Ajuda psicológica a vítimas de atentados inclui 'exposição ao medo'

Estação de trem Atocha, em Madri (Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption A estação de Atocha foi um dos locais do atentado, que deixou 191 mortos e 117 com deficiências físicas

Dez anos depois dos atentados terroristas que mataram 191 pessoas e deixaram mais de 1,8 mil feridos em Madri, em 11 de março de 2004, parentes e vítimas das explosões seguem lutando para conhecer a verdade e superar a dor e as sequelas da tragédia.

Segundo as associações de vítimas e o Ministério do Interior, até hoje cerca de 200 pessoas ainda necessitam ajuda psicológica e uma continua internada em estado vegetativo. Entre os feridos, 117 ficaram com deficiências físicas permanentes. Muitas ficaram surdas por causa das explosões.

Em meio a homenagens, o Ministério do Interior informou na segunda-feira que redobrou os esforços para que as vítimas tenham atenção psicológica "eficaz".

A psicóloga Natalia Moreno, coordenadora do departamento psicossocial da Associação de Vítimas de Terrorismo (AVT) explica que, entre as vítimas e familiares do 11-M que necessitam de ajuda psicológica, cerca de 30% apresentam sintomas depressivos pós-traumáticos ou quadros de ansiedade.

"Tudo isso as faz reviver a perda. O problema das vítimas de terrorismo é viver como se aquela tragédia fosse o presente, em vez de uma lembrança de 10 anos atrás", explica Natalia.

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Image caption Vítimas do atentado foram condecoradas ontem em cerimônia em Madri

A entidade, em conjunto com psicólogos da Universidade Complutense de Madri, oferece tratamentos para os sobreviventes e familiares das vítimas fatais que, em alguns casos, consistem na exposição direta a situações que causam medo ou pavor, para que os pacientes aprendam a confrontar esses sentimentos. Uma das técnicas é fazer o paciente se reaproximar da estação de Atocha ou rever imagens da tragédia.

"Queremos transmitir às vítimas que é possível superar, que elas podem seguir adiante, ainda que isso implique construir uma nova vida", afirma a psicóloga.

Perda de um filho

O casal Maria Pilar Crespo de la Torre, dona de casa, e Gabriel Moris Noguera, aposentado, conta que encontrou na fé a força que necessitava para amenizar o luto. Aos 32 anos, o filho deles, Juan Pablo Moris Crespo, tradutor técnico, morreu nos atentados. "Esses dez anos foram de muita dor, mas muita serenidade e fé, que impediu que caíssemos no desespero", diz Moris.

Pilar revela que o filho do meio, Gabriel, no entanto, ainda não conseguiu superar a tragédia que acometeu o irmão. Dez anos se passaram e ele ainda tem depressão, faz terapia e nunca mais conseguiu voltar a trabalhar.

A mãe lembra que, naquela manhã de 11 de março, Juan Pablo havia saído da cidade de Alcalá de Henares para ir ao trabalho, em Madri, quando o trem em que estava explodiu nos trilhos da rua Tellez.

"Ouvi a notícia no rádio e soube imediatamente que ele estava entre os feridos ou mortos. Meus outros dois filhos saíram para procurá-lo, e nós ficamos em casa para telefonar para os hospitais. À meia-noite, nos confirmaram que nosso filho era uma das vítimas fatais", recorda.

Petição online

Aos 74 anos e sobre uma cadeira de rodas, Gabriel Moris luta para que se reabra o caso, pois não acredita na autenticidade das provas. "Falta saber quem foi o autor intelectual e o por quê dos atentados", diz.

Ele criou uma petição online na plataforma Change.org, que já tem mais de 55 mil assinaturas de apoio – inclusive do Brasil, diz – que será encaminhado ao primeiro ministro espanhol, ao Congresso de Deputados e à Audiência Nacional.

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Image caption A composição química dos explosivos é um dos pontos que ainda suscita dúvidas

Moris, que é químico aposentado, questiona a informação oficial sobre os componentes utilizados nos explosivos, um dos pontos que ainda hoje suscita questionamentos entre a sociedade civil, parte da imprensa e dos políticos.

Ele lamenta que essas dúvidas dividam até mesmo as quatro entidades representativas das vítimas. "Se há tantas versões, é porque o atentado não foi esclarecido", opina.

Segundo dados do Ministério do Interior, a maioria das vítimas fatais era de classe média trabalhadora que se dirigia a seus locais de trabalho. De 2.084 feridos e dos 191 mortos, 34% eram imigrantes, de 34 nacionalidades diferentes. A maioria, 78%, tinha entre 36 e 65 anos.

Desde o fim de semana, se realiza por toda Espanha uma série de homenagens em memória das vítimas dos atentados. Em um dos atos, o ministro de Interior, Jorge Fernández Díaz, qualificou o 11-M como "o atentado mais selvagem da história da Espanha".

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