Propaganda trata referendo na Crimeia como escolha entre 'nazistas' e Rússia

Cartaz na Crimeia mostra mapas da região pintado com a suástica nazista ou com cores russas, e dizeres: 'Escolheremos no dia 16' (Getty) Direito de imagem Getty
Image caption Propaganda pró-Rússia se tornou mais forte na Crimeia, onde emissoras ucranianas foram vetadas

Às vésperas do referendo em que a Crimeia votará se quer permanecer sob o governo ucraniano ou ser anexada à Rússia, a população da região autônoma ucraniana está sendo mantida praticamente isolada de qualquer notícia que não venha do lado russo.

Ainda que opiniões pró-Rússia tenham sempre tido forte destaque na Crimeia, até há pouco moradores locais tinham acesso a uma variedade de fontes noticiosas - tanto do lado de Kiev quanto do de Moscou, sendo a TV o meio mais popular.

Isso mudou drasticamente no início deste mês, quando emissoras ucranianas foram removidas da transmissão tradicional e a cabo na Crimeia. Algumas foram substituídas por emissoras russas, que são duramente críticas ao governo interino no poder em Kiev.

Jornais locais também são praticamente unânimes em promover visões pró-Rússia, reforçadas por propagandas e panfletos distribuídos nas ruas.

Diversos sites foram lançados para promover o referendo - aprovado pelos Parlamentos de Crimeia e Rússia, e criticado pelo Ocidente -, bem como a aproximação com a Rússia (lembrando que a maioria dos moradores da Crimeia tem etnia russa).

E outdoors foram espalhados pelas ruas da Crimeia alegando que a população terá de escolher entre duas opções: uma delas mostra o mapa da Crimeia pintado com a suástica nazista; a outra, o mapa da Crimeia pintado com as cores da bandeira russa.

Também há relatos de que estão sendo distribuídos panfletos argumentando que os padrões de vida são melhores na Rússia do que na Ucrânia. Um deles diz que a Crimeia tem de escolher bem, ou "neonazistas ucranianos vão nos tirar tudo por meio de subornos e chantagens".

TVs vetadas

O "apagão" de emissoras ucranianas na região começou em 3 de março, quando a TV Mar Negro, que apoia a ex-premiê ucraniana Yuliya Tymoshenko, foi desconectada das transmissões locais. Autoridades da Crimeia atribuíram o sumiço a "problemas técnicos".

Em 9 de março, uma das maiores operadoras de TV a cabo da Ucrânia, a Volva, informou seus assinantes em Sevastopol e Simferopol (Crimeia) que todos os canais ucranianos haviam sido removidos, por ordem de autoridades locais.

E, dois dias depois, o Parlamento da Crimeia assumiu o controle da maior emissora estatal local, a Krym, tomada por homens armados em 28 de fevereiro.

O veto a canais ucranianos despertou protestos na comunidade tártara da Crimeia, que vê com desconfiança a aproximação com a Rússia.

Internet

Ao mesmo tempo, o site Referendum2014.org.ua foi lançado para coletar informações sobre o referendo de 16 de março. Ele traz diversos clipes de vídeo com o propósito de ilustrar as opiniões dos moradores da Crimeia sobre o pleito. Mas todos os vídeos mostram opiniões abertamente pró-referendo ou fortemente críticas às novas autoridades ucranianas.

Outro site novo, o Crimeia Juntos, traz selos, panfletos e pôsteres promovendo a anexação à Rússia. O site encoraja os usuários a compartilhar o material nas redes sociais ou entregá-los aos moradores locais.

Imagens e panfletos também têm sido compartilhados em fóruns e blogs pró-Rússia. Um deles cita a aproximação com Moscou como a "última chance" para preservar a segurança e o renascimento da Crimeia.

Imprensa

Jornais populares na Crimeia, como Krymskoye Ekho, Krymskaya Pravda e Krymskoye Vremya, que já eram tidos como simpáticos à Rússia, têm dado espaço ainda mais amplo ao sentimento anti-Ucrânia, pedindo que os moradores locais "escolham a Rússia" no referendo.

O Krymskoye Ekho advertiu a população a não confiar nas novas autoridades ucranianas: "Não confie em ninguém! Há uma guerra midiática em curso. Eles estão tentando nos confundir. Seu objetivo é impedir a realização de um referendo".

E o Krymskaya Pravda diz que o pleito é "a última chance de expressar nossa opinião de unidade com a Rússia".

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