Crise na Ucrânia mergulha futebol em caos e gera temores de confrontos em estádios

  • 20 março 2014
Torcedores do Dynamo Kiev fazem mosaico com bandeira ucraniana / Crédito da foto: Reuters Image copyright Reuters
Image caption Na volta do Campeonato Ucraniano, torcedores demonstram nacionalismo em Kiev

Protestos e confrontos que resultaram na derrubada do presidente e em mais de 80 mortos, um referendo em uma região separatista que opôs o governo interino à Rússia, tensão nas ruas e um futuro incerto. Essa tem sido a realidade da Ucrânia, acompanhada com preocupação pelos vizinhos europeus e o resto do mundo.

E no futebol, um dos esportes mais populares por lá, o reflexo da crise não poderia ser outro: bagunça. Desde dezembro, quando o Campeonato Ucraniano parou por conta da tradicional pausa de inverno, os acontecimentos de fora dos gramados têm influenciado a organização do torneio e mudado consideravelmente a rotina dos jogadores brasileiros que atuam no país - entre eles, o meia-atacante Bernard, da seleção brasileira.

Em três meses, a tabela da principal competição nacional teve de ser repensada, jogadores precisaram dormir em seus clubes e o presidente de um dos principais times do país teve de fugir.

Alex Merino, um peruano que mora na Ucrânia há 12 anos e ajuda jogadores brasileiros, portugueses e espanhóis a se estabilizarem no país, explicou à BBC Brasil que a relação de futebol e política na Ucrânia é mais estreita do que se imagina e que, por isso, as consequências da crise foram inevitáveis.

"Na Ucrânia, há uma influência política nos times, porque todas as equipes pertencem a donos milionários aqui. São eles que financiam as equipes. E eles têm relações com políticos", disse.

Presidente foragido

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Image caption Deposto da presidência, Viktor Yanukovich fugiu da Ucrânia e ainda não foi encontrado

A derrubada do presidente do país, Viktor Yanukovych, que fugiu do país, acabou obrigando alguns de seus principais aliados a fazer o mesmo, entre eles o oligarca Sergey Kurchenko, magnata do setor de gás.

Kurchenko é o dono do Metalist Kharkiv (cidade do lado russo da Ucrânia), um dos times mais fortes do país atualmente - clube dos brasileiros Marlos, ex-São Paulo, Cleiton Xavier, ex-Palmeiras, e Diego Souza, ex-Vasco e Palmeiras. Com a fuga dele, a fonte de dinheiro secou.

As contas bancárias milionárias do mandatário foram congeladas desde a queda de Yanukovych e, com isso, a situação financeira do time mudou. "O Metalist foi comprado por Sergey no ano passado e ele era muito próximo do ex-presidente. Com os dois foragidos, ficou complicado para o time se manter", explicou Alex Merino.

Os jogadores chegaram a ficar com os salários atrasados, mas, com a negociação de alguns atletas na última janela de transferências, o clube conseguiu quitar parte dos vencimentos. O futuro das finanças do Metalist, no entanto, ainda é incerto, já que o paradeiro de Kurchenko é desconhecido.

Tabela confusa

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Image caption Após referendo na Crimeia, região deixou de fazer parte da Ucrânia e foi anexada à Rússia

O grande reflexo da crise política no futebol foi o adiamento em duas semanas do retorno do Campeonato Ucraniano após a parada de inverno. O torneio deveria ter sido retomado em 28 de fevereiro, mas a bola só voltou a rolar na Ucrânia na semana passada, com duas rodadas precisando ser adiadas.

Um dos jogos adiados foi o grande clássico do país, entre Dynamo Kiev e Shakhtar Donetsk, que opõe justamente os dois lados da crise política: a capital Kiev, que é pró-Ucrânia, e a cidade de Donetsk, no extremo leste do país, região em que grande parte da população é de etnia russa - a exemplo do que ocorre na Crimeia, que foi às urnas para decidir por uma separação da Ucrânia.

E, por conta dos confrontos políticos, ainda não se sabe para quando o jogo será remarcado.

"Acho que estão esperando para marcar para ver se acalma a situação. Eles têm medo de os torcedores do Shakhtar virem para cá e haver confronto", contou o zagueiro do Dynamo Kiev, Danilo Silva, à BBC Brasil.

O campeonato mal voltou à ativa e outro impasse já precisa ser resolvido. Com a anexação da Crimeia à Rússia, os times da região - Sevastopol e Tavriya Simferopol – vão seguir jogando o Campeonato Ucraniano ou vão aderir às novas fronteiras e disputar o Campeonato Russo?

Para definir essa questão, o presidente da Federação Ucraniana de Futebol, Anatoliy Konkov, vai se reunir com a Uefa (Federação Europeia de Futebol) e com a Fifa.

Futebol e Política

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Image caption No ápice dos protestos, confrontos violentos na rua chegaram a deixar 82 mortos

Os momentos mais tensos dos protestos contra o presidente Yanukovych ocorreram quando o futebol do país estava "de férias". E, após a pausa de inverno, os times se reúnem geralmente fora do território ucraniano para fazer a pré-temporada longe do frio.

Foi o que aconteceu com Danilo Silva, do Dynamo Kiev (único jogador brasileiro do time), que, apesar de ter se assustado com a dimensão que os protestos ganharam na capital, esteve a maior parte do tempo longe deles. Mas, ainda assim, ele passou alguns apuros na cidade.

"Quando a situação ficou mais tensa, no ápice, com muitas mortes, eu acabei ficando uns dias no Centro de Treinamento do Dynamo, que é mais afastado. Foi até orientação do clube por precaução", disse.

"Passei dois ou três dias dormindo no CT, aí viajamos para a Espanha para jogar a Europa League e, quando voltamos, estava mais calmo. Aí minha esposa voltou para a Ucrânia também."

Assim como Danilo Silva, outro brasileiro que viu sua rotina ser afetada pela crise ucraniana foi o meia-atacante Bernard, que se transferiu do Atlético-MG para o Shakhtar Donetsk (clube com 11 brasileiros no elenco) no ano passado.

Quando esteve com a seleção brasileira para o amistoso contra a África do Sul em Johanesburgo, o jogador chegou a falar com os jornalistas sobre o assunto e até confessou ter um plano de fuga traçado caso as coisas piorassem.

"Está tudo mundo tenso, mas tomamos as providências necessárias. Temos passagem para deixar o país se for preciso e deixamos o nosso nome na embaixada, caso seja necessário deixar o país de forma urgente. A gente não sabe o que esperar", disse.

Rivalidade de lado

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Image caption Com o investimento de Rinat Akhmetov, o Shakhtar conquistou muitos títulos na Ucrânia

A principal rivalidade do futebol ucraniano existe entre torcedores do Dynamo Kiev e do Shakhtar Donetsk. O primeiro é dono de 13 títulos nacionais, enquanto o segundo tem 8 e está se aproximando cada vez mais do rival após os recentes investimentos do bilionário do ramo de mineração, Rinat Akhmetov, outro aliado do governo de Viktor Yanukovych.

A rivalidade fica estampada nas arquibancadas quando as duas equipes se enfrentam, como relatou o zagueiro Betão, ex-Corinthians e que jogou por quatro anos no Dynamo.

"Além do futebol, tinha rivalidade política também. Na Ucrânia, eles têm um costume de o torcedor visitante se juntar ao torcedor mandante nos jogos para cantar o nome da cidade onde o jogo está acontecendo. Mas isso nunca acontece quando Shakhtar e Dynamo se enfrentam."

Apesar da rivalidade entre as torcidas em todo o país, durante os grandes protestos na capital ucraniana, ela foi deixada de lado. Os torcedores organizados (chamados "ultra") de alguns dos times, se uniram no país em favor dos manifestantes para defendê-los dos confrontos violentos com a polícia.

E agora, depois do período intenso de manifestações, uma onda de nacionalismo tomou conta do país. Na retomada do Campeonato Ucraniano, o hino nacional, que nunca toca antes das partidas, foi entoado com entusiasmo pelos torcedores do Dynamo Kiev, que ainda fizeram um mosaico com a bandeira ucraniana no estádio Olímpico.

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