Incerteza sobre intenções russas alimenta temor de invasão da Ucrânia

  • 24 março 2014
Vladimir Putin (foto: AFP) Image copyright AFP
Image caption Rússia pode usar crise na Ucrânia para consolidar presença em territórios separatistas

A preocupação da Otan (aliança militar ocidental) de que as forças russas são capazes de deslocar-se rapidamente para o leste da Ucrânia ressalta o grau de incerteza da crise atual - bem como a incapacidade da Otan e dos diplomatas ocidentais em prever as intenções da Rússia.

A Otan tem observado a movimentação de tropas russas desde o início da crise. Fontes dos Estados Unidos afirmam que 20 mil militares russos têm participado de exercícios perto da fronteira ucraniana.

O comandante da Otan, general Philip Breedlove, diz acreditar que essas forças "são de um tamanho suficiente para representar uma ameaça potencial" não apenas para a Ucrânia, mas também para a Moldávia.

A Moldávia é uma pequena república a oeste da Ucrânia onde um pequeno enclave pró-Rússia – a Transnístria – tem intenções separatistas. Há pouco mais de mil militares russos por lá, funcionando ostensivamente como uma força de paz.

Não está muito claro o que Breedlove queria dizer, mas parece improvável que ele tema que forças russas avancem por toda a Ucrânia até a Moldávia. Seu ponto parece ser que agora há evidências suficientes de que a Rússia tentará explorar essa crise consolidando sua posição em outros territórios que, de um jeito ou de outro, pedem o apoio de Moscou.

Roteiro russo

Em suas análises, os militares precisam olhar tanto para a capacidade potencial quanto para as intenções. A visão dos militares do Ocidente é que a Rússia, com a desculpa dos recentes exercícios, já acumulou um número suficiente de tropas para pelo menos realizar uma ofensiva inicial no leste da Ucrânia.

Por ora, porta-vozes russos em Moscou insistem que não é essa a intenção do país. Mas eles diziam a mesma coisa algumas semanas atrás sobre a Crimeia.

Desde o início, tem sido especialmente problemático determinar o roteiro russo nesse jogo.

No nível político-estratégico, aparentemente o Ocidente subestimou muito ou não conseguiu entender inteiramente o sentimento de humilhação nacional sentido pelo presidente russo, Vladimir Putin, e seu círculo com o colapso da União Soviética e o aparente enfraquecimento da Rússia.

Sua frustração ao assistir a mais de uma década de operações militares do Ocidente em outros países foi frequentemente ignorada; a ênfase na narrativa ocidental, focada no engajamento com a Rússia – ainda que hesitante –, além do recente envolvimento diplomático russo na Síria e no Irã - apesar de seus problemas -, pareceram, até um certo ponto, confirmar a opinião daqueles que diziam que a Rússia queria assumir um papel construtivo.

Mas a aventura de Putin na Crimeia mudou a perspectiva de tudo. Diplomatas ocidentais com quem a BBC conversou acreditam que o episódio não foi explicitamente premeditado, mas que o Kremlin agiu com rapidez para aproveitar uma situação que mudava rapidamente - uma situação que Moscou procurou explorar ao incentivar o sentimento pró-Rússia.

Esse tipo de desestabilização interna continua. Diplomatas ocidentais atribuem alguma credibilidade a números divulgados pelo Ministério do Interior ucraniano, que diz ter impedido que centenas de pessoas cruzem a fronteira vindos da Rússia a cada semana – alguns deles, armados; outros com equipamentos como bússolas; e outros ainda aparentando ser ex (ou mesmo atuais) membros das forças especiais russas.

Tal infiltração, juntamente com o surgimento de milícias pró-Rússia, deixam a iniciativa acima de tudo nas mãos de Putin.

Neste momento, pode ser que de fato ele não tenha o desejo de invadir o leste da Ucrânia. Mas o que aconteceria se elementos pró-Rússia entrassem em confronto com as forças de segurança ucranianas? O que aconteceria se houvesse troca de tiros e perda de vidas? Putin então estaria apenas reagindo aos fatos ou teria de fato ajudado a criar tais fatos, permitindo uma intervenção?

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