Físico propõe muralhas para conter tornados nos EUA

Tornados nos Estados Unidos (AFP) Direito de imagem BBC World Service
Image caption Mais de 800 tornados atingiram os Estados Unidos apenas em 2013

Um projeto de um físico dos Estados Unidos sugere que a construção de muralhas poderia diminuir o impacto e até eliminar os desastres causados pelos tornados no país.

As barreiras teriam 300 metros de altura e se estenderiam mais de 160 quilômetros. A construção seria na região conhecida como Tornado Alley ("Alameda dos Tornados", em tradução livre), área na região central dos Estados Unidos onde ocorrem mais destes fenômenos.

Segundo o professor Rongjia Tao, da Universidade de Temple, na Filadélfia, estas barreiras funcionariam como cadeias de colinas, suavizando a força dos ventos antes que os tornados se formem.

O cientista afirma que a construção custaria US$ 16 bilhões (mais de R$ 37 bilhões), mas poderia economizar muitos outros bilhões de dólares todos os anos.

Tao divulgou seu projeto na reunião da Sociedade Americana de Física, em Denver, no Estado do Colorado (centro-oeste dos EUA).

No entanto, nem todos aceitaram a ideia. Críticos afirmam que o projeto é inviável e vai criar mais problemas do que ajudar a resolvê-los.

Exemplo da China

Todos os anos centenas de ciclones e tornados passam por comunidades no grande corredor norte-sul entre as Montanhas Rochosas (centro-oeste dos EUA) e a cordilheira dos Apalaches (no leste).

O projeto de Rongjia Tao não prevê que muralhas sejam construídas ao redor de cidades, já que elas não teriam a força necessária para bloquear um tornado.

Em vez disso, ele propõe a construção de três imensas muralhas cruzando Estados. Elas suavizariam o choque entre as correntes de ar, a quente que vem do sul e a fria, do norte, que, segundo Tao, formam os ciclones.

"Se construirmos três grandes muralhas de leste a oeste, uma no Dakota do Norte, outra na fronteira entre o Kansas e Oklahoma, e a terceira no sul, entre o Texas e a Louisiana, vamos diminuir as ameaças da Tornado Alley para sempre", disse.

Para provar que seu projeto pode dar certo, Tao lembra o caso da China, onde apenas três tornados foram registrados em 2013, comparados com os 803 nos Estados Unidos no mesmo período.

A China também tem planícies se estendendo de norte a sul do país, mas a diferença é que estas são interrompidas por formações rochosas que se estendem de leste para oeste.

Apesar ter apenas algumas centenas de metros de altura, estas cadeias já seriam altas o bastante para enfraquecer as correntes de ar antes que elas se choquem, afirma Tao.

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Image caption Físico cita o prédio da Comcast, na Filadélfia, como exemplo de projeto que pode ser aproveitado

O físico afirma que estas muralhas também poderão se transformar em belos monumentos, citanto o edifício Comcast, na Filadélfia, que tem cerca de 300 metros de altura e tem vidro reforçado em seu exterior.

"Nossas muralhas de tornado podem até ser construídas com vidro também. Poderá ser um belo marco. Conversei com alguns arquitetos e eles falaram que é possível, levaria alguns anos para terminar, mas poderíamos construir em fases", disse.

Ceticismo

Rongjia Tao ainda não apresentou seu projeto a nenhuma agência do governo americano. E a reação dos meteorologistas presentes à reunião da Sociedade Americana de Física foi de ceticismo.

Harold Brooks, do Laboratório Nacional de Tempestades Graves dos Estados Unidos, disse que a ideia das muralhas "simplesmente não vai funcionar".

Brooks disse, em uma entrevista ao jornal USA Today, que os tornados ainda acontecem em partes de Oklahoma, Arkansas e Missouri, apesar das cadeias existentes naquelas áreas, dispostas na direção leste oeste e de tamanho parecido com o proposto pelo projeto de Tao.

Outro especialista em tornados, Joshua Wurman, do Centro de Pesquisa de Clima Extremo, também não aprova a proposta de Tao.

"Pelo que pude entender, o conceito dele, de como os tornados são formados, é fundamentalmente falho. Meteorologistas ficam constrangidos quando ouvem sobre 'choque entre ar frio e ar quente'. É muito mais complicado do que isto."

Apesar de a maior parte da culpa dos tornados ser do ar quente que vem do Golfo do México, parar esta corrente seria quase impossível, disse Wurman.

"Talvez se ele construísse a barreira na escala dos Alpes - 2 mil a 3 mil metros de altura, iria interromper. Mas claramente também iria causar uma mudança drástica no clima", disse.

E este talvez é outro ponto crucial, segundo Wurman. Um projeto como este, poderoso o bastante para eliminar os tornados, teria efeitos colaterais catastróficos.

"A cura pode ser pior do que a doença. Então a solução para os tornados é não tentar se livrar deles. É melhor (fazer) previsões e alertas para que as pessoas fiquem fora do caminho dele. (Construir) casas melhores. Abrigos melhores", disse.

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