Lucas Mendes: No arrastão, produtos suspeitos

  • 13 março 2014
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Julia usa fone descartável pago em dinheiro e sem dar sua identidade, não passa por raio-X no aeroporto, usa um cartão de crédito com outro nome, trocou Google por DuckDuckGo, instalou o software Tour de mensagens cifradas, saiu de todas as redes sociais, comprou seu próprio Wi-Fi, instalou um gerador/administrador de senhas, enrolou a carteira com seu fone e cartões de crédito em papel de alumínio, comprou uma bolsa forrada com metal e saiu por aí, em busca de privacidade.

Julia Angwin, jornalista investigativa, conta a experiência dela no livro Dragnet Nation, (séria "Nação Arrastão" em português). Difícil traduzir dragnet. Durante treze anos ela cobriu tecnologia digital para o Wall Street Journal e hoje escreve para o site investigativo ProPublica.

O objetivo dela no projetão "Nação Arrastão" era descobrir se é possível escapar das redes digitais comerciais e do governo que nos cercam e nos controlam.

Ela descobriu que se você perguntar à Google o que sabe sobre você, Google conta. No caso dela, desde 2006, fazia, em média, 26 mil buscas por mês, quase mil por dia. Das pesquisas para o trabalho, as roupas íntimas, estava tudo lá. Era possível retraçar a vida dela quase de minuto a minuto.

Descobriu também que há mais de 200 coletores de todos os tipos de dados, pessoais e profissionais, no país e só uns doze, como o Google, contam o que sabem a seu respeito. Julia ficou tão assombrada pelo número de detalhes corretos como pelos falsos.

Um dos coletores de data informava que ela era mãe solteira, não tinha curso universitário e era pobre. Ela poderia ter problemas se estivesse doente num hospital, por exemplo, e se este perfil dela aparecesse na tela do computador.

E se você usa algum site para troca de informações pessoais, mesmo fechado e que exija registro e senha, não se sinta protegido. Sheila, uma americana pobre, e Walter, um australiano rico, ambos em crises de depressão, se conheceram num destes sites. Trocavam suas experiências, tratamentos, remédios, a luta diária contra a doença. Um dia, o dono do site admitiu que todas as informações eram vendidas para fabricantes de produtos farmacêuticos.

No universo digital privado, somos consumidores e somos produtos. A partir do instante que queremos comprar qualquer coisa na internet, somos automática e instantaneamente leiloados. É extraordinário.

Fiz um teste com sapatos. Fui identificado pelos meus "cookies" e os vendedores da marca XXX pagaram pelo direito de me fazer a primeira oferta. O processo de leiloar minha possível compra leva décimos de segundos. Já chegou ao Brasil? Aposto que sim. Sabemos quem são e o que sabem? Duvido.

Trocar de buscador foi um grande problema para Julia. Para a jornalista, o Google parecia essencial, mas Julia entrou para DuckDuckDuckGo porque este não guarda nem vende informações sobre os usuários. Uma tartaruga, cinco vezes mais lento e exige uma reeducação de como pesquisar. "No Google", diz ela, "quando você escreve 'museu', o buscador já sabe que você está em Nova York, quais museus já visitou e mais alguma coisa. No DuckDuckDuckGo, é preciso informar todos os detalhes. Museu de História Natural, etc...".

Tour, o sofware que cifra tudo, é outra tartaruga. Quando você manda um texto, Tour cifra e muda o ponto de origem da mensagem. Se você está num café em Nova York, Tour coloca você em Amsterdã ou qualquer outra cidade do mundo A mensagem dá voltas ao mundo.

Antes de comprar uma bolsa forrada com metal para proteger o telefone e seus cartões de crédito, ela usava papel de alumínio. Pagava mico nas reuniões quando tirava o fone do papel amarrotado, como se desenrolasse um sanduíche. A bolsa substituiu o papel, pesa tanto que um dia pode dar problema na coluna, mas é fina.

Hoje, há equipamentos capazes de ler as fitas magnéticas que estão dentro das bolsas e ou das carteiras nos bolsos de homens. Só depende da distância. As fitas magnéticas e os chips dos fones e cartões emitem sinais de rádio com informações sobre os números. Copiados, roubados.

Nos aeroportos, 95% dos americanos passam pelos máquinas de raio-X. Julia está entre os 5%. Ela descobriu que as imagens dos radiografados só são destruídas depois de vários meses.

Se para o mundo digital do consumo somos produtos, para o governo somos todos suspeitos. Além de ter todas informações que estão em Google, Facebook, Yahoo e companhias telefônicas, o governo tem outras redes mais sofisticadas e abrangentes.

Este software Tour é o preferido dos traficantes e, provavelmente, dos terroristas. Julia acha que está nos arquivos da NSA (agência de segurança nacional americana), mas quando ela pediu para ver o que sabiam sobre ela, responderam, "que arquivo?".

Afinal, qual a privacidade de Julia e a que preço? Por mês, o aparato custa mais ou menos US$ 2 mil. Privacidade cara.

E escondeu tudo? Negativo. Julia calcula que apenas metade da vida dela é privada.

Então, qual é o ponto de meia proteção? Ela não tem certeza. Vai continuar na pesquisa.