Com Venezuela como pano de fundo, EUA enviam secretários ao Brasil

  • 14 março 2014
Secretária-assistente de Estado dos EUA Joberta Jacobson (foto: Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Representantes dos EUA devem tratar da crise na Venezuela com diplomatas brasileiros

Uma crise política regional e a recuperação econômica incipiente compõem o pano de fundo de duas visitas que autoridades americanas farão ao Brasil na semana que vem.

A secretária-assistente de Estado dos EUA para o Ocidente, Roberta Jacobson, visitará o Brasil e o Paraguai para discutir “temas de interesse mútuo, incluindo cooperação bilateral e preocupações regionais”, informou em nota o Departamento de Estado americano.

Já o secretário do Tesouro, Jacob Lew, se encontrará na segunda-feira em São Paulo com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, para discutir temas econômico-financeiros.

A visita de Jacobson é descrita pelo Itamaraty como “de rotina”, mas não se descarta que a Venezuela entre na pauta, já que temas regionais também são tratados em encontros bilaterais.

Segundo a assessoria de imprensa da pasta, porém, a subsecretária não se encontrará com o ministro Luiz Alberto Figueiredo.

A crise política elevou o tom das trocas de acusações entre Washington e Caracas. Os EUA responsabilizam a repressão das forças de segurança venezuelanas pela violência nos protestos de rua, que já resultaram em 28 mortos.

Depois de uma fracassada tentativa de pressionar a Venezuela na Organização dos Estados Americanos (OEA), o governo americano vem expressando uma opinião cautelosa sobre a comissão criada pela União das Nações Sul-Americanas (Unasul) para mediar o diálogo entre oposição e governo.

Um porta-voz do Departamento de Estado, Noel Clay, disse à BBC Brasil que a comissão deve ser “aceita por todas as partes” e propor um diálogo que inclua “aqueles na oposição que crêem que seus direitos democrátcos estão sendo violados”.

“Acreditamos que o acompanhamento (da crise venezuelana) por uma parte neutra, aceitável a todos as partes possa promover um diálogo honesto na Venezuela.”

‘Intervencionismo’

Porém, o tom de cautela tem sido elevado pelo próprio secretário de Estado americano, John Kerry, que nesta semana não descartou invocar a Carta Democrática Interamericana para buscar sanções contra a Venezuela.

Nesta sexta-feira, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, acusou os EUA de “intervencionismo desesperado” por causa das declarações.

“É evidente o intervencionismo desesperado do governo dos EUA”, disse Maduro. “Isto está levando o presidente (Barack) Obama a um abismo. Ele vai quebrar a cara contra a Venezuela e acabar se isolando na América Latina e Caribe.”

Kerry expressou desconforto ao dizer que os EUA não estão sendo “ouvidos” pelos países sul-americanos.

Em 2003, os EUA estiveram entre as seis nações do chamado Grupo de Amigos da Venezuela, uma iniciativa do governo de Luiz Inácio Lula da Silva que possibilitou negociações diretas entre governo e oposição venezuelanos para tentar superar um impasse político na época.

No Congresso americano, a inquietação em torno da atual crise venezuelana levou três senadores, dois democratas e um republicano, a abrir espaço para ações unilaterais americanas contra a Venezuela.

Legislação apresentada pelos parlamentares disponibilizaria US$ 15 milhões para organizações civil venezuelanas – muito provavelmente de oposição – e permitiria à Casa Branca adotar sanções contra autoridades venezuelanas acusadas de reprimir os protestos.

“Agora é a hora de ações que exponham, envergonhem e punam os assassinos e vândalos do regime de Maduro, que são responsáveis pela repressão violenta contra venezuelanos inocentes”, disse o senador republicano Marco Rúbio, uma liderança cubano-americana da Flórida e um dos autores do projeto.

“Agora é hora de estar ao lado do povo venezuelano e aumentar a pressão sobre Maduro.”

‘Parceria econômica’

Já a visita do secretário americano do Tesouro, Jacob Lew, será enfocada em questões econômicas e financeiras, disse a jornalistas em Washington um porta-voz do Departamento do Tesouro americano.

O secretário é diretamente subordinado a Obama, e portanto é uma das autoridades americanas de mais alta hierarquia a visitar o Brasil desde o cancelamento da visita da presidente Dilma Rousseff a Washington, marcada para outubro passado.

“O tema revelações continua sendo discutido pelas autoridades apropriadas”, disse o porta-voz americano. “Vamos enfocar (a visita) nas parcerias econômicas e a forte relação que temos neste espaço.”

Na segunda-feira, o secretário americano do Tesouro se encontrará em São Paulo com Mantega e Tombini. Um dos temas que podem ser discutidos na reunião é a reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI), cuja reunião anual de primavera ocorre em menos de um mês.

O Congresso americano ainda não aprovou a reforma das cotas do Fundo, que daria mais poder de voz a países emergentes, como o Brasil. Os EUA reiteram que acreditam na “importância do FMI para a economia global” e na necessidade de “modernizar” a instituição para que reflita a ordem econômica atual.

O Fundo está em discussões com o governo ucraniano – que tem o apoio dos EUA – para desenhar um programa de reformas econômicas para alcançar “governança sólida e crescimento sustentável”, nas palavras da diretora-geral do FMI, Christine Lagarde.

Uma missão do Fundo está em Kiev desde o dia 4 de março e deve voltar até o dia 21.

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