia mais caro para os europeus.

Alemanha

Tem sido a principal ponte de diálogo com a Rússia, de onde vem um terço de suas importações de óleo e gás.

A chanceler Angela Merkel vem fazendo comentários públicos comedidos sobre a situação, também porque a Alemanha está muito próxima geograficamente da Ucrânia e um conflito armado na região pode lhe custar caro.

A impressão de que a Alemanha está tentando proporcionar opções aceitáveis à Rússia antes que sanções possam ser adotadas ficou clara em uma declaração do ministro do exterior alemão, Frank-Walter Steinmeier, após seu encontro com o chanceler russo, Sergei Lavrov, em Genebra, na terça-feira.

Steinmeier evitou dizer claramente que os russos precisavam recuar. Em vez disso, disse que o país precisava apresentar mais garantias ao Ocidente acerca de suas intenções, ou então enfrentar as consequencias.

“Eu acho que, se não vermos passos decisivos nas próximas 36 horas rumo a um acordo internacional (…) então penso que a discussão entre os líderes da Comissão Europeia será, de fato, na direção de medidas a ser tomadas”, disse.

França

Vem assumindo um posicionamento mais firme, em contraponto à postura alemã.

O ministro de Relações Exteriores francês, Laurent Fabius, disse à emissora BFMTV que sanções podem ser divulgadas já nesta quinta-feira se a Rússia não mostrar que está disposta a mudar sua posição.

Grã-Bretanha

Publicamente, o primeiro-ministro David Cameron ameaçou a Rússia com sanções políticas, econômicas e diplomáticas.

No entanto, um documento levado por uma autoridade do governo britânico mostra que essa reação tem limites. Registrado por um fotógrafo freelancer, o papel traz menções diretas ao assunto, dizendo que o Reino Unido pode se unir a outros países na proibição de concessão de vistos e de viagens de autoridades russas, mas que "não deve, por agora, apoiar sanções comerciais ou fechar o centro financeiro de Londres aos russos".

Estados Unidos

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Image caption O presidente americano Barack Obama busca o apoio europeu para pressionar a Rússia

É o país que vem falando mais duro contra a Rússia. Na terça-feira, Kerry afirmou que Moscou vem criando pretextos para uma invasão, e o presidente Barack Obama afirmou que a ocupação da Crimeia coloca a Rússia do lado errado da história.

O país já suspendeu conversas sobre possíveis acordos comerciais com os russos, mas isso tem pouco impacto porque os Estados Unidos não estão nem entre os dez maiores parceiros comerciais dos russos. Por isso, depende dos europeus para fazer uma pressão econômica.

Os Estados Unidos querem instaurar uma missão de observação internacional na Crimeia e, em troca, pedem que as tropas da Rússia voltem às suas bases. O ministro russo Lavrov respondeu que a oferta só pode ser aceita por autoridades da Ucrânia e da Crimeia.

China

O país, segundo maior parceiro comercial da Rússia, mantém-se distante das polêmicas em torno do conflito.

Em comunicado, o presidente Xi Jinping classificou a situação como "complicada e sensível" e disse estar preocupado com o impacto global e regional da crise.

Mas Jinping também afirmou que confia na capacidade russa de mediar uma saída e que apoia qualquer proposta que leve ao fim do conflito.

Brasil

O último comunicado do governo brasileiro sobre o conflito foi feito há duas semanas. Nele, o Itamaraty lamentou a deterioração do quadro político no país e as mortes geradas por isso.

Ao mesmo tempo, a nota dá indícios de que o Brasil não tem a intenção de se envolver na questão ao dizer que a “a crise política na Ucrânia deve ser equacionada pelos próprios ucranianos”.

Japão

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Image caption O Japão de Shinzo Abe quer aproximar-se da Rússia

O país teme que eventuais sanções coloquem em risco a tentativa de melhorar suas relações com a Rússia, segundo autoridades japonesas ouvidas pela agência Reuters.

Desde que o primeiro-ministro Shinzo Abe chegou ao poder, há 15 meses, ele já se encontrou com Putin cinco vezes.

A Rússia planeja ao menos dobrar seu fornecimento de gás e óleo para a Ásia nos próximos 20 anos, e o Japão é hoje forçado a importar grandes quantidades de combustíveis fósseis para compensar a perda de energia de usinas nucleares que foram fechadas depois do desastre de Fukushima, em 2011.

Segundo o ministro de Relações Exteriores Fumiu Kishida, não houve qualquer mudança em suas relações diplomáticas com os russos até agora.

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