Crise da Ucrânia: As vozes do conflito

Sevastopol, na Crimeia (AFP) Direito de imagem AFP
Image caption Crimeia é um ponto-chave na disputa entre Rússia e Ucrânia

Os Estados Unidos alertaram a Rússia que qualquer medida para anexar a região autônoma da Crimeia vai fechar as portas para a diplomacia.

Em uma conversa por telefone neste sábado, o secretário de Estado americano, John Kerry, disse ao ministro do Exterior russo, Sergei Lavrov, que a Crimeia é parte da Ucrânia e o governo russo precisa evitar a intensificação da militarização na região.

A questão é controversa. De um lado, o premiê interino da Ucrânia, Arseniy Yatsenyuk, advertiu o Parlamento da Crimeia de que "ninguém no mundo civilizado" vai reconhecer o referendo convocado pela região autônoma para decidir sua eventual anexação à Rússia.

De outro, o pleito tem o apoio do Parlamento russo.

Mas o que pensam os russos e os ucranianos a respeito? Leitores da BBC News expressaram suas opiniões a respeito da tensão regional:

Stephen Yarnovich, de Yalta, na Crimeia

Moro há mais de nove anos na República Autônoma da Crimeia, com minha mulher, de origem crimeia e russa. Tive a chance de conhecer bem as pessoas daqui. E as pessoas com as quais falei não querem - nem reconhecem - o governo de Kiev, eles querem governar a si mesmos.

Não há tensão real aqui com nossos amigos (de origem) tártara - eles só querem continuar com suas vidas como qualquer um. Não há unidades militares aqui em Yalta, e o porto opera normalmente.

Há um escritório improvisado perto da estátua de Lenin, onde as pessoas têm ido há uma semana assinar a petição que pergunta: "Você quer ser parte da Ucrânia ou se separar?".

Praticamente todos os que assinaram querem se separar da Ucrânia.

Também conversei com muitas pessoas nas ruas, e todas elas dizem o mesmo: a Crimeia é a Crimeia, não é Ucrânia!

Não reconhecemos o atual governo já que ele tomou o poder em um golpe. Não houve eleições e eles não foram votados como em um governo legítimo. Foi a oposição que instigou os protestos (que levaram à derrubada do governo pró-Moscou), levando às mortes de tantas pessoas.

Valentina Mordvintseva, de Simferopol, na Crimeia

Está mais ou menos calmo nas ruas. Há algumas pessoas com cara de soldados, mas apenas perto de lugares importantes.

Diariamente há encontros em dois pontos para falar sobre a Rússia e (o presidente russo Vladimir) Putin. Não sei quem são essas pessoas, e não são muitas as que se reúnem.

Entre os meus amigos, ninguém apoia a ideia de uma agressão russa. Mas eles preferem ficar em casa, e eu também.

Há muitas pessoas que não estavam felizes com o governo ucraniano e a situação que vemos agora é parcialmente o resultado da falta de uma política cultural real do governo prévio.

Sei que isso não vai mudar da noite para o dia, mas não sei qual a melhor forma lidar com isso.

Ielyzaveta Boreiko, Mariupol, Donetsk

O problema da invasão russa começa agora a tocar as regiões do leste da Ucrânia. Eu não apoiava (o presidente destituído Viktor) Yanukovych, não apoio Putin e não apoio o governo atual da Ucrânia.

Eu não tomei parte até agora em nenhum dos protestos em massa ou encontros. Sou uma ucraniana que fala russo e não estamos sofrendo nem no leste da Ucrânia ou na Crimeia, como foi sugerido pelo governo russo.

Nossos jornais e TVs locais são em russo, nas escolas as aulas são tanto em russo como em ucraniano, e o idioma nunca foi um problema. Falo as duas línguas.

A imprensa de massa mostra muitas pessoas com bandeiras russas e apoiando Putin. Muitos vieram da Rússia. Ônibus com placas russas foram vistos perto dos grupos que apoiam Putin. Sou linguista e consigo perceber, por seus sotaques, que são pessoas russas.

Em Mariupol, as pessoas falam russo, mas a pronúncia é muito diferente do russo original. Há algumas pessoas aqui que apoiam Putin e o separatismo, mas são poucas.

Tenho certeza que a maioria da população do leste da Ucrânia e da Crimeia quer viver em uma Ucrânia única e indivisível. Putin insiste que houve um golpe na Ucrânia, mas foi uma revolução pela dignidade humana.

Anna Lidia, em São Petersburgo, Rússia

Minha mãe mora na Ucrânia. Todos queremos paz. Ucranianos e russos somos iguais e nos amamos entre si.

Acho que os EUA não deveriam se envolver nessa situação. Rússia e Ucrânia são como dois amantes que brigam, e a América é como uma terceira parte desnecessária!

Amamos Putin - ele não quer que nada de mal aconteça. É difícil ser presidente e fazer todo o mundo feliz. Mas somos fortes.

As pessoas não devem temer os russos, não somos maus. Tenho um namorado britânico que mora aqui comigo e ele pensa igual - de que está tudo sendo dramatizado e exagerado.

A maioria dos russos e ucranianos pensa isso: deixem-nos em paz para resolver os problemas e tudo ficará bem.

Oleg Tsyganov, de Kiev, Ucrânia

A Crimeia deveria continuar com a Ucrânia. Por muito tempo, antes dos eventos recentes, Yanukovych sempre conseguiu colocar as populações ucranianas do leste e do oeste uma contra a outra. Isso acontecia para distrair as pessoas em vez de criar políticas para o país.

Ele prometeu apoiar o acesso da Ucrânia ao comércio europeu, que faria a Ucrânia mais "próxima à Europa". Ao mesmo tempo Yanukovych estava tentando conseguir dinheiro do Fundo Monetário Internacional.

Tenho certeza de que dinheiro recebido para esses propósitos foi para os interesses pessoais de Yanukovych ou para a construção de seu palácio.

Quanto à Rússia, acho que o objetivo de Putin é reprimir a ascensão de um vizinho livre, para manter seu poder totalitário. Acho que os militares russos na Crimeia estão ficando nervosos.

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