Kennedy cogitou ação militar contra Goulart

  • 28 março 2014
Biblioteca JFK, arquivo digital Image copyright xx
Image caption Em abril de 1962, o presidente Kennedy dos EUA recebeu o presidente João Goulart no salão oval da Casa Branca.

Em pouco mais de um ano, durante a Presidência de John F. Kennedy, as relações americanas com João Goulart foram do "ápice" à deterioração total, ao ponto de os Estados Unidos chegarem ao fim de 1963 cogitando uma intervenção militar no Brasil.

Porém, a veloz resignação de Jango à sua própria queda meses depois poupou os brasileiros de verem tropas americanas desembarcando em território nacional – uma ideia que soava tão escandalosa que os próprios americanos relutavam em abraçar, indicam os arquivos da época.

A possibilidade estava na manga caso houvesse "uma clara evidência de intervenção do bloco soviético ou de Cuba do outro lado", precisou o então embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, em um plano de contingência discutido com o Departamento de Estado em dezembro de 1963 e obtido pelo historiador Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A hipótese de uma ação armada também foi assunto de conversa entre Gordon e Kennedy em Washington em outubro de 1963, segundo uma gravação revelada pelo jornalista Elio Gaspari na reedição de A Ditadura Envergonhada.

Segundo o registro, o então presidente perguntou ao embaixador se a situação no Brasil estava "indo para onde deveria", ou se era "aconselhável que façamos uma intervenção militar".

'Nova Cuba'

As desconfianças de Kennedy em relação a Jango se exacerbaram entre fins de 1962 e fins de 1963, período em que os Estados Unidos se preocupavam em "evitar uma nova Cuba na América Latina".

Evitar que o Brasil de Jango "deslizasse" para o comunismo virou um "mantra" em Washington, disse à BBC Brasil o historiador Peter Kornbluh, da organização National Security Archives, que pressiona pela desclassificação de documentos históricos do governo americano.

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Image caption As relações entre Kennedy e Jango foram se deteriorando com o passar do tempo

O "ápice" da relação Kennedy-Jango fora durante a crise dos mísseis, em outubro de 1962, quando a inteligência americana revelou que a União Soviética estava posicionando mísseis na ilha comunista de Cuba.

A pedido de Kennedy, Goulart enviou um emissário à ilha comunista para servir de intermediário secreto entre Havana e Washington, segundo um detalhado estudo de James Hershberg, historiador da Universidade George Washington.

O emissário brasileiro, general Albino Silva, chegou em Havana quando o líder soviético Nikita Kruschev já anunciara a retirada dos mísseis de Cuba.

Mas o episódio é interpretado na historiografia como sinal do "benefício da dúvida" que Kennedy estendia a Goulart. Porém, no fim, serviu para reforçar as desconfianças do norte do continente.

Hershberg diz que a Casa Branca achou que Jango "virava a casaca" em temas importantes conforme sua conveniência.

Kornbluh explica que a Casa Branca não gostou da recusa de Jango em se se alinhar aos Estados Unidos em um voto contra Cuba na Organização dos Estados Americanos (OEA) por ter aceitado esses mísseis.

Em vez disso, Jango defendera uma zona livre de armas nucleares na América Latina. "No final, Kennedy se convence de que, se Goulart não estava com eles, estava contra eles", disse o historiador.

Operação Brother Sam

O líder brasileiro seria deposto apenas meses antes da reunião da OEA em julho de 1964 que expulsou Cuba e resultou no seu isolamento do hemisfério.

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Image caption Em visita à Casa Branca, Jango e o general Amaury Kruel, que acabaria aderindo ao golpe que derrubou o presidente em 1964

Entre a crise dos mísseis e o golpe de 64, as relações Estados Unidos-Brasil "se deterioraram acentuadamente", escreve Hershberg, com Kennedy segredando a um visitante que a situação no Brasil lhe preocupava "mais que Cuba".

Arquivos digitalizados pela biblioteca JFK mostram que, cinco dias antes do assassinato de Kennedy, em novembro de 1963, o embaixador Lincoln Gordon recomendava ao presidente que não incluísse o Brasil em um giro por países latino-americanos que faria no início de 1964.

Gordon mencionava o baixo comprometimento de Goulart com o esforço regional de integração de Kennedy, a Aliança para o Progresso, e sua aversão a investimentos estrangeiros.

A antipatia do embaixador – que identificava tendências peronistas e ditatoriais em Goulart, apesar de ser questionado pelo Departamento de Estado em ocasiões – é bem documentada.

Hoje os historiadores também sabem que a chamada operação Brother Sam – o envio de uma força naval composta de petroleiros, destróieres e o prestigioso porta-aviões USS Forrestal para a costa brasileira – foi planejada durante o governo Kennedy e executada no período de seu sucessor, Lyndon B. Johnson.

A frota levaria combustíveis, armamentos e gases para controle de multidão para reforçar o arsenal das forças anti-Goulart.

'Cara de legitimidade'

Durante anos, o regime militar brasileiro e o governo americano sustentaram a versão de que os Estados Unidos apenas reconheceram um golpe "made in Brazil", sem interferência dos grande vizinho do norte. Quando a operação Brother Sam veio à tona, Gordon afirmou que se tratava apenas de demonstração de força.

Porém, no plano de contingência obtido pelo professor Carlos Fico, o embaixador previra que os Estados Unidos poderiam apoiar os conspiradores "de forma encoberta ou mesmo aberta, particularmente (apoio) logístico (gasolina, óleos e lubrificantes, alimentos, armas e munição)".

"A ideia era fazer uma espécie de ponte aérea entre o porta-aviões e uma região de São Paulo para a entrega dessas munições e armas. Como é que iriam fazer isso essa entrega sem desembarcar?", questiona o professor. "Seria impossível."

Ao mesmo tempo, os documentos indicam que o embaixador americano se preocupava com a "cara de legitimidade" que permitiria ao governo americano reconhecer o novo regime no Brasil.

Em um telegrama enviado na tarde de 31 de março, por exemplo – disponível nos Arquivos Nacionais americanos –, Lincoln Gordon informa o Departamento de Estado sobre "movimentos militares em Minas Gerais totalmente apoiados pelo governador Magalhães Pinto".

"Tomei ação de repassar aos principais governadores a mensagem sobre (a) importância vital (de) cores de legimitidade", afirma o embaixador.

"Meus intermediários estão se informando sobre como (o) grupo de governadores propõe lidar com (a) questão crítica (do) manto de legitimidade e (a) posição enquanto defensores da constituição (...) se não houver apoio do Congresso."

A pesquisa de Carlos Fico revelou uma singular semelhança entre as ações ocorridas em Minas e o cenário que o governo americano considerava mais "desejável".

Pouco antes do golpe, Magalhães Pinto nomeara um secretariado especial, "como se fosse um ministério", e designou inclusive uma espécie de "chanceler", Afonso Arinos, "para obter no exterior o reconhecimento do governo alternativo", disse Fico à BBC Brasil.

Correspondendo-se com Washington em dezembro de 1963, Gordon avalia que "se uma parte significativa do território nacional ficasse em poder de forças democráticas, a formação de um governo provisório para requisitar ajuda seria altamente desejável".

"Ora, as ações de Magalhães Pinto são exatamente o que estava previsto no plano de contingência americano", raciociona o historiador. "Eu não tenho dúvida de que no futuro, à medida que os documentos sejam liberados, essa articulação (dos Estados Unidos) com Magalhães Pinto aparecerá."

'Grande lacuna'

Os historiadores acreditam que, no futuro, o dedo americano também pode aparecer em outros episódios que precederam a deposição de Goulart.

O contato brasileiro dos militares americanos – representados no Brasil pelo adido militar Vernon Walters – era o general José Pinheiro de Ulhôa Cintra. Ulhôa, Walters e Castello Branco lutaram lado a lado na Itália durante a 2ª Guerra Mundial. Sabe-se pouco sobre a influência dessa proximidade nos acontecimentos.

Mas "a grande lacuna" são os documentos operacionais americanos no Brasil, avalia Peter Kornbluh.

"Não temos nenhum documento operacional da CIA entre 1960 e 1964 desclassificado. Faltam os telegramas, os planos da estação (da CIA) no Rio, os relatórios de atividades", queixa-se.

Em suas memórias, o ex-agente da CIA Phillip Agee afirmou que a agência foi responsável por milhões de dólares que financiaram candidatos anti-Goulart nas eleições legislativas e para governador realizadas em 1962.

Entretanto, Kornbluh diz acreditar que "existe influência da CIA que não conhecemos, de fomento, agitação, infiltração em sindicatos, operações políticas clandestinas e possivelmente a manutenção de militares na sua folha de pagamento".

"Falta um capítulo inteiro dessa história", diz Kornbluh.

Apoio decisivo

Deposto Goulart, Washington reconheceu o regime militar tão rapidamente que até levantou no resto do mundo as suspeitas de que estivesse diretamente envolvido, conta Kornbluh.

Tanto que, no golpe contra o chileno Salvador Allende, em 1973, a Casa Branca transmitiu seu apoio ao general Pinochet, mas esperou um "intervalo decente" antes de manifestar publicamente seu reconhecimento.

Para Carlos Fico, há elementos para crer que Jango tivesse ideia do comprometimento americano com os conspiradores. Anos depois, no exílio,o líder deposto disse que não reagiu para evitar uma "sangueira" certa.

"A gente não sabe o que poderia ter acontecido se Goulart tivesse reagido. Talvez tivesse conseguido dispersar as tropas golpistas", conjectura o historiador. "Mas certamente, quando soube do apoio norte-americano, ele teve um baque."

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